Chama-se Invisível Invertido, tem leveduras no gargalo e a Ervideira propõe uma experiência que nunca se viu à mesa.
Na semana passada, a Herdade da Ervideira reuniu alguns convidados, entre os quais o Echo Boomer, numa sessão exclusiva e intimista, com o propósito de apresentar em primeira mão um conjunto de novidades que desafiam convenções enológicas, práticas comerciais e os próprios quadros regulamentares vitivinícolas nacionais.
A principal novidade é o Invisível Brut Nature Imperial Invertido, uma derivação do consagrado projeto Invisível que faz chegar ao consumidor final um espumante… que não foi degorjado na adega.
Recusando a via das leveduras encapsuladas – pequenas esferas que dispensam o processo de remuage e que facilitariam o manuseamento, mas que retirariam a autenticidade e a nobreza ao produto -, a equipa enológica optou pelo método clássico tradicional, mantendo leveduras livres na garrafa. Para que o processo funcione, as garrafas passam por uma semana de remuage, sendo rodadas e inclinadas progressivamente em pupitres até que o depósito de leveduras desça na totalidade até ao gargalo e fique fixado junto à carica metálica. Em vez de seguir para a linha mecânica de congelamento do gargalo, extração da levedura e adição de licor de expedição, a garrafa é imediatamente acondicionada de cabeça para baixo dentro de um tubo protetor e estrutural próprio, concebido para impedir que o produto se vire ou que a levedura volte a turvar o líquido.
Este formato permite ao consumidor retirar a carica em ambiente doméstico e testemunhar a expulsão do depósito pelas cerca de seis bar de pressão acumuladas na segunda fermentação em garrafa, provando o espumante no seu estado mais genuíno e puro, sem qualquer intervenção corretiva, conservantes adicionais, anidrido sulfuroso de acabamento ou licores de dosagem constituídos por ácidos tartárico, láctico ou málico.
A embalagem exterior em tubo incorpora instruções pormenorizadas no verso e inclui um código QR que encaminha o utilizador para um vídeo explicativo no YouTube, criado para desmistificar todo o processo prático de abertura, evitar acidentes e ensinar a servir. O vídeo e a equipa técnica salvaguardam igualmente a hipótese de o vinho ser consumido turvo, assumindo as leveduras em suspensão à semelhança do perfil de uma cerveja de trigo ou artesanal não filtrada. Caso a garrafa sofra agitações acidentais no transporte, o protocolo indicado passa por devolvê-la ao interior do tubo e colocá-la na porta do frigorífico durante cerca de cinco a sete dias; com o frio e a gravidade, a levedura volta a precipitar naturalmente em direção à carica, recuperando a limpidez integral do espumante.
O lançamento do produto esbarrou, contudo, em fortes constrangimentos legais junto da Comissão Vitivinícola Regional e do Instituto da Vinha e do Vinho. A legislação nacional impõe de forma taxativa que qualquer produto comercializado sob a designação oficial de espumante tem de ostentar obrigatoriamente rolha de cortiça em forma de cogumelo com cesto de arame. Por outro lado, a elevada pressão de gás gerada pela segunda fermentação impede que seja enquadrado como vinho tranquilo.
Confrontadas com a ausência de normas aplicáveis a esta abordagem e com um vazio regulamentar semelhante ao que afeta os vinhos pet-nat – que fermentam apenas uma vez e rondam os três bar e meio -, as entidades reguladoras rejeitaram a certificação como espumante com Denominação de Origem Controlada ou Vinho Regional Alentejano. Perante o impasse, a saída viabilizada passou por registar e comercializar o produto com o selo do IVV sob a classificação de vinho de mesa, existindo o compromisso tácito de trabalhar com as autoridades do setor ao longo do próximo ano para consagrar uma alteração legislativa que permita acolher esta inovação sob o estatuto de Denominação de Origem no futuro.
A tiragem inicial do Invisível Invertido foi delimitada a 2.500 garrafas, direcionadas exclusivamente ao abastecimento do mercado nacional, prevendo-se que o stock esgote antes da época natalícia. O produto chega ao circuito comercial com um preço de venda ao público recomendado de 22€, valor que integra a totalidade dos impostos e as margens de retalho e distribuição, elegendo como canais prioritários garrafeiras especializadas e lojas de referência como o El Corte Inglés.
A expansão dos volumes está já salvaguardada pela existência de um contingente de 25.000 garrafas de espumante Invisível da colheita de 2024 que se encontram guardadas em pontas na adega, podendo ser integradas neste formato conforme a cadência do mercado. Esta dinâmica surge sustentada pelo historial de vendas da produtora, que na estreia do espumante Invisível viu esgotar a produção total de 12.000 garrafas em cinco semanas, o que motivou a subida da produção para 25.000 garrafas e a projeção de alcançar 40.000 unidades a curto prazo, inseridas num universo em que a marca nuclear Invisível já ultrapassou o patamar anual de 200.000 garrafas.
Para além do espumante, o encontro serviu para detalhar a evolução da gama de vinhos tranquilos, com particular destaque para o Vinha D’Ervideira Vinho da Família 2024. Contrariando a tendência de consumo que procura vinhos mais despretensiosos e ligeiros, a casa desenhou uma referência assumidamente encorpada, estruturada e de peso clássico, sem prescindir da acidez, frescura e elegância na prova, e com um preço bastante acessível de 11€.
Em contraponto a esta opção, foi anunciado que, na primavera do ano seguinte, será revelado um projeto vinícola de feição francamente leve, concebido para marcar um ponto de viragem e atrair novos perfis de consumidores.
No segmento de maior valor acrescentado, a casa revelou ainda dois tintos de topo que refletem a seleção rigorosa de viticultura e adega. O Conde D’Ervideira Vinho Tinto Private Selection 2022 marca o regresso desta chancela histórica após a ausência de edições desde 2021, apresentando-se apenas em anos de qualidade excecional com um rótulo que replica o desenho oitocentista de 1880 herdado da família. O lote privilegia o equilíbrio entre o lado racional e identitário do Aragonês, presente em 40%, e a vertente emocional e opulenta do Alicante Bouschet, que assume mais de 60% da composição, beneficiando de estágio em barricas de carvalho francês e demonstrando uma aptidão comprovada para evoluir favoravelmente em garrafa durante pelo menos dez anos. Custa 55€.
Tivemos também a estreia absoluta do Conde D’Ervideira Grande Escolha do Enólogo Alicante Bouschet 2023, que eleva o estatuto dos vinhos de autor da propriedade. Assume-se como um monovarietal de Alicante Bouschet trabalhado a partir de vinhas velhas e estagiado durante um ano em barricas de carvalho com tosta ligeira, tendo sido pensado para resguardar a genuinidade da fruta compotada e as notas balsâmicas de eucalipto, coroando uma estratégia que funde a identidade secular alentejana com o arrojo de quebrar dogmas à mesa. Tem um PVP de 80€.
