NOS Primavera Sound 2022, Dia 1 – O Regresso a Casa

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Começámos bem. Muito bem. Enorme Nick Cave!

Após semanas de expectativa e algumas notícias de grande confusão na organização do irmão mais velho em Barcelona, tempo de zarpar para o Porto. Dia lindo, comboio a sair a horas de Entrecampos, tudo beleza mesmo com o pequeno atraso na hora de chega a Campanhã, lá está a banca da senhora das cerejas de Resende. Os receios de ter problemas em chegar não foram confirmados e junho é o melhor mês para fruta.

O NOS Primavera Sound é também convívio e muito passeio pela linda Invicta, em especial com este tempo (recomenda-se visita à Casa dos Livros no Palacete Burmester, em Campo Alegre), e lá pelas 18h chega-se à Avenida da Boavista pelos lados do Bessa, onde surge o primeiro choque. Além do trânsito de final de dia e de muitos portuenses com ar de que vão passar o fim de semana grande fora, os autocarros que se encontram dedicados ao transporte para o Parque da Cidade estão cheios um após outro, sem deixar entrar mais ninguém. Tempo, pois, de caminhar e entrar pelas parque pelo lado oposto à da entrada no recinto do festival, este bem mais acima do que era tradição.

Chegados finalmente, notam-se as diferenças no recinto, com muito mais alcatrão à vista e aquilo que parece ser uma distância bem maior até à colina dos palcos principais. Vamos ter de pensar um pouco nestes dias sobre se gostamos ou não.

Kim Gordon, mito dos Sonic Youth, foi a primeira figura que vimos neste regresso aos grandes festivais após os hiatos de 2020 e 2021. Continua figura que parece eterna na sua presença de campeã do rock, impecavelmente apresentada em palco e com jovens em redor, com destaque para o baterista, além de baixo e guitarra num formato que acaba por clássico no que diz respeito a alinhamento dos membros. Nesta sua vertente a solo, o nível lírico não é neste álbum At Issue tão marcante como no anterior No Home Record (os nomes das faixas ilustram bem isso), e acabam por ser os temas do disco de 2019 a dominar. Por contraste com o ex-companheiro Thurston Moore, Gordon em nome próprio aposta mais nas distorções e na mescla com outros estilos alternativos. “Air BnB” funciona bem ao vivo, talvez até por isso buscar mais raízes.

Ao lado, Sky Ferreira era suposto já ter começado, só que não. Minutos depois entra em cena – houve quem contasse 17 minutos de atrasos -, casaco de bombeiro amarelo largueirão vestido (bom para chamar a atenção à distância), e comportamento nervoso. Night Time, My Time já teve nascimento há largos anos, e a carreira de Ferreira tem sido como esta chegada até ao público do Porto. É uma cena que não tem salvação e que será das mais comentadas em 2022, não há volta a dar. “Nobody Asked Me (If I Was Okay)” soa quase a pedido de ajuda aqui e agora, no meio de duas novas, “Don’t Forget” e “Innocent Kind”, antes do final abrupto. Tem de sair, porque entretanto chega a hora de Nick Cave e não há margem para atrasar aquele que, no ano da Graça de 2022, é, por todos motivos, a figura número 1, 2, 3 do cartaz deste ano do NOS Primavera Sound. Não dá para deixar de sentir pena, pelo curto que o concerto foi e pela sensação de que Sky Ferreira poderia atingir um nível onde outros artistas com menos argumentos chegaram. Está a deixar passar a oportunidade pelos dedos das mãos.

Ao lado, Nick Cave não sofre de forma alguma por este problema. “Get Ready for Love” foi a abertura escolhida, palco cheio de músicos e coro gospel em plenos pulmões. Em “There She Goes, My Beautiful Love”, ele cita tudo, do misticismo de São João da Cruz à escrita de Das Kapital, bem representativo do estilo inconfundível do mestre australiano. Há interação bem disposta, a roçar o divertido, com o público, num cenário inicial em lusco fusco, bem diferente da emocionante cerimónia à chuva de 2018. O tempo passa pela presença dele em palco de forma benévola, qual vinho engarrafado em Gaia. Há insultos carinhos (fucking portuguese people, I love you too, like a lot), há abraços a Warren Ellis, esse figurão de barbas longas e energia constante. O público já estava ganho e mais ganho ficou (o stock de festivaleiros com t-shirts dos Bad Seeds, de longe o maior do dia como seria de esperar, seguramente aumentou bastante no final do concerto).

