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Vodafone Paredes de Coura – Dia 2: Vamos ter que falar nos New Order

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Está um belo dia e hoje entra-se pelo lado do campismo. O formigueiro que existe nas margens do Rio Coura está bem organizado e percebem-se os prémios que o Vodafone Paredes de Coura costuma ganhar nesta categoria. As leirinhas são ocupadas por tendas, caravanas ou campismo glamorouso, conforme o tipo, e os festivaleiros utilizam calmamente as zonas comuns dos chuveiros e cozinha, a que se acrescenta agora a de carregamento dos telemóveis, claramente uma necessidade humana de igual importância. Sinais dos tempos.

Stella Donnelly, australiana (mina sem fim de talento, ao que parece) nascida em Gales, é a primeira artista que vimos neste segundo dia do Vodafone Paredes de Coura. Destaca-se logo o humor na abordagem o público, e este contexto ajuda a tornar mais digerível as letras pesadas sobre questões como o abuso sexual. A apontar alguma estridência na voz (Angel Olsen não é, certamente), mas a chegada da banda ajuda para compor o ramalhete, que é verdinho e tem também muita esperança. Artista a seguir.

Stella Donnelly – Créditos: Emanuel S. Canoilas

 

Ainda o sol ilumina bem o recinto quando os Alvvays, liderados pela vocalista Molly Rankin, à frente com os seus óculos de loja metafísica, entram no palco principal. De ritmo certinho, mas com má linguagem corporal, dando, por vezes, um ar semi-entediado, apesar do discurso e voz animados, os Alvvays têm um som simpático, mas parecido a tantas outras bandas indie surgidas na última década. Fala-se em como vão ter três dias de “vaccai” (assumimos que são vacations) no Porto após este concerto no Vodafone Paredes de Coura, o último da tournée. É agradável estar no relvado, mas morno é o adjetivo que vem ao de cima. Quem quiser novidades pode continuar a procurar.




Ainda há tempo para ouvir ao longe Boy Pablo, que parece dar boa festa aos presentes com os seus ritmos contagiantes, mas aguardamos pelo início dos Car Seat Headrest. Will Toledo mantém o seu ar de estudante universitário com cabelo desgrenhado, qual Harry Potter do rock, freneticamente tocando a sua guitarra.

Com luzes de várias cores a pulsar e a acompanhar o ritmo da atuação, está feito o ambiente para o público se entregar ao concerto. Temas como “Bodys” e, sobretudo, “Fill in the Blank”, com o seu riff contagiante, explicam bem porque é que os rapazes da Virginia têm formado uma relação forte com o público português em poucos anos. Não se detetou crowdsurfing, mas há vontade, e o público do Vodafone Paredes de Coura forma uma mola de energia saltitante nas primeiras filas.

Esperamos pelo fim do concerto, mas ainda há tempo para espreitar Avi Buffalo no palco Vodafone FM, com o aspeto de quem poderia ser o irmão calminho e sensível do furacão Samuel Herring, dos Future Islands (observação que deu para colocar em dúvida as certezas mais profundas de alguns colegas de recinto), Avi está perante concorrência injusta e junta o grupo mais pequeno de espetadores que vimos este ano. No entanto, faz cara alegre e dá um concerto esforçado, dos minutos que vimos.

Avi Buffalo – Créditos: Emanuel S. Canoilas

A grande aglomeração do dia está claro que é para New Order, e bote-se grande nisso, com público misturado de todas as idades, como se quer. É um risco, há mitos que desiludem – assim de repente lembramo-nos do concerto dos Stone Roses em 2012 em Algés, mas não podia ser mais o caso com as figuras de meia idade avançada que chegam de Manchester.

Com ar de banda de fim de semana de velhos amigos que se conhecem há muito tempo, há preocupação zero com parecerem estrelas. A t-shirt preta e curva da felicidade proeminente de Bernard Sumner não podia ser mais distinta do ar chique e distante de Laetitia Sadier no Porto, em junho, no concerto de excelente memória dos Stereolab.

Mas os New Order nunca foram um grupo normal e colecionam invulgaridades formativas, desde o traumático processo de formação das cinzas do ícone Ian Curtis e a necessidade de perda da pele dos Joy Division, ao errático ritmo de gravação dos seus temas e aos conflitos internos variados que culminaram na saída de Peter Hook.

Muitas desculpas existem para que esta versão dos New Order não fosse muito mais do que um cash grab puro e duro, mas logo no início do concerto, com excertos do Ouro do Reno e direito à projeção de imagens de Berlim Ocidental nos anos de 79 a 89, o último período em que o que se passava na Europa era verdadeiramente determinante para o mundo enquanto tocam “Singularity”, se percebe que não é assim.

De facto, Music Complete, de 2015, provou a vitalidade criativa dos New Order, que vieram ao Vodafone Paredes de Coura desfilar músicas criadas ao longo de 40 anos com ótima recetividade do público, e não apenas criações do período de maior fulgor criativo e comercial. Coisa rara, bem mais rara do que se poderia pensar.

New Order – Créditos: Emanuel S. Canoilas

Aliás, os melhores New Order da noite são os que tocam “Tutti Frutti” ou a fantástica “Plastic”, enquanto imagens de uma autobahn futurista marcam a distância para os setenteiros Kraftwerk vistos em visita recente. Rave da melhor, a criada pelo encontro do Lancashire com Ibiza. Stephen Morris tem ar de executivo de sucesso, mas continua um monstro da bateria, com o seu estilo único, com origem tão bem retratado em 24 Hour Party People.

Mas há um grande ponto de interrogação que fica sempre: Como lidar com a herança dos Joy Division, a banda da capa das capas, de tanta t-shirt e tatuagem que pululam pelo recinto do Vodafone Paredes de Coura? Logo no início se despacha com “She’s Lost Control” e “Transmission”. Claro que Sumner não é Ian Curtis, ninguém é. Há quem goste, há quem vá achar que é coisa de banda de tributo. A resposta do coro do público indica que a estratégia errada não está. Estas canções já não são deles, são de todos.

Quanto aos clássicos de produção em nome próprio, aparecem no meio da sanduíche, com uma “Bizarre Love Triangle” muito fiel ao original, e uma “True Faith” (com a já mencionada “Plastic” antes desta) e “Blue Monday” em que já se brinca um pouco. Como batidas, não há igual. Festão.

Ainda há encore, com “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart”, a mais agridoce das músicas. Eles saem, mas nós continuamos a cantá-la. Adolfo Luxúria Canibal tem ar comovido. Obrigado, Vodafone Paredes de Coura.

Recordem, aqui, a reportagem do primeiro dia do festival.

Fotos de: Emanuel S. Canoilas

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