Porque algumas pessoas são mais picadas do que outras?
Há quem acredite ser especialmente “alvo” de mosquitos, mesmo estando rodeado de outras pessoas. Ao menor sinal do inseto a voar pelo quarto, já sabem que serão os primeiros a acordar com uma picada. Para muitos, estas histórias alimentam o mito popular de que existiriam “peles a mosquito”, supostamente mais apetecíveis devido ao chamado “sangue doce”. Mas essa visão tem respaldo na ciência?
A resposta dos investigadores é clara: a ideia do “sangue doce” não passa de lenda. Os mosquitos não conseguem identificar – nem preferem – indivíduos com mais açúcar no sangue. O verdadeiro motivo por que escolhem uma pessoa em detrimento de outra está antes nos aromas que cada corpo liberta no ambiente.
O odor corporal: a primeira pista
Os mosquitos contam com um olfato altamente apurado. De acordo com a neurocientista Helen Shen, as pessoas libertam no ar centenas de compostos odoríferos. São estas moléculas, invisíveis e imperceptíveis à maioria, que funcionam como sinais para os insectos localizarem o seu alvo.
Esta capacidade de “sentir o cheiro” humano é impressionante. Gregory L’Ambert, responsável pela investigação sobre mosquitos no litoral mediterrânico francês, detalhou em 2014 que estas criaturas reconhecem até 150 substâncias diferentes apenas a partir do odor corporal. A transpiração, por exemplo, é uma das principais responsáveis por atrair mosquitos. E, neste campo, cada pessoa tem a sua própria “assinatura química”: algumas com suor bastante odorífero, outras quase neutras.
O papel do CO2 e fatores fisiológicos
O olfato dos mosquitos não se limita ao cheiro do suor ou da pele. Estas pequenas pragas também são atraídas pelo dióxido de carbono (CO2) exalado na respiração. Conseguem perceber e localizar estas emissões a distâncias até 30 metros. Comportamentos ou estados fisiológicos que aumentam o CO2 exalado – como o consumo de álcool, excesso de peso ou uma temperatura corporal elevada – acabam por funcionar como um “anúncio” para os mosquitos.
Dentro deste cenário, as mulheres grávidas são especialmente visadas. Uma pesquisa publicada no British Medical Journal em 2000 revelou que as mulheres grávidas emitem cerca de 21% mais CO2 do que outros adultos, explicando porque a gestação é um período em que as picadas de mosquito podem tornar-se bem mais frequentes.
O grupo sanguíneo importa para algumas espécies
Nem todas as espécies de mosquito seguem os mesmos critérios ao escolher o hospedeiro. O mosquito tigre, Aedes albopictus, reconhecido pelo risco de transmitir doenças como dengue e chikungunya, parece preferir vítimas de um grupo sanguíneo específico.
Um estudo desenvolvido no Japão em 2004 identificou que pessoas com sangue do grupo O têm um risco 85% maior de atrair o mosquito tigre, comparativamente a apenas 45% para outros grupos. Este detalhe, aparentemente pequeno, pode fazer a diferença para quem vive em áreas onde essas doenças são um perigo real.
O que revelam as escolhas dos mosquitos
Por detrás da ideia de “pele a mosquito”, está uma teia complexa de sinais químicos e respostas biológicas. Ciência e pesquisa mostram que cada pessoa é um cartaz ambulante para estes insectos, sem que isso nada tenha a ver com o sabor ou com o açúcar no sangue. As preferências dos mosquitos são ditadas pela biologia — tanto deles como dos humanos.
Estes padrões, longe de míticos, expõem como a evolução equipou os mosquitos a identificar, à distância, pistas invisíveis — contribuindo para que as suas escolhas tenham consequências bem concretas para nós. Conhecer esses mecanismos pode ser o primeiro passo para reduzir as suas visitas noturnas ou ao ar livre.
