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Sam Smith na Altice Arena: A magia do soul-pop gospel

Por muitas palavras que pudesse utilizar, nunca nenhuma seria suficiente para descrever a intensidade e majestosidade que marcou este grande concerto de Sam Smith, o primeiro em nome próprio em Lisboa, último da tour “The Thrill Of It All” e a umas meras duas horas do dia do seu 26º aniversário.

Talvez por isso o artista tenha surgido com uma energia surpreendente e avassaladora, numa envolvente cinematográfica, sentado e dobrado sobre si mesmo num alçapão que surge lentamente desde dentro do palco, com o tema “Burning”, iniciado em acapella. Um tema pejado de espiritualismo, quase como um drama envagélico, algo que, de resto, se faz sentir bem ao longo de todo o álbum The Thrill Of It All. Eis um álbum que transborda emoção, que aborda temas como a miséria do amor, a tragédia, a prostração e a autopiedade. Dramático, angustiante e muito profético, recorrendo à presença constante de elementos religiosos e back vocals que remetem para o gospel, bastante mais presentes, devo referir, ao vivo do que no próprio álbum.

A voz de Sam é, tal como a sua presença, majestosa, rica, que nos enche a alma de dentro para fora, literalmente. Envolta em toda uma aura de charme e de romantismo, capaz de apaixonar qualquer coração mais mole, cada nota faz-nos sentir que aquele momento é uma questão de vida ou morte, especialmente as mais agudas e tão perfeitamente afinadas, que nos fazem sentir on the edge, verdadeiramente capazes de provocar arrepios.

Num tom totalmente diferente, bastante mais leve e expansivo, seguem-se dois dos seus temas mais conhecidos, “One Last Song” e a maravilhosa “Crazy”. Foi, no mínimo, mágico e comovente ver tanta gente a cantar em uníssono estes temas.

Porque Sam Smith é um cantor de baladas pop por excelência, não podíamos deixar de ter o prazer de ouvir as maravilhosas canções “Lay Me Down”, “Nirvana”, “Say It First” e “Midnight Train”. Sabem aquelas músicas tristes mas felizes ao mesmo tempo, que quase (ou não apenas quase) nos fazem chorar? É isso. Até mesmo o tema “Latch”, em colaboração com Disclosure e originalmente um tema mais disco e dançável, é aqui apresentada como uma balada de lounge, despojada de batidas e linhas de baixo low key.

Foto: Hexafoto / Bohdana Monastyrska

Ainda que Sam mostre bastante a sua alma pop sombria, existe um outro lado: o pop mais funky, com bastantes influências RnB e eletrónica. Foi com essa promessa que surgiram temas como “Omen” (mais uma vez em colaboração com Disclosure), “Money On My Mind” e “Restart” – sendo estas duas últimas, na minha opinião, dois dos melhores e mais catchy temas do artista, muito inspiradas no pop dos anos 90.

Voltando ao clima espiritual, surge o tema “HIM”, uma representação da homofobia religiosa, genuinamente poderosa e comovente. Como que numa oração, Sam aborda – com um franco tom vocal de desolação – o tema da homosexualidade assumida, algo que, até agora, tinha mantido fora da sua carreira artística. Em “The Thrill Of It All”, Sam inclui este tema, num gesto de transparência total e desafiando a posição da igreja quanto a este assunto, declarando “Holy Father, we need to talk / I have a secret that I can’t keep / I’m not the boy that you thought you wanted / Please don’t get angry, have faith in me (…) It is him I love / It is him” – sendo assertivo na sua palavra final e ao assumir claramente a sua posição. A meio da canção, Sam deixa uma mensagem ao seu público, afirmando: “Escrevi esta canção como uma mensagem para todos os que estão a ouvir: Amor é Amor!”. Foi um dos momentos mais imponentes de toda a noite.

Por esta altura, o acumular de emoções já pesava. Desde as canções soul-pop mais baladadas, nostálgicas e muito amorosas, aos ritmos funk mais dançáveis, sempre com aqueles maravilhosos back vocals que deram a todo o concerto um poderoso sabor gospel, muitas lágrimas já tinham rolado. Mas ainda tínhamos espaço para mais um pouco.

E Sam não desiludiu. Para dizer – literalmente – adeus, presenteou-nos com um dos seus mais conhecidos singles, o cativante “Too Good At Goodbyes”, na qual nos convidou a cantar vezes sem conta o refrão, e onde se demorou a dar o seu adeus final… até, claro, ao momento do encore.

Um encore que contou com os temas “One Day At a Time”, “Stay With Me” – se ainda havia lágrimas para chorar, só faltavam mesmo estes temas – e “Pray”, para terminar esta noite em grande; um dos meus temas favoritos, absolutamente grandioso, poderoso, divinal. Diria até mesmo épico.

E assim termina o espetáculo, voltando o artista ao ponto em que começou, no alçapão, sentado na sua cadeira solitária, com as mãos entrelaçadas, erguido sobre si mesmo como quem carrega em si a dor do mundo, desaparecendo para dentro do palco.

Foto: Hexafoto / Bohdana Monastyrska

Sam Smith é a personificação perfeita de artista pop, reunindo fatores essenciais tais como um carisma incrível, simpatia extrema e humildade, uma voz brutal (capaz de dominar falsetes com uma facilidade impressionante) e uma presença incrível em palco. Fez-me querer continuar a ouvir, mesmo depois do concerto. E foi isso mesmo que fiz.

Uma palavra para resumir esta noite? É uma palavra muito, muito simples: linda.

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