Reportagem: Serra da Estrela – O ponto mais alto das férias de verão

Engane-se quem pensa que a Serra da Estrela é apenas um destino para ir de férias no inverno.

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Texto e fotos de: Ana Filipa Ribeiro

Natureza, praias fluviais, tranquilidade, artesanato, comida tradicional e pratos elaborados, bom vinho, doçaria, queijos e enchidos são elementos que podem encontrar na região. Numa Press Trip que realizámos no passado mês de junho, a convite da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, visitámos aquele que é o ponto mais alto para férias em Portugal Continental e algumas das suas aldeias históricas.

Além de tudo isto, nesta fase de pandemia, se querem evitar as enchentes de pessoas durante o tão aguardado descanso, optar pelo interior é uma opção que certamente vão querer ter em conta.

Ecolã (Manteigas)

A viagem começou em Manteigas, na Ecolã, a Unidade Produtiva Artesanal de origem familiar mais antiga de Portugal. Fundada em 1925, dedica-se à produção da lã e do burel (liso ou com apontamentos de design). O burel, antigamente apenas utilizado pelos pastores e pelas ordens religiosas, é um tecido resistente, quente e impermeável. Com clientes nacionais e internacionais, tem certificação artesanal e ecológica.

“Acompanhamos todo o ciclo da lã, desde a tosquia até ao produto final”, refere António Fonseca Costa, que trabalha há 21 anos na empresa. 90% da tosquia é feita a uma raça autóctone da região, a Bordaleira Serra da Estrela, que tem três cores naturais: branco, surrobeco e castanho. Todo o processo é feito “com respeito pelo animal”, porque as marcas com as quais trabalham também assim o exigem. A lã produzida tem um estatuto de luxo. Rainha Isabel II, Príncipe Carlos e Amal Clooney são algumas das figuras públicas que já vestiram peças produzidas com este material.

Na fábrica, é possível verificar ao vivo o processo tradicional de tecelagem, ainda hoje utilizado pela empresa. A fiação dos tecidos começa na Urdideira, máquina dos anos 60 que coloca os fios na vertical e que, depois, são transportados para o tear, onde se faz a trama. Mantas, malas, capas, casacos e écharpes são alguns dos produtos elaborados e que estão à venda nas lojas situadas em Manteigas (local da fábrica), Lisboa e Porto.

“Nós somos Eco, nada se desperdiça. Tudo o que é cortado e que já não tem dimensão para ser utilizado em determinadas peças é aproveitado para elaborar chinelos e adornos. Assim, tem dupla função, ecológica e social, criando postos de trabalho”, diz João Claro, proprietário da Ecolã desde 1995. O projeto terá continuidade através das filhas, a 4ª Geração, que já estão a ser formadas.

A história das máquinas, os processos de fabrico e outras curiosidades podem ser ouvidas e observadas nas visitas gratuitas, por reserva via telefone ou de forma espontânea a quem visita a Ecolã de Manteigas, de segunda a sexta-feira, em português, inglês, francês, italiano e espanhol.

Hotel da Fábrica (Manteigas)

Terminada a visita, seguimos para o Hotel da Fábrica, inaugurado em 2018. Um projeto criado para ser a ponte com a Ecolã. Nas paredes e espaços comuns, vemos uma continuação da fábrica, com peças de mobiliário e decoração que para ali foram transferidas. Ao jantar, é-nos servido um conjunto de pratos, com a Feijoca de Manteigas como estrela principal. Uma leguminosa com uma textura aveludada, diferenciadora do feijão normal que pode ser saboreada nos restaurantes locais em prato salgado ou doce, através do típico Pastel de Feijoca.

O Hotel dispõe de 18 quartos, entre os quais duas suítes, quatro duplos e um quarto de mobilidade reduzida. Os preços são de 85€ por noite, por quarto, durante a semana, e 90€ ao fim-de-semana, com pequeno-almoço incluído e acesso à piscina anterior. A suíte tem o custo de 150€ durante a semana e 160€ ao fim-de-semana. Os quartos têm um bom espaço, estão decorados com materiais produzidos pela Ecolã e têm vista para a Serra da Estrela. Apenas as suítes têm frigorífico, algo que sentimos falta no quarto duplo onde ficámos devido ao calor sentido nesta altura do ano.

