Com apenas 15 quartos, o Vila Valverde Design & Country Hotel não só está próximo da Serra de Monchique, como tem praias a curta distância. Tem o melhor de dois mundos, algo difícil de alcançar…
A reabilitação e conversão de antigas propriedades agrícolas em unidades de alojamento de luxo tem vindo a redefinir a oferta hoteleira no barlavento algarvio, afastando-se do modelo tradicional de sol e praia de grande escala. Um dos excelentes exemplos desta transição localiza-se nas imediações da Vila da Luz, no concelho de Lagos, onde a transformação de uma antiga quinta abandonada deu lugar ao Vila Valverde Design & Country Hotel, o único hotel rural de 5 estrelas no Algarve, estatuto atribuído por iniciativa da Direção-Geral do Turismo, cujos inspetores constataram que as dimensões dos quartos preenchiam os requisitos de suítes de luxo, dispensando a necessidade de divisórias físicas rígidas entre os ambientes para validar a classificação.
No ano de 2000, o empresário Luís Tavares – que na altura geria a Portimar, a maior agência de viagens de turismo recetivo em Portugal, movimentando anualmente cerca de 380.000 passageiros do mercado germânico – passava diariamente pela zona de Lagos e observava uma quinta abandonada, considerando uma perda lamentável dado o potencial do terreno. Decidido a avançar, localizou o proprietário da quinta, um idoso residente na localidade próxima de Espiche, e propôs-lhe a compra da propriedade. A resposta inicial foi uma recusa liminar e inflexível, com o proprietário a fechar as portas a qualquer negociação.
Dois anos mais tarde, em 2002, os dois cruzaram-se casualmente em Lagos e o antigo proprietário abordou Luís Tavares, questionando se ainda mantinha o interesse na compra. O negócio fechou-se de imediato pelo valor de 1,8 milhões de euros, englobando os cinco hectares de terreno e a ruína existente, que se encontrava num estado avançado de degradação profunda, funcionando na prática como uma lixeira a céu aberto com acumulação de entulho, lixo doméstico, eletrodomésticos e carcaças de automóveis. O proprietário original acabou por vender a quinta e dividir o dinheiro para encerrar disputas de heranças entre os seus 12 filhos.
O desenvolvimento do projeto de arquitetura foi realizado em parceria com o arquiteto Mário Martins. O projeto inicial foi rejeitado pela Câmara Municipal dado o terreno estar classificado como reserva agrícola, o que proibia estritamente o aumento de volumetria ou novas implantações. A alternativa técnica passou por um processo de restauro e reconstrução faseada, idealizado num guardanapo de papel durante um almoço entre Luís Tavares e Mário Martins. Uma parte da ruína era demolida e imediatamente erguida de raiz, avançando-se sucessivamente para a secção seguinte, de modo a manter sempre a traça e a implantação originais exigidas por lei.
Após este complexo processo de reconstrução e transformação, a propriedade renasceu em 2004 como Vila Valverde Design & Country Hotel, estruturado para acolher um perfil específico de viajantes que rejeitam as grandes unidades impessoais e procuram espaços de pequena dimensão, marcados pelo recato, pela paz absoluta e por um serviço que prima pela estrita individualização. Já em 2021, e num processo que se prolongou até 2022, o Vila Valverde foi remodelado, sendo que o desenho de interiores foi entregue à designer Nini Andrade Silva, que eliminou os elementos rústicos e introduziu linhas contemporâneas e mobiliário adaptado ao segmento de luxo.
O edifício principal do Vila Valverde foi concebido com grandes vãos envidraçados que privilegiam a entrada de luz natural em todas as divisões e na garrafeira, mantendo corredores invulgarmente largos, com cinco a seis metros de largura. Esta opção, que contraria a lógica económica padrão de rentabilização de área para quartos, foi mantida para reforçar a sensação de espaço e fluidez. O espaço edificado atual ficou no limite máximo permitido, impossibilitando qualquer tipo de expansão física.
