Sequin no CCB: O electropop feminino da artista eborense

Enquanto Netta Barzili ganhava a Eurovisão de 2018 para Israel (e Portugal com Cláudia Pascoal e Isaura ficava na última posição) e hordas de ingleses e franceses invadiam o Cais do Sodré e o Bairro Alto, o Echo Boomer decidiu dedicar-se a eventos menos mainstream à pesquisa de novas propostas musicais.

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Aproveitámos a oportunidade de sair do centro lotado para o concerto de Ana Miró, também conhecida como Sequin, no CCB em Belém, convidada no âmbito da programação do CCBeat 2017/2018 no passado dia 11 de maio.

A artista, originária de Évora, não é nova na cena musical portuguesa. Além de várias colaborações em projetos coletivos como The Ballis Band e Jibóia, Ana tornou-se Sequin em 2014 e publicou, nesse ano, o primeiro álbum, Penelope, produzido pela Lovers & Lollipops Records sob a supervisão de Moullinex (Luís Clara Gomes). Já em 2016 editou o EP Eden.

Agora, no início de maio, Sequin apresentou o segundo álbum Born Backwards, desta vez com o apoio de Xinobi (Bruno Cardoso) na produção, do qual já ouvimos os singles de estreia “Queen” e “Honey Bun”.

O som de Sequin varia entre o EDM e o eletropop marcado pela voz quente e nostálgica de Ana, a demonstração de como na vibrante cena eletrónica portuguesa não faltam quotas para as mulheres. O cenário musical de Ana refere-se a um imaginário pop (o nome artístico poderia ser o nome de uma obra de arte de Joana Vasconcelos) e a algumas referências ao mundo oriental (visível nos títulos de algumas faixas).

O conjunto de luzes estroboscópicas do Pequeno Auditório do CCB deixa pressagiar um ambiente dançante, se não fosse pelas bancadas, que restringem a mobilidade. A base rítmica é confiada para o sampler e para o sintetizador que Ana acciona, acompanhada por Filipe Paes nos teclados, Tiago Martins no baixo e Gonçalo Duarte na guitarra.

O concerto abre com as batidas electropop de “Make Believe” e “Bordeline”, onde as luzes começam a subir e a saltar e levam a recordar ao autor o concerto dos Zoot Woman em Camden Town, em Londres (nota autobiográfica).

Pelos primeiros extratos, vemos que as faixas do primeiro álbum Penelope, marcadas pelas sonoridades synth pop dos anos 80 devedores a bandas como Depeche Mode e New Order, dão espaço a um estilo mais EDM em Born Backwards.

Continuamos com a melancolia de “Milvus”, onde os tons vocais de Ana lembram muito aqueles de Grimes, de Bat for Lashes, mais especialmente de Elly Jackson do duo inglês La Roux, enquanto o single “Queen” tem afinidade com algumas faixas dos Röyksopp com Robyn, onde o clapping e a voz se tornam hipnóticas.

Os sintetizadores de “Ellipse” (do EP Eden) têm um gosto retro de French touch, assim como “LOUD”, na repetição do refrão (This isn’t love), é uma faixa mais orientada às sonoridades dos anos 90. “Answer Me” vê a participação da guitarra de Xinobi, convidado ao palco, e agradecido pelo trabalho feito na edição do segundo álbum.

A atmosfera dilatada de “Loveless”, faixa de abertura de Born Backwards, é uma dedicatória à história de amor dos avós, à qual a saudade de “Sam” forma quase um contrapeso. Já “Hentai” retoma as ambientações orientais encontradas em Penelope, outro single do último álbum, que aqui serve de interlúdio romântico com um ritmo suspenso traído por “Crazy”, onde os bpm sobem com um baixo que remexe o corpo até chegar a “Honey Bun”, segundo single de impacto que se insinua nas sinapses da memória.

O som de “Naive” do primeiro álbum é mais familiar ao público e conduz o concerto quase até ao fim. O encore é todo para “Beijing”, faixa de estreia de Sequin, e para o dance pop movimentado de “Flamingo”, onde as cadeiras se tornam incómodas.

Na verdade, a disposição clássica do CCB talvez não fosse a mais adequada para acolher este tipo de concerto, que provavelmente teríamos gozado melhor numa plateia com menos restrições logísticas.

O concerto de Sequin teve pequenas falhas relacionadas com alguns atrasos rítmicos. Contudo, a artista foi sempre capaz de recuperar, ironizando sobre “a falta de ensaios”.

Born Backwards é um bom álbum que os amantes do género vão gostar. E, enquanto lá estivemos, certamente não tivemos saudades da Eurovisão.


 

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