Manteigas

A manhã começa na Praia Fluvial da Relva da Reboleira (Complexo do Ski Parque), na bacia hidrográfica do Rio Zêzere, próxima do Parque de Campismo Rural Vale do Beijames.

Corrida de montanha, Ciclismo, Orientação, Observação de Aves, Identificação de Cogumelos Silvestres ou Parapente são algumas das várias atividades que permitem conhecer a localidade. “O parapente é rei, porque temos duas boas pistas de descolagem onde costuma haver competições nacionais e internacionais. Uma das pistas obtém o record ibérico de distância com cerca de 340 km”, refere Pedro Lucas, representante da Câmara Municipal de Manteigas.

Manteigas Trilhos Verdes é o projeto desenvolvido para dar a conhecer o município, com 16 percursos terrestres de pequena rota (distância inferior a 30 km), e de BTT que levam aos pontos mais icónicos da Serra. Os trilhos podem ser consultados no site criado para o efeito ou na app disponível para Android e iOS, que permite, através do GPS, a realização dos percursos com a descrição e fotografias dos locais, da fauna e da flora.

Um dos pontos a explorar é o Poço do Inferno, um dos ex-líbris da zona, que ostenta uma cascata com 10 metros de altura e água fresca, adequada para os dias de verão.

Belmonte

Partimos para Belmonte, vila com uma forte ligação a Pedro Álvares Cabral, filho da terra. O Museu À Descoberta do Novo Mundo reflete de forma interativa a viagem do descobridor, feita há mais de 520 anos. Elizabete Robalo, da Câmara de Belmonte, enfatiza que o município também está ligado ao judaísmo e a sua história pode ser visualizada no Museu Judaico. Podem também visitar o Museu do Azeite – o antigo Lagar onde podem ver o processo de produção do mesmo –, o Ecomuseu do Zêzere – dedicado ao Rio e à fauna e flora que se encontram ao longo do rio –, o Castelo, a Igreja de Santiago e Panteão dos Cabrais – um espaço dedicado aos caminhos de Santiago de Compostela, entre outros.

Já no Caminho Histórico da Serra da Esperança (cerca de 10 km), repleto de natureza, passarão por diversas cronologias, como um Castro da idade do ferro, as Ruínas Romanas da Quinta da Fórnea (património arqueológico) e pelo antigo Convento do séc. XVI, transformado na Pousada Convento de Belmonte em 2000. Este edifício histórico tem 24 quartos (22 standard, um duplo de luxo e uma suíte) que variam entre os 80 e os 130€. Integrado na pousada está o Restaurante Gourmet, gerido pelo chef Valdir Lubave, mestre em cogumelos. De outubro a dezembro, promovem workshops de apanha de cogumelos onde, no final, são os participantes que os preparam, cozinham e comem. O Claustro, transformado em sala de refeições e de estar, fica aberto no verão e fechado com uma cúpula transparente no inverno. O exterior apresenta a paisagem deslumbrante da Serra da Estrela.

No final, foi-nos oferecida uma degustação de produtos locais, onde provámos o Doce do Convento, inscrito no concurso das 7 Maravilhas Doces de Portugal, e alguns vinhos da região, como o Kosher Tinto de Belmonte e o Quinta dos Termos.

De 9 a 11 de julho, o evento 12 em rede – Aldeias em Festa passará por Belmonte onde poderão provar, nos restaurantes aderentes, pratos baseados em receitas da altura de Pedro Álvares Cabral.

Restaurante Casa da Esquila (Sabugal)

Entramos no carro e, entre curvas e contracurvas, chegamos ao Restaurante Casa da Esquila, onde somos brindados com um requintado almoço.