Na filosofia operacional que rege o quotidiano do Vila Valverde, a diferenciação é uma regra intocável, visível desde a personalização do serviço de pequeno-almoço – que recusa os habituais buffets industriais – até à política rigorosa de eliminação total de plásticos, químicos ou produtos descartáveis em toda a propriedade. Esta postura ecológica valeu ao hotel a atribuição da certificação Green Key, ostentada há mais de dez anos consecutivos, o que comprova um compromisso com a sustentabilidade e com a preservação ativa do meio envolvente. Com apenas 15 quartos, a unidade dispõe de mais espaço físico por cliente do que a maioria dos hotéis da região, possuindo uma área total de 52.000 m2 de espaço verde.
A tradução prática desta visão ecológica materializa-se na atualidade através de soluções técnicas avançadas no que respeita à gestão integrada dos recursos hídricos e energéticos da propriedade. O Vila Valverde dispõe de duas piscinas que funcionam de forma inteiramente biológica, abdicando de tratamentos químicos convencionais. A piscina interior utiliza um sistema baseado em ozono e circulação permanente de ar, o que assegura uma higienização contínua e impede a fixação de humidades ou o aparecimento de condensações nas paredes e no pavimento. Mesmo com a água mantida a temperaturas elevadas, o ar e o chão permanecem completamente secos, com a humidade a ser imediatamente extraída por dois canos exteriores, mantendo o ambiente num estado de secura absoluta.
Por sua vez, a piscina exterior, o antigo tanque de água agrícola adaptado, é abastecida de forma contínua por uma mina de água local através de um circuito dinâmico e natural: a água entra de forma contínua e, num ciclo de 24 horas, escoa de forma natural para um lago situado num nível inferior.
Nesse ecossistema subjacente habitam peixes e tartarugas que vivem de forma saudável devido à pureza da água. A partir desse ponto, a água é bombada de volta para um segundo tanque de retenção na cota superior da propriedade, sendo daí distribuída para alimentar todo o sistema de rega da horta, do pomar e dos jardins exteriores. A água desta mina é totalmente limpa, mantendo-se isenta de cloro ou de quaisquer tratamentos químicos, conservando uma temperatura estável ao longo de todo o ano, tanto no inverno como no verão, o que permite aos hóspedes desfrutar de uma frescura natural.
Esta vertente biológica e de proximidade estende-se à produção agrícola que abastece diretamente a cozinha do Vila Valverde. Todos os legumes, vegetais e frutas consumidos provêm da horta e do pomar locais, rejeitando-se o recurso a cadeias de distribuição ou grandes superfícies comerciais. O mesmo princípio aplica-se aos ovos consumidos logo pela manhã, colhidos diariamente no galinheiro da propriedade. A nível energético, a autossuficiência durante as horas de sol é assegurada por uma infraestrutura composta por 283 painéis fotovoltaicos instalados na zona traseira do edifício principal, que cobrem integralmente as necessidades de consumo da unidade.
Além disso, desde o ano de 2004 que o Vila Valverde opera com um sistema pioneiro de reaproveitamento de águas cinzentas. As águas recolhidas nos duches e nas áreas da cozinha são direcionadas para uma oficina técnica central equipada com maquinaria de filtragem e tratamento, sendo depois reencaminhadas para a rega dos jardins e espaços verdes. As águas negras, provenientes dos sanitários e dos bidés, cumprem um circuito totalmente independente e são descarregadas na rede de saneamento municipal.
Ao nível das infraestruturas de bem-estar, a área de tratamentos integra hoje uma sauna, uma sala para massagens executadas por uma fisioterapeuta – cargo assegurado pela filha do proprietário – e um banho japonês. Este equipamento consiste num tanque de água fria ligado a um motor de refrigeração que desce a temperatura da água até criar uma fina camada de gelo na superfície. O banho consiste numa imersão rápida, focada na recuperação muscular e no choque térmico após a utilização da sauna ou em sessões de crioterapia. Já o conforto térmico no interior dos quartos é garantido por um sistema de aquecimento radiante sob o pavimento, invisível, regulável de forma independente através de termóstatos táteis instalados nas instalações sanitárias.
