3 Razões para rever “Prison Break”: Empatia, Carisma e Autenticidade

por Natália Correlo

Prison Break é o tipo de série que envelhece mas não perde a validade. Digo isto com toda a certeza porque revi a série e só tenho a dizer que a primeira temporada, assim como a primeira metade da segunda temporada, são fantásticas. E tal deve-se principalmente às personagens, especialmente as secundárias.

(Antes de prosseguir, tenho que deixar uma nota: esta crítica visa apenas as primeiras quatro temporadas da série.)

Theodore “T-Bag” Bagwell, um vilão pelo qual nutrimos empatia

As primeiras vezes que vi o T-Bag em cena arrepiei-me. Especialmente quando ele dobrava a língua como um tarado – um maneirismo que me lembrava da sua perversão e malvadez. Todavia, quando fiquei a par da sua infância, houve qualquer coisa que mudou. Apesar de continuar a achá-lo desprezível, passei a perceber as suas motivações, e, à medida que os episódios avançavam, dei por mim a nutrir alguma “simpatia” por ele.

Em alguns momentos, Bagwell tentou mudar de rumo e remediar o seu passado, mas não conseguiu – a ambição falou sempre mais alto. Por isso, o seu fim não foi surpreendente, e até foi merecido. Contudo, vê-lo no mesmo sítio onde começou, fez-me pensar: “Talvez não haja salvação para pessoas como ele”. E isto entristeceu-me. Foi como se aquela cena fosse uma representação do mundo real. E, pensar nisto nestes termos, tornou o desfecho ainda mais pesado.

Todavia, há que deixar uma coisa bem clara: Robert Knepper, o ator que desempenhou este papel, devia ter levado uma catrefada de prémios para casa devido à sua performance. Infelizmente isso não aconteceu, e honestamente não percebo o porquê. O tipo foi notável no seu papel. Nunca vi uma performance tão credível e impactante como a dele. Se calhar não deu graxa às pessoas certas, até porque há sempre uma cambada de politiquices por detrás destas premiações. Mas não deixa de ser injusto.

Sarah Tancredi, uma personagem com a autenticidade de uma pessoa real

Quando se revê uma série, há pormenores que ressaltam à vista e detalhes que não reparámos na primeira vez. E isto aconteceu-me com a Sarah. Não sei bem o que é, mas há qualquer coisa de puramente verdadeiro na personagem. Talvez seja a maneira como se mexe ou as pequenas manias que tem – uma ocorrência comum em pessoas de carne e osso.

No caso da Sarah, ela tem a tendência para puxar o cabelo para trás sempre que algo stressante acontece. E esta particularidade tão simples dá-lhe uma naturalidade que acrescenta à sua identidade. É como se aquele gesto fosse só seu, uma espécie de código corporal que diz: “Agora estou a processar uma situação complicada, dêem-me espaço.”

Como é óbvio, este nível de minúcia na personagem deve-se à atriz Sarah Wayne Callies, cujo modus operandi tem pouca vaidade. Invés de se preocupar com a sua beleza no ecrã, o foco dela está no sítio certo: na representação mais fidedigna possível do seu papel.

Michael Scofield VS Brad Bellick : O carisma versus a falta de caráter

Michael Scofield (Wentworth Miller) e Brad Bellick (Wade Williams). Um é um génio que vai para a prisão para salvar o irmão, o outro é um patife que representa a lei. Mas ambos são igualmente extraordinários e imprescindíveis para a série.

Prison Break, tal como Wentworth Miller disse numa entrevista, é uma série que é tão forte quanto os seus vilões. É por isso que, depois da segunda temporada, a história não conseguiu manter o seu nível de grandiosidade. A introdução do General Krantz (Leon Russom) foi uma desilusão.

O Bellick, um idiota com um crachá, e o Bagwell, um violador sem um tostão, demonstravam um maior nível de ameaça do que Krantz, o tipo por detrás duma empresa que supostamente controlava o mundo.

Mas voltando ao que interessa, Bellick foi uma personagem que, para além de representar a corrupção no sistema prisional, representou a aura de perigo quando o T-Bag não o podia fazer. Sem o Bellick, a genialidade de Scofield não seria tão impressionante e o plano para escapar de Fox River não seria tão audacioso.

Sem dúvida que Scofield e Burrows (Dominic Purcell), os heróis injustiçados, foram impecáveis nos seus papéis, mas sem a presença de Bellick e os seus esquemas, não tínhamos vivido tantos momentos de tensão e suspense na primeira temporada.

Prison Break, uma série que teima em continuar

Em 2017 fizeram uma quinta temporada que não vi, pois achei que não havia nada a acrescentar à narrativa. Posso estar errada, mas quantas vezes é que nos podem impressionar com a mesma premissa? Depois de sabermos que ele consegue escapar duma prisão, é difícil ficarmos surpreendidos com uma terceira ou quarta “prison break”.

Este é o caso típico da exploração da máquina de fazer dinheiro. Dado que há planos para fazerem uma sexta temporada, isto só para quando o público estiver esgotado, o que é uma pena. Contudo, mantenho-me firme na minha opinião: as duas primeiras temporadas são bestiais!

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