Baseada em produtos da região, a refeição começa com uma degustação de presunto, queijos e uma deliciosa manteiga com cogumelos. Segue-se uma entrada apta para vegetarianos, uma Pimentada em cama de espuma de batata e ovo, acompanhada de um Vinho Garrafeira Branco.

Como prato principal, um Naco de vitela raiana com malandrinho de boletos e um Vinho Tinto Seleção Quinta dos Termos. Terminamos com um Crocante de ovos com gelado de limão, com um apontamento de queijo de mistura da Beira Baixa, acompanhado de um cálice de Vinho Aforista Colheita Tardia.

O chef Rui Cerveira mostra a preocupação em “cada vez mais, ter no nosso menu proteína mais vegetal e uma roda dos alimentos mais equilibrada”. Contudo, algo que não muda é o tamanho do Naco de carne que, como é habitual, para a maioria dos clientes “tem de ser grande”.

Sabugal

Seguimos então para o Sabugal, mais propriamente para a Barragem do Rio Côa, situada na Bacia Hidrográfica do Douro, onde fomos recebidos por Fernando Ruas, representante da Câmara Municipal do Sabugal. Com vista para a Reserva Natural da Serra da Malcata, observamos que é um espaço de descanso bastante tranquilo, frequentado tanto por habitantes locais como turistas estrangeiros, que ali ficam algumas horas a ler o jornal ou um livro, a observar a natureza, a fazer um piquenique ou a passear os animais de estimação.

Passámos ainda pelo Castelo de Sortelha, pelo Vale das Éguas – tem uma piscina com água da Zona de Lazer do Ínsua (pequena praia não vigiada) –, terminando com uma visita à Ponte dos Sequeiros. Acredita-se que é datada do século XV e seria uma importante via de ligação da época.

No Sabugal, é possível fazer atividades como Circuitos de BTT, Percursos Terrestes, Observação de Aves (com 154 espécies registadas na zona), Visitas a Monumentos, entre outras.

Restaurante Entre Portas (Pinhel)

Fizemo-nos à estrada, prosseguindo mais uns quilómetros na Beira Interior Norte até ao Restaurante Entre Portas para jantar. Uma robusta Bruschetta com queijo da cabra, mel, nozes e cogumelos foi servida como entrada. O prato principal foi umas tenras Bochechas de porco preto com esmagado de favas com alheira. Na sobremesa, um Folhado de queijo de ovelha com compota de papaia, amêndoa e noz. Mais uma vez, e como seria de esperar, fazem questão de utilizar produtos locais, como é o caso do pão, mel, queijo, frutos secos e alguns enchidos.

Cidadelhe

Após um composto jantar, seguimos para o Cidadelhe Rupestre – Turismo Rural. O alojamento é composto por 13 casas situadas na mesma rua onde foram reconstruídas, mantendo a traça original da fachada dos edifícios, com orientação de um arqueólogo.

Esta pequena freguesia do município de Pinhel tem apenas 28 habitantes e integra o Parque Arqueológico do Vale do Côa. Michelle Azevedo, responsável pelo empreendimento, refere que este tem sido muito importante na dinamização da localidade e na interação com os seus residentes. Organizam visitas e passeios, como por exemplo à Faia Brava (200 hectares), onde é possível encontrar o Núcleo de Arte Rupestre da Faia e onde são criados cavalos, muito importantes para evitar incêndios, mantendo a florestação baixa.

As casas são acolhedoras, com quarto e sala na mesma área e apenas com casa de banho fechada, mas com espaço suficiente para dormir toda a família. Algumas casas têm cozinha. Os preços variam entre os 60€ para casa sem cozinha em época alta e 50€ em época baixa, com os preços a subirem para 80€ para casa com cozinha em época alta e 75€ em época baixa. O pequeno-almoço buffet tem um custo adicional de 7€ por pessoa.

