Os enérgicos concertos de Jacob Collier e Snarky Puppy no EDP Cool Jazz

por Joel Dias

A noite estava negra e ameaçadora – o percurso até Cascais fez-se debaixo de alguns chuviscos. Por momentos questionámo-nos como lidaria o recinto com a possibilidade de chuva. Não nos apetecia nada apanhar uma molha.

No momento de entrada, uma situação caricata – um jovem à nossa frente tenta entrar no recinto com um bilhete para o concerto dos Snarky Puppy… mas na LX Factory, a 27 de Abril de 2017. Ficaremos sempre na dúvida se se enganou a imprimir o bilhete, ou se era a ver se pegava.

O recinto surpreende-nos pela positiva – o EDP Cool Jazz, sendo mais uma série de concertos do que um festival tradicional, está perfeitamente capacitado para lidar com enchentes – o relvado dá bom ar ao recinto, há várias opções de comida e bebida, WC suficientes, copos reutilizáveis (e não reembolsáveis). A presença publicitária faz-se de forma pouco invasora, com oferta de pipocas e um ou outro brinde.

Apenas nos salta à vista algo menos positivo – a fila para aceder aos lugares sentados é interminável, com apenas duas ou três pessoas a controlarem os bilhetes (para uma fila de uma centena de pessoas), o que faz com que, para muitos, grande parte do concerto de Jacob Collier seja perdido na fila (e vários manifestam o seu desagrado pelo contratempo). Fica a sugestão para se rever a opção por este modelo.

Chegamos mesmo em cima do início do concerto de Jacob Collier e, em noite de eclipse lunar, é um cometa que nos entra pelo palco adentro. Batida funk, enérgica, com travo de hip-hop e sentimento soul. Jacob é um hiperativo e multifacetado instrumentista, alguém que privilegia a experimentação à segurança.

A entrada é triunfal e arrebatadora. Saltando de instrumento em instrumento (ora das teclas para a guitarra, da guitarra para a percussão) e manipulando a sua voz, leva-nos a crer que poderemos estar perante um dos concertos do ano. A amostra inicial serve-nos estilos musicais tão distintos como o jazz, o funk, a soul, a experimentação, sempre transformados com o seu próprio toque pessoal. A semelhança que mais nos vem à mente é a de Afrika Bambaataa (sendo que, e nunca tendo visto este “gigante” ao vivo, deverá ter menos bichos-carpinteiros que Jacob Collier).

À medida que o concerto avança, fica-nos, no entanto, uma ideia: a de que, muitas vezes, menos é mais. Talvez um pouco mais de estrada e maturidade lhe mostre que, nem sempre, desconstruir todo o processo é o caminho a seguir. Usa e abusa do auto-tune, nem sempre, na nossa opinião, com resultados magníficos.

Ao longo de uma hora, demonstra ter especial facilidade em controlar multidões, qual maestro (mesmo que sem batuta) – brinca com o público, controlando os uhhhs e aaahss a seu belo prazer. Deixa também bem explicita a sua reverência pelos mestres, terminando com uma versão pouco ortodoxa de “All Night Long”, de Lionel Richie. Nota ainda para os jovens mas bem competentes músicos que o acompanham, com destaque para a portuguesa Marinho (Maro, para os amigos), bastante aplaudida pelo muito público presente.

É, segundo as nossas contas, a 2ª vez que atua em Portugal (ele próprio menciona a anterior passagem por Portugal no início do ano), e parece ter ganho ainda mais seguidores. Não foi um dos concertos do ano (pelo menos para nós), mas deixou muito boas indicações e com vontade de lhe prestarmos mais atenção. Quem sabe estaremos perante nova paixão nacional, um Jamie Cullum menos clássico, mas igualmente arrebatador.

Após uma pausa de uma meia hora (e bem sabemos que é Verão e muita gente está de férias, mas os atrasos nunca são agradáveis, mesmo que tenha sido de uns 10 minutos), entra em cena a mini orquestra ou big band (como lhe prefiram chamar) Snarky Puppy. O início faz-se lento e longo, como o jazz se quer (mesmo que este não seja puro).

Nota positiva para a qualidade de som – este estava limpo e detalhado, capaz de realçar os pequenos pormenores que nos emocionam, como a secção de metais ou a percussão. “Semente”, com o seu belíssimo solo de percussão, e uma secção de sopro de excelente gosto, bastou para nos deixar a abanar a cabeça e de sorriso nos lábios.

Os Snarky Puppy são mais uma prova do renovado interesse das novas gerações pelo jazz, a soul, o funk e o hip-hop mais clássico. Conseguem mesclar bossa nova com jazz clássico e melódico, com uma pitada de ritmos da América Latina, a dose certa de rock, num combinado vencedor. Todos os diversos elementos que compõem o projeto (contámos uns oito) brilham e ninguém tenta usurpar o destaque do outro. Parece existir verdadeiro prazer no que fazem, um lado exploratório (com Stevie Wonder no seu lado mais soul e selvagem a vir-nos à lembrança).

A setlist nem sempre é consistente, mas é algo que podemos perdoar. Acabados de lançar um novo álbum, Immigrance (a groovy “Chonks” foi uma das novas que mais nos agradou), não se cingiram a este, intervalando com outras passagens da sua já farta discografia.

Mais uma situação cómica – a dada altura, relembram um concerto em Portugal há quatro anos, marcado por algo imprevisível e inesquecível para todos – um dos elementos da banda, e sem ninguém dar por isso, sofreu em palco uma forte reação alérgica. Ele que não fazia ideia que era alérgico…ao marisco, pois claro.

O concerto termina (ou quase) com uma versão longa de “Shofukan”, que começa quase como uma melodia tuaregue, para depois se tornar em algo mais rock, daí para o jazz à la Art Ensemble of Chicago, e a terminar num longo coro de pa pah pahhhh pararahhh entoado em uníssono pelos presentes, com o ritmo marcado pelo trompete. Foi bonito.

A falsa despedida (e é tão melhor quando passamos logo à frente desta parte, do falso encore – fica a sugestão) termina quando regressam prontamente a palco se atiram à funky e rockeira “What’s About Me”, com a participação de um desvairado Jacob Collier, que lhe acrescenta mais alguma improvisação.

Prometeram voltar para o ano. Só pedimos um bocadinho mais de calor. A vontade de bater o pé e abanar a cabeça já nós temos.

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