Quanto aos revestimentos, o piso das zonas de circulação comum é composto por placas de mármore branco italiano. O pavimento utiliza uma tecnologia industrial que recolhe o pó do corte do mármore, combinando-o com resinas e aplicando uma prensa a alta temperatura com uma capa de vidro térmico, o que resulta numa superfície contínua, de aspeto límpido, impermeável e imune a riscos, mesmo sob pressões mecânicas localizadas.
No mercado atual, a operação do Vila Valverde está consolidada junto do público de língua alemã (Alemanha, Suíça e Áustria) e norte-americano, beneficiando dos contactos históricos do proprietário com os principais operadores turísticos internacionais, além de clientes britânicos, espanhóis, belgas e italianos.
Luís Tavares recorda a sua experiência com grandes empresários do mercado internacional, como Claudio Albrecht, antigo proprietário da Ratiopharm. Após vender 10% da sua empresa por 410 milhões de euros a investidores americanos, Cláudio continuou a escolher o Vila Valverde para as suas férias privadas por rejeitar o ambiente impessoal dos hotéis de cinco estrelas corporativos. No Vila Valverde, explicava o empresário alemão, sentia que podia finalmente pousar o computador ou o iPad, caminhar descalço pelo verde dos jardins e tomar um pequeno-almoço tranquilo sem que ninguém o incomodasse, num ambiente de sossego absoluto que considerava ser o verdadeiro luxo.
Já o mercado português representa uma quota muito reduzida, estimada em cerca de 5% do volume total de ocupação, concentrando-se em épocas festivas ou fins de semana.
Há também que falar na gastronomia, que assume um papel de relevo na proposta atual do Alecrim, restaurante do Vila Valverde, assentando numa ementa exclusivamente portuguesa e na valorização de produtos frescos. A cozinha é liderada pelos chefs Eduardo Brito e João Branco, que coordenam uma equipa de três profissionais. O restaurante serve jantares tanto para os hóspedes como para clientes externos sob reserva, atraindo uma clientela regular que inclui muitos residentes estrangeiros, nomeadamente da comunidade sueca instalada no barlavento algarvio, que recorre ao espaço para eventos privados, aniversários e casamentos.
A horta biológica é planeada ao pormenor em função da carta, permitindo a confeção de pratos com ingredientes colhidos no próprio dia. Durante um jantar servido na sala principal, a equipa de cozinha apresentou uma sequência de pratos de matriz tradicional portuguesa contemporânea. A refeição iniciou-se com um Tártaro de novilho da horta, guarnecido com pickles de cornichon caseiros de produção própria, maçã verde, pepino e uma bolacha de massa folhada estaladiça, culminando com um crocante de malagueta. O prato principal consistiu num Bacalhau confitado, coroado com uma telha de broa de milho e ervas aromáticas, disposto sobre uma base aveludada de húmus e finalizado com uma espuma densa de coentros. Para a sobremesa, foi apresentado um Pudim Abade de Priscos tradicional, acompanhado por um gelado de limão e uma base crocante de crumble.
Acompanhando a refeição, o serviço de vinhos recorre a uma carta composta integralmente por referências de produtores nacionais, servidos numa sala que preserva a traça e a atmosfera íntima do hotel.
No final de tudo, não é difícil perceber o porquê do sucesso do Vila Valverde Design & Country Hotel perante o público internacional: permite vistas amplas sobre a Praia da Luz, oferece proximidade à Serra de Monchique para atividades ao ar livre, e os campos de golfe nas redondezas são outro chamariz. Está tão perto da cidade, mas ao mesmo tão longe, por assim dizer. E essa meio-termo é algo que muito dificilmente se vê por aí…