Pela manhã, fomos ao encontro de Laurindo Monteiro, técnico de Museologia, que nos fez uma visita guiada a “Cidadelhe, terra imortalizada por Saramago”. Com vasto conhecimento, conta-nos a história dos monumentos mais importantes da localidade: a Igreja de Santo Amaro, a Capela de São Sebastião e a Casa-Forte, onde está guardado o imponente Pálio com mais de 300 anos. Com elevado valor patrimonial, é uma peça única de veludo carmesim típico de Veneza, bordada a ouro, prata e seda que, até 2007, saía à rua apenas em procissão. É possível visitar o Pálio por marcação, ligando para a Câmara Municipal de Pinhel.

Bogalhal Velho

Partimos para Bogalhal Belho, acessível por uma estrada que carece de manutenção, onde pudemos ver as ruínas da Igreja de Santa Maria de Porto de Vide, da aldeia da época medieval. Situada num local bastante alto, permite ter uma visão 360º da verde paisagem de cortar a respiração. Está planeada a colocação de um miradouro no local, bem como a preservação das ruínas.

Rui Ventura, Presidente da Câmara de Pinhel, fez questão de nos presentear com a degustação de grandes Cavacas produzidas com uma receita especial, passada de geração em geração, e um Vinho Branco D. Manuel I, produzido em Pinhel.

Restaurante O Lagar do Douro Superior (Escalhão – Figueira de Castelo Rodrigo)

A penúltima paragem é para almoçar e recuperar energia. Chegados ao Restaurante O Lagar do Douro Superior, espera-nos uma mesa repleta de tábuas mistas do Lagar, carpaccio de presunto Bísaro e torradinhas com azeite virgem e flor de sal.

O primeiro prato principal é a Carne de Vitela à António Braga, uma vitela mirandesa, estufada a baixa temperatura com borras de vinho tinto. O nome António Braga vem do enólogo da Casa Ferreirinha que, juntamente com a chef Cristina Gomes, tiveram a ideia de fazer o aproveitamento das borras do vinho na comida. Para acompanhar, um Vinho Tinto Conde Castelo Rodrigo.

O segundo prato principal é uma Lagarada de Bacalhau, um prato que se fazia antigamente nos Lagares de Escalhão para provar o primeiro azeite virgem produzido nesse ano. A confeção deste prato de bacalhau com batata a murro, acompanhado com torradinhas com alho, sal e azeite, era tradição. A localidade que em tempos teve 17 Lagares, ao receber os compradores, tinha como costume fazer estas torradas para se poder provar o azeite. Um Vinho Branco Castelo Rodrigo foi servido bem fresco.

Para sobremesa, escolhemos o saboroso Doce de Ovos com Batata.

Barca D’Alva

Metemo-nos novamente no carro e seguimos para Barca D’Alva, o último destino, onde fizemos um Passeio de Barco com Dário Arrepia, navegando pelo Douro nacional e espanhol. Com o negócio há mais de cinco anos, o entusiasta contou algumas das lendas e histórias dos edifícios – ou o que destes sobram – que pudemos ver das margens. A antiga casa de Guerra Junqueiro, a Estação de Carrinhos de Ferro, a Calçada do Diabo (ou Calçada de Alpajares), as duas Pontes Rodoviárias do Rio Douro (construídas em 1887 e 1999, respetivamente) e até mesmo uma Capela muito recente que, segundo Dário, faz confusão a quem por ali passa, porque foi construída em cima das ruínas do Castelo Alva. No percurso, com alguma sorte, é possível observar milhafres, corvos-marinhos, perdizes, grifos, abutres ou garças.

No final do passeio, fomos recebidos pela equipa da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo para uma degustação de quatro vinhos da Adega de Figueira, azeite e mais de 10 tipos de amêndoas da Sabores do Castelo (doces e salgadas), um fruto seco característico e importante na economia da região.

O Echo Boomer agradece a todas as entidades envolvidas que nos acolheram tão bem e patrocinaram as atividades durante três dias muito agradáveis.

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1 Comentário

  1. Se vão lá à conta das comezainas, tb poderiam ir a Loriga comer cabrito no Vicente e, se sobrasse tempo, visitar a localidade.

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