A Godot Foundation vai apertar as regras de contribuição do motor Godot, justificando que o aumento de submissões geradas por IA está a sobrecarregar os revisores do projeto.
A Godot Foundation vai alterar a política de contribuições do Godot para impedir a utilização de inteligência artificial na criação da maioria do código enviado para o motor. Esta medida surge depois de um aumento das contribuições geradas por IA, que, de acordo com a organização, está a dificultar o trabalho dos voluntários responsáveis por analisar e integrar alterações num dos maiores motores de jogo open source da indústria.
A fundação explica que o principal problema não é apenas o código em si, mas sim a quantidade de propostas que chegam diariamente. Com ferramentas de IA a produzirem código em poucos segundos, o número de pull requests aumentou significativamente, enquanto o número de revisores se manteve praticamente igual. “Grande parte do atraso acumulado resulta do reduzido número de revisores qualificados, do facto de analisar pull requests ser um trabalho exigente e de já não conseguirmos acompanhar tudo o que chega“, afirma a organização. A Godot acrescenta ainda que esta falta de revisores “já era um problema“, mas “já não pode continuar a ser ignorada“.
Para a fundação a revisão de contribuições sempre foi uma forma de ajudar novos programadores a aprender e, mais tarde, tornarem-se mantedores do projeto. Mas para a organização, esse processo deixa de fazer sentido quando o código é produzido por um modelo de IA. “As contribuições geradas por IA têm ainda o problema adicional de serem desmoralizantes“, escreve a fundação. “Se o feedback dado aos pull requests está apenas a ser absorvido por uma máquina, em vez de servir para orientar um potencial futuro mantenedor do projeto, torna-se muito mais difícil justificar dedicar o nosso tempo livre à revisão dessas contribuições.“
As alterações à política irão assim proibir a utilização de agentes autónomos de IA, o chamado “vibe coding”, a submissão de partes substanciais de código geradas por inteligência artificial e também texto produzido por IA em comunicações entre utilizadores e mantenedores do projeto, como propostas, issues ou discussões de pull requests. A fundação explica que quem recorrer a agentes autónomos ou a “vibe coding” continuará a ser banido automaticamente do repositório oficial no GitHub.
Mas nem toda a assistência de IA vai desaparecer. Apesar deste aperto, a Godot continuará a permitir funcionalidades como a conclusão automática de código, a criação de expressões regulares ou operações de procurar e substituir, por considerar que são ferramentas de apoio e que não substituem o trabalho do programador. Sempre que exista recurso a IA durante o desenvolvimento de código, essa utilização deverá ser identificada na discussão do respetivo pull request. E as traduções automáticas também continuarão a ser aceites, desde que o texto original tenha sido escrito por uma pessoa.
A fundação afirma ainda que todas as contribuições devem ter um autor humano capaz de assumir responsabilidade pelo código enviado e de o corrigir no futuro. “Exigimos que todo o código seja escrito por seres humanos“, refere a organização. “A IA não pode assumir responsabilidade e não podemos confiar que quem depende fortemente dela compreenda suficientemente o seu próprio código para o corrigir quando necessário.”
A decisão acontece poucas pouco depois de a Godot Foundation ter esclarecido que aceitava alguma assistência de IA, mas rejeitava o “vibe coding”. Já em fevereiro, Rémi Verschelde, um dos veteranos do projeto, tinha criticado o aumento de pull requests gerados por inteligência artificial, classificando muitos deles como “AI slop”, uma expressão utilizada para descrever código produzido automaticamente e de fraca qualidade.
Apesar do endurecimento das regras, a fundação diz que a política poderá voltar a ser revista no futuro à medida que as ferramentas de IA evoluírem. Para já, a prioridade passa por reduzir contribuições de baixo esforço, incentivar novos colaboradores a aprenderem com o processo de revisão e garantir que todo o código integrado no motor é compreendido por quem o escreve.
