Exclusivos de consola começaram a receber recompilações nativas para PC sem depender de emuladores

- Publicidade -

A comunidade de jogadores começou a recuperar jogos anteriormente presos às consolas como a XBOX 360, PlayStation 4 ou Nintendo 64, com recompilações “gratuitas” que permitem jogar a resoluções superiores, mais FPS, controlos melhorados e muito mais.

Durante muito tempo, quem quisesse jogar no PC títulos que só tinham sido lançados em consolas tinha, muitas vezes, de recorrer a um emulador ou esperar que as produtoras fizessem conversões oficiais, como assistimos na última geração com a PlayStation e a XBOX a apostarem cada vez mais no PC. E enquanto as conversões oficiais e a emulação continuam a ser as soluções mais recorrentes, começou agora a surgir uma vaga de adaptações criadas pela comunidade, que prometem dar uma nova vida a jogos que nunca tiveram uma versão para PC. E o melhor de tudo é que algumas chegam a correr melhor do que nas consolas originais, sem depender de emuladores tradicionais. Entre os exemplos mais interessantes estão o primeiro Forza Horizon, Fable II e Skate 3, três títulos da XBOX 360, e até Bloodborne, que continua na prisão da PlayStation 4.

Estas adaptações são conhecidas como recompilações (ou recomps para os amigos) e permitem aproveitar o código original dos jogos para criar versões nativas para PC, sem ser necessário recriá-los de raiz. Em alguns casos, as melhorias aproximam-se das que encontraríamos numa remasterização, com resoluções superiores, FPS desbloqueados, controlos modernizados e até suporte para mods. E enquanto algumas continuam em desenvolvimento, outras já permitem jogar do princípio ao fim. No entanto, convém mencionar que estes projetos não incluem os jogos originais, sendo necessário possuir uma cópia adquirida legalmente e obter os respetivos ficheiros através dos métodos permitidos.

Como começou esta vaga de recomps?

zelda 64 recompiled 1
The Legend of Zelda: Majora’s Mask

Embora este método de conversão já exista há bastante tempo, foi em 2024 que começou a despertar maior interesse, graças ao programador Mr-Wiseguy, responsável pelo N64: Recompiled, uma ferramenta que tornou possível converter jogos da Nintendo 64 em aplicações nativas para PC. A primeira cobaia de sucesso foi The Legend of Zelda: Majora’s Mask, cuja conversão demonstrou que era possível recuperar um jogo na sua totalidade, com melhorias que não existiam na consola original.

A partir daí, começaram a aparecer ferramentas semelhantes para outras plataformas, especialmente para a XBOX 360, como o XenonRecomp e o ReXGlue. Este último aproveita parte do trabalho desenvolvido para o emulador Xenia, permitindo que os programadores reutilizem componentes já existentes em vez de começarem tudo do zero. O processo continua a exigir bastante trabalho, mas tornou-se mais acessível, o que ajuda a explicar porque estão a aparecer tantos projetos num espaço tão curto de tempo.

Mas talvez um dos fatores mais determinantes desta nova vaga de recompilações seja a exploração de ferramentas de inteligência artificial, que alguns programadores começaram a utilizar para acelerar o desenvolvimento. E nem todos estão de acordo com essa utilização, existindo até equipas que proíbem expressamente o recurso a IA generativa.

O regresso da XBOX 360.

skate 3 recompiled 1
Skate 3

Com ou sem IA pelo caminho, do ponto de vista dos jogadores é especialmente interessante ver títulos que ficaram presos a uma única geração regressarem em condições que dificilmente seriam possíveis nas consolas originais. É o caso do primeiro Forza Horizon, lançado em 2012, que já pode ser jogado através do Pinyon Shift, permitindo voltar a explorar o Colorado a 60 ou 120 FPS, com 4K, HDR e até suporte para mods. Mas talvez o mais surpreendente seja a quantidade de equipamentos onde já funciona, desde computadores Windows e Linux à Steam Deck, Macs com processadores Apple Silicon e até dispositivos Android, embora esta última versão ainda seja experimental.

E enquanto Forza Horizon demonstra até onde podem chegar estas conversões, Skate 3 é um exemplo de como a tecnologia continua a evoluir. O Skate 3 Recomp recebeu recentemente uma atualização que substituiu o antigo sistema gráfico por outro desenvolvido especificamente para PC, permitindo mais do que duplicar os FPS e reduzir o consumo energético para cerca de um quarto do anterior. São melhorias especialmente interessantes para equipamentos portáteis, embora ainda existam problemas gráficos e a campanha completa não tenha sido testada com este novo sistema.

Já no caso de Fable II, a história é bastante diferente. O RPG da Lionhead Studios, lançado em 2008, nunca teve uma versão oficial para PC, mas o Fable 2 Recompiled já permite terminar a campanha principal. E este é também um dos projetos que melhor demonstra o papel que a inteligência artificial começa a ter nestas conversões. O programador responsável refere que utilizou um modelo local da família Qwen, que conseguiu colocar o jogo a funcionar ao fim de aproximadamente uma hora, seguindo-se um longo processo de correções manuais até chegar ao estado atual. Ainda existem, no entanto, problemas por resolver, mas já é possível acompanhar a história até ao fim.

