Vodafone Paredes de Coura – Motores prontos a arrancar

por Bruno Rocha Ferreira

Há uma taça que este ano vai direitinha para o decano dos festivais continuamente em atividade (por lá anda-se a picar o ponto anualmente desde 1993): o dos passes esgotados. Nos últimos dias, muitas têm sido as vozes à procura do bilhete de quatro dias para o Vodafone Paredes de Coura, após o anúncio dos mesmos já não estarem disponíveis.

Se é certo que não é sinónimo de qualidade, é um sinal auspicioso, e para um festival que sempre teve de lutar contra o estigma da distância face aos maiores centros urbanos, uma ótima publicidade.

Embora o Vodafone Paredes de Coura tenha atingido nos últimos anos um patamar de popularidade consistentemente forte – foi marcante o dia de Tame Impala em 2015, em que pela primeira vez esgotaram os bilhetes do recinto com lotação de cerca de 30.000 pessoas – é indiscutível que a qualidade do cartaz joga um papel fundamental.

Olhemos, assim, para a programação e horários para os dias 14 a 17 de agosto no Alto Minho. Quem quiser chegar mais cedo tem neste momento a decorrer o festival Sobe à Vila, que se iniciou dia 10, feriado municipal, e decorre até 13.

Quanto aos dias maiores, quarta-feira será dia à velha guarda, com apenas o palco principal. Arranca-se com um dos nomes mais conhecidos, os The National de tantos fãs em Portugal. Antes, curiosidade para os estreantes Parcels (primeira vez que tocam no Vodafone Paredes de Coura), definidos como tendo um estilo eletro-funk-pop, e que têm mantido colaboração com os Daft Punk. Para o after, e talvez a maior expetativa do dia, chegam os KOKOKO!, coletivo da República Democrática do Congo conhecido por criarem instrumentos a partir de materiais reciclados e pela fusão de estilos para criarem um som novo. Esperam-se coisas boas dos de Kinshasa, que deverão apresentar Fongola, o seu novo álbum.

Para a quinta-feira, dia 15, a armada australiana continua forte (já Julia Jacklin e os Parcels vêm dos antípodas) com Stella Donnelly. Entrada de última hora, tal como Avi Buffalo, com o seu folk que consegue falar de coisas sérias sem parecer deprimente, e com Beware of the Dogs a ter uma estreia bem recebida pela crítica. Os Car Seat Headrest têm-se tornado um esteio dos festivais nacionais que dão relevo ao indie, e costumam ser garantia de bom espetáculo ao vivo.

Mas é dia de New Order, claro. Uma das bandas mais influentes do movimento Madchester, e um dos casos mais espetaculares de reinvenção, criados das cinzas dos Joy Division, às 22h50 serão momento de festa solene, se tal é possível. Music Complete, de 2015, é o longa duração mais recente, e deverá ser entrecortada por clássicos como “Bizarre Love Triangle”, “True Faith”, e claro, “Blue Monday”.



Na sexta-feira há artista de fino gosto, Jonathan Wilson, disponível para audição no que se espera um belo final de tarde no cenário idílico da praia fluvial do Taboão. Para mudar do folk e psicadélico, os Black Midi vão entrar em campo com o seu som experimental. Schlagenheim está fresquinho e é uma audição que consegue ser desafiante, com os seus vocais, por vezes, retorcidos. Não é para todos, mas é do tipo de artista que levou Coura ao sítio onde chegou.

Bradford Cox é quase figura de lenda pelo número de vezes que já atuou no universo Primavera Sound nos seus diversos projetos, cuja edição do Porto é co-produzida pela organização de Paredes de Coura. Desta vez é por via do seu veículo mais conhecido, os Deerhunter, que vai marcar presença.

Em dia rico de oferta, o som étero de Connan Mockasin será um ótimo momento de entrada para os Spiritualized, os reis do space rock. And Nothing Hurt chegou no ano passado e mostrou o grupo de Jason Pierce em bela forma. Para acabar esta sequência de luxo, Father John Misty vai fechar o dia do palco principal. A bitola está alta com a memória do concerto de 2015 no mesmo local, em que este showman deu tudo na fase I Love You Honeybear. Veremos o estilo que irá apresentar quatro anos mais tarde no Vodafone Paredes de Coura.

Finalmente, para o último dia há Mitski, a autora do disco do ano de 2018 para a Pitchfork, Be the Cowboy. Tudo a cantar “Nobody” no anfiteatro privilegiado da natureza, prevê-se. Um dos nomes mais sólidos da cena musical portuguesa, os Sensible Soccers, estarão presentes pelo palco Vodafone FM, e, pouco depois, Patti Smith e banda entrarão, pelas 21h20.

Mais um momento alto, desta vez na companhia desta figura maior das raízes do punk, em que se esperam diversas versões, em paralelo aos originais da artista de Chicago. Do Illinois para indiana é um passo, e Freddie Gibbs e Madlib vão dar voz e batida a Bandana, o último álbum deste duo que tem marcado o panorama do hip-hop com a sua energia.

Fecha-se bem este Vodafone Paredes de Coura, com os Suede. Passaram-se 20 anos desde que marcaram, na altura a companhia eram os dEUS, Gomez, Lamb, Mogwai e Guano Apes. Alguns desapareceram, outros floriram. Os Suede pararam, e regressaram, e o novo material que têm gravado mostra que é uma boa altura para os voltar a ver.

Foto de: Hugo Lima

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