Crítica – “The Disaster Artist”

Estávamos em 2003 quando surgia, do nada, um filme que viria a tornar-se uma obra-prima pelos piores motivos. Falamos do clássico The Room, realizado pelo misterioso Tommy Wiseau. Sim, clássico, pois o facto de ser uma película tão má fez com que se tornasse numa espécie de objeto de culto ao apresentar no grande ecrã cenários extremamente mal feitos, péssimas interpretações e um argumento que não lembra a ninguém. Rapidamente apelidaram-no do melhor pior filme de sempre.

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Escrito, produzido, realizado e interpretado por Tommy Wiseau, uma figura enigmática, com uma estranha forma de falar e sem qualquer talento para a representação, The Room foi um fiasco de bilheteira enquanto esteve em exibição. Anos mais tarde, foi sendo descoberto por toda a gente, e rapidamente começaram a haver sessões de cinema esgotadas um pouco por todo o mundo.

Tudo isto para dizer que, se ainda não viram, juntem amigos e apreciem. A experiência ganha outros contornos e será impossível não pesquisar de seguida no YouTube por recriações da célebre “I did not hit her, it’s not true! It’s bullshit! I did not hit her! Oh Hi Mark!”.

A conceção e gravação de The Room passou por um período conturbado até chegar, efetivamente, às salas de cinema. Já em 2013 surgiu The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made, livro escrito pelo ator Greg Sestero (Mark em The Room) com a ajuda do jornalista Tom Bissell, contando toda a história de bastidores deste famoso filme. Claro, o livro tem sido um sucesso desde então e foi aclamado pelo público e crítica especializada.

Fascinado no filme, no livro e na origem, idade e dinheiro de Wiseau, o ator James Franco resolveu fazer a versão cinematográfica do livro que conta toda a história de The Room. Não tenham a ideia errada; The Disaster Artist nao é um remake ou reboot de The Room, mas sim a história do livro adaptado ao grande ecrã.

Basicamente, The Disaster Artist é a ode de James Franco a esta obra do cinema. E aqui sim, está recheado de verdadeiras estrelas: além de Franco, temos o irmão Dave Franco (faz de Mark), Seth Rogen, Alison Brie e Zac Efron, só para citar alguns.

O filme começa por exibir uma série de entrevistas em que várias celebridades revelam o seu fascínio por The Room. Logo depois, vamos até uma aula de atuação em São Francisco, nos Estados Unidos, onde ficamos a conhecer os dois protagonistas e a sua falta de jeito para a representação. Rapidamente ficam amigos e mudam-se de armas e bagagens para o apartamento de Wiseau em Los Angeles. Tentam a sua sorte enquanto aspirantes a atores, e, ao fim de três anos, e sem perspetivas de futuro, resolvem criar o seu próprio projeto cinematográfico.

A partir daqui, a história faz-nos passar rapidamente pelos seis meses de filmagens de The Room, os seus seis milhões de dólares de orçamento e todos os problemas que foram surgindo. É neste ato que o filme fica realmente interessante, e apenas há a apontar o facto de não existirem tantas cenas assim que irão perdurar na nossa memória.

É um dado adquirido que Franco não é um realizador extraordinário. Já como ator, temos de lhe tirar o chapéu. Em The Disaster Artist tem, muito provavelmente, o papel da sua carreira, pelo menos até à data. Franco imita na perfeição o mistério e a bizarrice de Wiseau, conseguindo ser hilariante e arrancar-nos verdadeiras gargalhadas em alguns momentos e levar-nos ao desespero por parecer a cópia chapada deste. É divertido ver este trabalho de representação, mas, acima de tudo, muito prazeroso.

Já Dave Franco, no papel de Mark, surge forte na sua personagem e atua como uma espécie de contraponto de Wiseau. Há química entre os atores, claro, ou não fossem Dave e James irmãos, mas, acima de tudo, a personagem do mais novo acaba por funcionar como ancora e porto de abrigo.

Ao ver The Disaster Artist, cresce a vontade de rever The Room. Acima de tudo, este novo filme dá-nos a perspetiva de como certas cenas nasceram e do quão difícil foi filmá-las. Além de, como referi, não existirem assim tantas cenas de destaque, talvez o outro problema de The Disaster Artist seja o facto de romancear em demasia The Room, o que faz com que quase vejamos Tommy Wiseau como um herói.

The Disaster Artist é uma boa homenagem a todos os envolvidos no processo de criação de The Room, e não é, de todo, nenhum desastre, indo agradar não só a quem viu o icónico filme, mas também a quem ainda não conhece nada deste mundo.

The Disaster Artist estreia a 4 de janeiro nos cinemas nacionais.


 

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