O mais curioso é que esta vaga não está limitada aos jogos mais conhecidos. Sonic Unleashed, o infame jogo de 2008 em que Sonic se transformava num “lobisomem”, foi um dos primeiros grandes exemplos, através do Unleashed Recompiled. A conversão recupera a versão da XBOX 360, conhecida pelas suas quebras de desempenho, numa adaptação bastante mais sólida e com uma comunidade de mods que continua a acrescentar conteúdos.

Também Lost Odyssey, o RPG da Mistwalker considerado por muitos como um irmão de Final Fantasy, pode finalmente ser jogado no PC através do Lost Odyssey Recomp. E neste caso, para além de suportar tecnologias como DLSS, FSR e XeSS, resolve também o “problema” da troca de discos, que passa a ser automática ao longo da história. É também um dos poucos projetos com uma versão para Android, embora continue em desenvolvimento.

O mesmo trabalho está a chegar a jogos que provavelmente nunca receberiam conversões oficiais, como Spider-Man: Edge of Time, da Beenox, e The Simpsons Game, cujas adaptações EdgeOfTimeRecompiled e The Simpsons Game Recompiled já permitem recuperar as aventuras originais no PC. No caso de The Simpsons Game, os programadores introduziram até uma câmara livre e um modo de fotografia, algo que nunca esteve disponível na versão da XBOX 360.

Nintendo 64 abriu caminho para recuperar os clássicos.

banjo kazooei recompiled
Banjo-Kazooie

Apesar de ter sido uma das primeiras experiências a popularizar este movimento, Majora’s Mask continua atrair a atenção dos curiosos, como é o exemplo de Zelda 64: Recompiled, uma das recompilações mais populares do jogo, que vai além das melhorias visuais ao introduzir controlos mais modernos, incluindo uma câmara que pode ser movimentada livremente com o segundo analógico. A sua equipa está também a trabalhar no suporte para The Legend of Zelda: Ocarina of Time, mas esta ainda não faz parte da aplicação pública.

E existem outros exemplos de como estas conversões podem corrigir algumas das limitações dos jogos originais. Em Banjo-Kazooie, Banjo: Recompiled altera a forma como as notas recolhidas são guardadas, evitando que seja necessário voltar a apanhá-las sempre que se abandona um nível, enquanto o Donkey Kong 64: Recompiled reduz consideravelmente os tempos de carregamento, que eram uma das características menos positivas da aventura original. Tudo pequenas alterações, mas que fazem uma diferença considerável quando se regressa a estes jogos após tantos anos.

Curiosamente, as equipas responsáveis por Zelda 64: Recompiled e Banjo: Recompiled, são dois projetos que se afastam da atual tendência de utilização de IA para o efeito, apresentando assim uma posição completamente diferente da adotada pelo programador de Fable II, onde até se negam à utilização de ferramentas de IA generativa no desenvolvimento e proíbem contribuições de outros programadores nesses moldes. E tal como acontece com os jogos da XBOX 360, estas adaptações exigem ROMs compatíveis, obtidas legalmente, uma vez que os projetos distribuem apenas as aplicações necessárias para executar os jogos.

Um novo mundo.

pgr 4 recompiled
Project Gotham Racing 4

A quantidade de projetos em desenvolvimento tem crescido exponencialmente nas últimas semanas, e um dos casos mais interessantes é Forza Horizon 2, que já está a ser recuperado através de dois projetos diferentes. Por um lado, a recompilação da versão da XBOX 360 já consegue iniciar o jogo, mas ainda não ultrapassa o ecrã de carregamento. Por outro, o Azimuth, lançado a 10 de outubro pela Almost There Games, já permite jogar a versão da XBOX One no PC, a 60 FPS e com várias melhorias gráficas, utilizando uma camada de compatibilidade em vez de recompilação estática. Outro exclusivo do género que está a ser recuperado é Project Gotham Racing 4, de 2007, que já permite participar em corridas através do PGR4-Recomp. O responsável continua a trabalhar em melhorias gráficas e pretende acrescentar suporte para volantes, mods e funcionalidades online, recuperando assim mais um dos melhores jogos de corridas que nunca teve uma versão oficial para PC.

Entretanto, a comunidade também está a trabalhar em Sonic the Hedgehog (2006), com o Marathon Recompiled, e em Crackdown 2, que já tem uma conversão em desenvolvimento, embora ainda não esteja pronta para jogar normalmente. Outros projetos que se encontram mais avançados, são Condemned2Recomp, que já permite experimentar Condemned 2: Bloodshot, e ReTiP, dedicado a Viva Piñata: Trouble in Paradise, com alterações à gestão dos jardins e suporte para mods.

Mas o caso mais mediático é, talvez, seja Bloodborne, o RPG de ação da FromSoftware que continua exclusivo da PlayStation 4. Embora não utilize o mesmo processo de recompilação dos restantes jogos, o projeto bbport está a desenvolver uma forma de executar diretamente o jogo no PC, substituindo os componentes específicos da consola. Já existem versões experimentais para Linux e Windows, com algumas áreas jogáveis, mas ainda há bastante trabalho por fazer até ser possível substituir completamente a experiência original.

Por enquanto, os projetos encontram-se em fases muito diferentes, desde experiências que ainda não conseguem passar de um ecrã de carregamento até jogos cuja campanha já pode ser terminada. E com recompilações de Forza Horizon 2, Project Gotham Racing 4 e Bloodborne ainda em desenvolvimento, os próximos meses deverão trazer novos progressos, especialmente nos jogos que continuam sem qualquer perspetiva de receber uma conversão oficial para PC.

David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Relacionados