Marvel Tōkon: Fighting Souls tem tudo para ser um dos melhores Fighting Games dos últimos anos capaz de preencher o vazio deixado por Dragon Ball FighterZ e, mais importante ainda, o de Marvel vs. Capcom 3.
Análise por: André Henriques
Dragon Ball FighterZ introduziu, ou reintroduziu, muitos jogadores ao mundo dos jogos de luta, trazendo novos fãs para este género, por vezes incompreendido e até mal-amado. Eu fui uma dessas pessoas. Sempre adorei jogos de luta, acompanho a EVO religiosamente faz anos, sabendo perfeitamente que o meu percurso nestes títulos passava, na maioria das vezes, por terminar as campanhas e “levar no pelo” nos Ranked. Ainda assim, foi com o jogo da Arc System Works que decidi explorar um pouco mais aquilo que este género tinha para oferecer.
Nunca avancei muito em Dragon Ball FighterZ, apenas o suficiente para ser o melhor entre aqueles que se sentavam no sofá da sala por entre o meu grupo de amigos, mas a verdade é que sempre me deixou com vontade de aprender e explorar mais. Foi por isso que, com o anúncio de Marvel Tōkon: Fighting Souls – um jogo de luta que volta a unir uma propriedade que me diz tanto -, decidi parar e estudar este tipo de jogos, tornando esta experiência facilmente numa das mais recompensadoras e gratificantes dos últimos tempos.
Marvel Tōkon traz consigo o peso de uma marca que continua a bater recordes de bilheteira, com Avengers: Doomsday planeado para voltar a fazê-lo no final do ano. Um jogo onde posso controlar não só personagens tão reconhecidas como Spider-Man, Wolverine e Iron Man, mas também Peni Parker e Magik, acaba inevitavelmente por encontrar um público que atravessa tanto os fãs dos filmes como os leitores de banda desenhada. E é precisamente por aí que começo.
Como já é habitual neste género de jogos, Marvel Tōkon com vários modos de jogo, desde o tradicional Versus e Ranked até outras propostas mais experimentais, muitas delas extremamente bem conseguidas. O Modo Campanha é talvez aquele que menos apreciei. Apesar de compreender a intenção de entregar a história de cada uma das cinco equipas a diferentes artistas de BD e Manga, como Hiro Mashima, criador de Fairy Tail, e Betten Court, de My Hero Academia: Vigilantes, a verdade é que a forma como é apresentada, através de um estilo motion comic, conduz a momentos de maior e menor qualidade, alguns deles não necessariamente pela forma como são construídos, mas pelo voice acting de determinados atores.

Felizmente, tanto o modo Arcadia Rumble como o All-Star Arena são um deleite. Arcadia Rumble coloca-nos a controlar um avatar chibi de entre as diferentes personagens, golpeando adversários e acumulando pontos frente a outros jogadores num mapa aberto. Ao fim de alguns minutos, somos colocados frente a um dos vários oponentes, numa batalha pela maior quantidade de pontos possível, para que no final sejamos nós a ocupar o primeiro lugar do ranking. Já o All-Star Arena divide-se entre o modo Arena, onde escolhemos quem queremos enfrentar num tabuleiro, e o modo Survival, o meu favorito, que nos coloca numa escalada infinita por vários níveis, enquanto vamos desbloqueando melhorias e atributos, quase como se estivéssemos perante uma espécie de Roguelike. É algo diferente de tudo o que tinha visto até agora por entre os fighting games.
Surpreendentemente, e contrariando uma tendência cada vez mais evidente, Marvel Tōkon estreia-se com apenas 21 personagens, um número que parece “curto” considerando que estamos a falar de um tag fighter, um estilo de jogos onde, ao contrário de títulos como Tekken e Street Fighter, não controlamos uma, mas quatro personagens neste caso. O número reduzido e a necessidade de entrar em combate com quatro lutadores fazem acreditar que haverá bastante repetição entre equipas e, embora essa possibilidade possa ser real, a verdade é que esse peso e preocupação rapidamente se dissipam.
A Arc System Works é perita em entregar representações extremamente fiéis das personagens que trabalha, indo ao mais ínfimo pormenor dos livros, filmes e restantes materiais que lhes servem de inspiração. Foi isso que fizeram com Dragon Ball FighterZ e é precisamente isso que encontramos em Marvel Tōkon. As diferentes animações e golpes que compõem o kit de cada personagem tornam-nas únicas, não apenas visualmente, mas também na forma como são jogadas e enfrentadas, através de mecânicas singulares que ajudam a legitimar e respeitar o material de origem. Para além disso, o elenco foi pensado para oferecer variedade, contando com algumas surpresas como Danger e Carnage, que trazem algo novo para cima da mesa e impedem que sejamos simplesmente inundados por todo o multiverso de Spider-Man enquanto personagens jogáveis.