Fala da história da rapariga do quarto 29, a mítica “From Her to Eternity”, passando logo a seguir para “O Children”, fazendo 0 aos 100 para logo a seguir para 20, passando de força frenética para força tranquila ao piano (quantos o fazem hoje em dia?), no auge dos seus poderes. Chega a demolidora sequência de “Tupelo”, “Red Right Hand” (raptada pela televisão, que nos faz ter sentimentos de ciúme por sido só nossa, e agora é de todos, uma parvoíce perante tal maravilha sonora) e o sublime crescendo de “The Mercy Seat”, single para levar para ilha deserta, viagem ao fundo do ser e do transcendente. A magnitude de Nick Cave é alvo de fotografia neste momento, além da escrita dura, sem medo de ir a Deus e ao Diabo, aos pecados dos homens. Ao vivo consegue resistir à tentativa de assalto de Johnny Cash como melhor versão, outro homem de preto que nos últimos anos de vida se tornou no melhor cantor de covers da história. É um hino, e continua a ser de Cave. É obra.

Mas há também Black Midi, e perante o balanço entre revisitar amigos e assistir pela primeira vez ao vivo, tomou-se decisão salomónica. A receção não engana – ritmo imparável, um metralhar de palavras e instrumentos, do baterista em disposição lateral (boa jogada para ver todo o trabalho incessante de Morgan Simpson), a Geordie Greep, impecável com o seu lenço no casaco a provar a teoria de wear the suit de Guy Ritchie. De facto, não é a roupa que o usa a ele, vocalista que acompanha o ritmo da salada de pós-punk, rock experimental, noise. Dos fixos, Cameron Picton (que grande nome) salta, por vezes, para a frente, e é o faz tudo da casa, do baixo às teclas e vários vocais.

Schlagenheim foi um meteorito que aterrou em 2019 e deixou marcas profundas, mas Cavalcovers aguentou o síndroma do segundo disco, com músicas como “Love Story”, versão muito 2021 da história da varanda de Verona, e novíssimas como “Welcome to Hell”, hipnótico e épico acompanhamento de narrativa paranóica, quase Bauhaus, faz prometer muito para Hellfire, quase a pingar. No final, um simpático “thank you for listening, good night“.

Mura Masa versus Cigarettes After Sex formavam um dos solapes mais curiosos de edição, mas os americanos ficaram para trás por já terem sido vistos no habitat natural da música, em Coura, e terem soado muito colados ao disco. Não está errado, é apenas uma preferência por dinâmicas maiores, e Mura Masa, alter ego de Alexander Crossan, dá-nos isso com “Demon Time”, single do novo longo que há de sair com esse título, com a vocalista aos pulos e a letra a saltar na tela, muitas cores e animação. “Nuggets”, anti-romântica e em pura repetição, é pura música para TikTok, e “bbycakes”, também nova, mantém o tom para a festa.

E depois vêm os Tame Impala, talvez a banda com a presença em palco mais em transformação a que assistimos na úiltima década. De um espetáculo em Barcelona onde pareciam que queriam fugir dali para continuar a tocar no estúdio, ao clique de gigantismo em 2015 com a explosão de Currents – reza a lenda o primeira de sempre a ter esgotado, até à presença atual, onde o concerto no cenário maior do NOS Primavera Sound começa com um anúncio sobre o Rushium, medicamento que voluntários estariam a distribuir pelo público e que provocará alterações na perceção da realidade. Talvez por isso tudo soe em bom, em grande, com os magníficos ecrãs dos dias de hoje a dizerem adeus à granularidade dos primeiros anos, com o psicadelismo a espalhar-se por toda a parte, pelos raios laser a dispararem atré ao céu, pelas luzes na base do palco (boa gente do mundo da fotografia diria que os palcos até estão altos demais e fica difícil tirar imagens como se quer).

Mas Kevin Parker, alfa e ómega dos Tame Impala, passa por todas estas mudanças até ao estrelato atual com uma aparente leveza, sem nunca deixar de se concentrar no que lhe deu tudo isso: a música. Com um ar de maior maturidade e bonomia (a caminho de um ar de filho de Simon Le Bon), Parker até comunica mais com o público, mais à vontade e com menos vontade de fugir para onde cria todos aqueles bites e bytes. Currents continua o álbum dominante no alinhamento, “Let It Happen” é canónica e “The Less I Know the Better” faz todo o sentido como encore, mas o nosso coração ainda balança Lonerism, obviamente com “Elephant” e a hipnótica “Feels Like We Only Go Backwards”, ótimo sequitur para “Let It Happen”. Fez todo o sentido estar ali naquele dia, naquela hora, dos dois lados do palco.

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