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“Roma”: A obra-prima de Alfonso Cuarón

Numa época em que a Netflix começa a bater-se de frente com estúdios e festivais de cinema, no que é uma suposta plataforma que não fornece a experiência ideal do consumo das obras do grande ecrã, vem o filme Roma, de Alfonso Cuarón, mostrar que aquele serviço de streaming pode estar muito bem a demonstrar o contrário. 

Atualmente, parece que os estúdios de cinema estão maioritariamente focados em fabricar blockbusters de bilheteiras e a deixar de parte estes filmes indie que não geram tanta receita. Verdadeiros apaixonados pela sétima arte não adoram a ideia da Netflix, mas a plataforma tem vindo a dar cada vez mais oportunidades a realizadores com budgets médios que não vão vender freneticamente.

Lá está, a plataforma de conteúdos não está aqui para vender bilhetes, mas sim para aumentar o seu catálogo em quantidade e qualidade. Daí se percebe que tenham estendido a mão a Alfonso Cuarón para a execução desta obra-prima, tal como a realizadores como Bong Joon-Ho com Okja e Noah Baumbach com The Meyerowitz Stories.

Com a atual guerra de se poder concorrer em festivais apenas se forem exibidos em salas de cinema, Cuarón, com a sua credibilidade e fama bem estabelecida com grandes êxitos como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Gravity (que lhe valeu um Óscar) bem como outros grandes filmes não tão conhecidos como Y Tu Mama Tambien e o Children of Men, entrega-nos aqui a obra-prima da sua carreira.

Roma - Netflix

Roma leva-nos ao distrito de Roma no México nos anos 70, prestando homenagem às mulheres que criaram durante a sua infância. Filmado a preto e branco, sem caras conhecidas a interpretar os papéis desta sua memória semi-biográfica e totalmente em espanhol, é quando começamos a ver o filme que ficamos logo hipnotizados por uma simples cena. Um pátio a ser lavado a refletir um avião a passar no céu e, entretanto, percebemos que estamos na casa de uma família de classe média alta, em que o protagonismo aparenta pertencer a Sofia (Marina de Tavira) a mãe de quatro filhos. Só mais tarde percebemos que o papel central do filme pertence a Cleo (Yalitza Aparicio, a estrear a sua carreira de atriz), uma mulher dos sete ofícios e o pilar de suporte para toda a família.

Durante o filme seguimos Cleo, uma pessoa de poucas palavras, mas com uma força incansável que mostra ser o coração desta longa metragem. Acompanhamo-la na sua vida, nada fácil em termos profissionais e pessoais, que nos é passada pela arte sublime das cenas realizadas por Cuarón. Roma não tem grandes reviravoltas na história, mas apresenta cenas que levam às lágrimas até os mais fortes, mostrando que todo o amor e dedicação dado por esta pessoa é-lhe retribuído na mesma moeda.

Para a realização deste projeto, os guiões foram apenas cedidos aos atores na altura das filmagens com o intuito de conseguir resultados o mais crus e reais possíveis. Mesmo tendo um elenco bastante inexperiente, o que vemos no ecrã não o transparece, de todo, e acabamos com a sensação que a devoção e homenagem prestados a Cleo mostram a adoração e respeito que o realizador tem por esta mulher que o ajudou a crescer e a manter a família em equilíbrio nos seus momentos mais críticos.

Ao final do dia podem escolher se o querem ver em cinema ou em streaming, mas, por favor, façam justiça a este filme e vejam num bom ecrã e na melhor resolução possível para se poder apreciar a verdadeira beleza desta obra.

Roma estreia nos cinemas portugueses a 13 de dezembro, chegando um dia depois à Netflix.

Nota: 

Texto por: Bernardo Bismarck

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