Outro dos fatores que contribui para esta distinção é a forma como cada jogador pode abordar e controlar a sua própria equipa, moldando o género a algo distinto que promove a experimentação e, mais importante, respeita a preferência de cada um. Contrariamente à grande maioria dos Tag Fighters, onde predominam formações 3v3 e cada personagem possui a sua própria barra de vida, em Marvel Tōkon esta barra é, na realidade, partilhada pelas quatro personagens. Isto permite que, se assim quiserem, possam concentrar-se num único lutador, mas também optar por distribuir a atenção por dois, três ou até pelos quatro, criando sinergias e combinações entre eles.
Isto tem levado a que, até mesmo no cenário competitivo, se veja jogadores a especializarem-se em uma ou duas personagens, utilizando as restantes como assists, algo que também sofre aqui uma pequena alteração. Em vez de terem acesso a todas as personagens no início do combate, estas vão sendo desbloqueadas à medida que a partida se desenrola, seja por terem perdido uma ronda, seja através de um Wall Break, detalhe tão presente nos jogos da Arc System Works. É algo que nos obriga a moldar constantemente a nossa estratégia e sequência de golpes, dado que os assists são uma das componentes mais importantes do jogo e um dos elementos-chave para dominar e retirar o melhor que Marvel Tōkon tem para oferecer.
A verdade é que, desde Dragon Ball FighterZ, não me divertia tanto com um jogo de luta. A facilidade com que nos sentimos imediatamente um perito ao executar um auto-combo, pressionando repetidamente Light, Medium ou Heavy, cria uma espécie de ilusão deliciosa de que somos mestres dos fighting games, enquanto as belíssimas animações preenchem o ecrã com golpes espetaculares capazes de deixar qualquer um boquiaberto. É algo que os jogadores mais versados rapidamente irão descartar, preferindo construir diferentes combinações sem gastar a barra de energia utilizada nestes ataques especiais, garantindo o mesmo ou até mais dano do que aquele que conseguiriam através deles. Eu, infelizmente, ainda não estou nesse nível.
Contudo, nem tudo acerta no alvo. Os assists, como mencionei, são dos elementos mais importantes do jogo e, quando temos acesso a todos e são utilizados de forma competente, o adversário mal consegue respirar. O curto cooldown entre assists e o longo recovery levam a que o jogo incentive muito mais a agressividade do que a defesa. Em vez de procurarmos o momento certo para atacar e executar um combo, somos constantemente incentivados a pressionar, utilizando assists sucessivamente até quebrar a defesa do adversário, muitas vezes mantendo-o encostado à parede durante longos períodos. Para além disso, a performance online ainda sofre bastante em algumas partidas, embora não tanto como no lançamento, com a versão para PC a estar praticamente injogável. Felizmente, o recente patch corrigiu parcialmente este problema, embora não o tenha eliminado por completo.

Ainda assim, é um daqueles produtos que conta com todo o pedigree da Arc System Works, com dois elementos que tanto distinguem este estúdio: visuais e música. Ainda hoje fico incrédulo perante a qualidade das animações e dos visuais que esta equipa é capaz de entregar, desde os golpes mais simples no meio de um combate até aos ultimates, o verdadeiro pináculo da espetacularidade gráfica em Marvel Tōkon. Cada personagem parece uma carta de amor não apenas ao universo da Marvel, mas também a toda a indústria de animação japonesa, algo que o próprio modo história procura representar. A caracterização e reinvenção dos uniformes de cada personagem pode não agradar a toda a gente, com um Iron Man que parece ter saído diretamente do universo de Gundam, mas é inegável o quão fantástico Marvel Tōkon se apresenta.
Por fim, a música. Existe um motivo pelo qual Guilty Gear Strive e toda a sua banda sonora continuam no topo das músicas mais ouvidas do meu Spotify. São raros os temas associados a cada personagem de que não gosto e o mesmo acontece aqui. Desde composições mais agressivas, assentes em Heavy Metal e Rock, como as de Carnage e Ghost Rider, até propostas mais experimentais como Blade e Spider-Man, a variedade é imensa e preenche cada combate de forma quase perfeita.
Os jogos de luta não são conhecidos por serem um género fácil de ingressar. O peso de décadas de arcadas, aliado à dedicação de uma comunidade que acompanha estes títulos há anos, faz-se sentir a cada partida e pode, por vezes, afastar quem, por algum motivo, sentiu vontade de experimentar um destes jogos. Não se afastem. É um género onde cada segundo conta e onde a prática é absolutamente determinante, mas é também um dos mais recompensadores de toda a indústria. É precisamente por isso que aconselho toda a gente a dar uma oportunidade, seja a Marvel Tōkon ou a qualquer outro título que vos desperte curiosidade.
Desde a Closed Beta que Marvel Tōkon sofreu algumas alterações e, desde então, ficou bastante melhor: mais rápido, mais natural e mais fluido. Ainda assim, é notório que existem alguns detalhes a precisar de ser polidos e, mesmo não tendo a melhor campanha ou a melhor ligação online, uma coisa é certa: Marvel Tōkon é um dos melhores Fighting Games dos últimos anos e um jogo que vem preencher o vazio deixado por Dragon Ball FighterZ e, mais importante ainda, Marvel vs. Capcom 3. Pretendo aprender, aperfeiçoar e, quem sabe, na altura em que publicar esta análise, já me encontre em Plat após mais de 25 horas investidas num jogo de luta que não creio largar tão cedo.


Cópia para análise cedida pela PlayStation Portugal.
