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The Comet Is Coming no Lux – Banda Sonora para Frank Herbert

O sítio oficial dos The Comet Is Coming é um mimo. Com um design de estilo cósmico bem coerente com o nome do agrupamento, no separador intitulado Manifesto pululam frases de significado críptico, como “The Comet Is Coming to overcome Illusions”, “it’s the overcoming of fear”, “the embracing of chaos”, “Trust the Lifeforce of the Deep Mistery” ou “Because the end is really only the beginning”. Todo um programa de carácter cósmico-filosófico, de que faz parte a arte escolhida para a capa dos discos, como o recentíssimo The Afterlife, de 2019, a fazer lembrar os desenhos de Chris Foss para o lendário Dune, de Alejandro Jodorowsky, filme-revolução que nunca o foi.

A descrição aqui é “Finding meaning in that which you cannot grasp and finding the truth in the existence of a primordial energy”. Andou-se a ler ficção científica e ver filmes de série B. Dieta boa para quem gosta de referências fora do comum e do que se encontra em voga nos dias de hoje.

Estava dado o tom para o concerto no Lux, que viria a acontecer numa 5ª feira à noite bem chuvosa. A espera na fila para entrar na conhecida discoteca de Santa Apolónia acaba por ser bem mais prosaica do que ambiente musical e filosófico dos artistas, com o frio e a demora a levantarem preocupações práticas, como a presença de lenços de papel em quantidade suficiente.

Lá dentro está bem mais quentinho, e logo a seguir às 23h, o trio composto por King Shabaka, Betamax e Danalogue dava entrada em palco onde constavam saxofone, bateria e teclas, sob a capa do que se poderá chamar jazz, mas com uma infusão de muitos outros géneros, como o psicadelismo, a música electrónica, o rock progressivo. Quase o que se quiser, no fundo.

Desde logo se percebe que o sax tenor de Shabaka Hutchings vai dominar a cena, com o fôlego impressionante do instrumentista a terminar diversas músicas em solos plenos de vigor e improviso. Perante um público em bom número e de comportamento atento, mas tranquilo, Dan Leavers ia largando as mãos do teclado e fazendo gestos para que os presentes dessem mais, embora a cabeça com boné não tirasse os olhos do trabalho a ser feito e o casaco de fato de treino circa Mundial dos EUA 1994 continuasse bem fechado. O estilo bem definido e a proficiência a tocar são uma constante.

Mas as malhas estão lá, incluindo aquele que será a música mais divulgada, a rajada de saxofone de “Summon The Fire”, do também de 2019 Trust in The Lifeforce of the Deep Mistery, primeiro dos dois álbuns editados pela Impulse, sucessores de Channel the Spirits, de 2016, nomeado para um Mercury Award.

Mas Summon The Fire é bem mais do que isso, e a bateria bem técnica de Max Hallett, o membro à partida mais discreto do trio, mostrava aí a sua capacidade de marcar o ritmo. Impossível de não bater o pezinho. Em “Super Zodiac”, o metralhar de King Shabaka voltou a saltar para a linha da frente, desta vez com as linhas dos teclados a misturar-se com a bateria.

Do último álbum, mais etéreo e espacial, “The Afterlife” é um pouco como o cubo flutuante no deserto de Frank Herbert, o autor do clássico livro que Jodorowsky quis filmar anos antes da versão truncada de David Lynch. Objeto do belo e do estranho. Um futuro ao mesmo tempo perturbador, mas atraente. “The Lifeforce Part I” continuava esta viagem para os passageiros que se encontravam na cave do Lux. A “Part II”, mais dançável, ajudou a puxar pelo movimento corporal ativo.

Assim se fez esta viagem pelo cosmos com os The Comet is Coming, garantindo um regresso a casa mais enriquecido por estarmos em tão selecta companhia. E com tempo mais seco, felizmente.

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