Arcade Fire no Campo Pequeno – A música vence sempre?

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A banda canadiana recordou-nos que é obreira de alguma da melhor música das últimas duas décadas. O resto? Pois, o resto logo se verá.

O regresso dos Arcade Fire a Portugal chegou assombrado pelas recentes notícias da alegada conduta sexual imprópria de Win Butler, um dos seus líderes. Meses antes, o irmão Will Butler anunciava a saída da banda. Por mais que o quiséssemos evitar, não havia como fugir. Como encarariam os fãs estas alegações? Como lidaria a banda com isto? Feist, que estava escalada para as primeiras partes da digressão europeia, acabaria por abandonar a tour. A sua consciência disse-lhe que não podia continuar. Seguir-se-iam outros?

A noite no Campo Pequeno, em Lisboa, começou com os Boukman Eksperyans, histórica banda haitiana com mais 40 anos de carreira, um misto de reggae musculado com rock caribenho, perfeito para aquecer as ancas. Numa constante musical, o intervalo entre concertos é pautado por sons de diversas latitudes geográficas, do Magrebe à América Latina, servidos de forma enérgica por um animado DJ. Até Rosalía se juntou à festa.

Ao centro da plateia, um piano de cauda (que mais à frente serviria como palco secundário) serve-nos música de salão, que nenhum filme de Charlie Chaplin desdenharia. Também La Vie en Rose nos fez companhia.

Há algumas cadeiras vazias, é certo, mas a casa está praticamente cheia. “5 Violinos” de DJ Nigga Fox, antecede a entrada da banda, feita por uma das laterais da plateia, sob um clima de excitação. Se alguém esperava vaias, ouviu aplausos. A abrir, “Age of Anxiety I”, mistura de influências, mostra um enérgico Win Butler, de colete vermelho e cabelo oxigenado.

O excelente alinhamento seria centrado, obviamente, no último disco da banda, WE, sem deixar de fora alguns dos (muitos) grandes momentos da sua discografia. “Ready to Start” (de The Suburbs, já com mais de uma década em cima) é cantada a plenos pulmões por um Campo que, nestes momentos, se releva demasiado Pequeno, recordando-nos que esta é uma das mais marcantes bandas surgidas nos últimos 20 anos. É aproveitada também para um dos poucos momentos em que a banda se dirige à plateia: “Obrigado Lisboa, estamos muito contentes por aqui estar”. O sentimento é recíproco. Momento ideal para tocar “The Suburbs”, uma canção que fala de “saudade”. Em Portugal, sê português.

A primeira incursão ao tal piano de cauda é feita por Regine Chassagne, que, em cima deste, nos hipnotiza com “It’s Never Over (Hey Oprheus)”, qual bailarina de porcelana saída de uma caixinha de música, com voz desafinada de eterna menina. Win junta-se-lhe de seguida para “My Body is a Cage”, mais fúnebre que nunca. Conscientemente ou não, a sua música é feita para ser fruída em comunhão, por multidões. Prova disso é “Afterlife”, recebida em verdadeira histeria. A vida após a morte. Com momentos assim, voltaremos a viver, uma e outra vez.

O mestre David Bowie saudou-nos em “Reflektor” (mais disco que nunca, com bola de espelhos incluída). Regresso a WE para “Age of Anxiety II (Rabbit Hole)”, que, não sendo particularmente memorável em disco, resulta bem melhor ao vivo, com os seus crescendos a culminarem num coro de yeahs. Continuaram em WE com “The Lightning I-II”, sentimento à flor da pele, mais um hino para ser cantado em comunhão. “Rebellion (Lies)” continua gigante, mas não deixou de ser estranho não ter Will a correr de um lado para o outro com um tambor. Uma das surpresas da noite foi a já velhinha “Headlights Look Like Diamonds”, do longínquo EP homónimo (2003). Nele constava também outra das pérolas do grupo: “No Cars Go”. E continua a soar como da primeira vez, com uma simbiose perfeita entre vozes e instrumentos.

A pulsação acalmou um pouco com “Unconditional I (Lookout Kid)”, infantil q.b. Dados os acontecimentos recentes, ouvir Win cantar “No one’s perfect” não deixa de soar a autobiográfico.

Foco novamente centrado em Regine, com a sequência “Haïti” (homenagem às suas origens, com a presença dos Boukman Eksperyans, trajados a rigor e de bandeira na mão) e de “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, feita para ela brilhar, qual Heidi a correr pelas montanhas.

O bloco inicial de 1h30 (sem qualquer interrupção) fechava com “Everything Now” (todo o mérito aos Arcade Fire pôr meterem uma flauta de pan a soar bem), mais uma para a histeria colectiva. Não há como não entoar os la la las em uníssono.

Depois de uma curta pausa para se pedir o encore (ainda faz sentido?), voltam para apresentar “End of the Empire I-IV (Saggitarius A*)”, um dos melhores momentos do novo álbum, que a espaços nos faz lembrar algumas das composições de Paul McCartney/John Lennon. A fechar, a magistral “Wake Up”, que nenhum estádio desdenharia ouvir, é cantada por todos até se ficar sem fôlego. A banda despede-se debaixo de uma enorme ovação, ao som dos ohh ohhh, que viriam a extravasar para o exterior.

Os Arcade Fire talvez tenham hoje a sua reputação questionada. Talvez já não sejam o fenómeno que foram em tempos. Talvez já não mudem a vida de ninguém. Mas, para esta análise, o que contam são as canções. E, com um belo alinhamento a contemplar as diversas fases da sua carreira (com uma menor presença de Everything Now), recordaram-nos que são os obreiros de alguma da melhor música das últimas duas décadas. O resto? Pois, o resto logo se verá.

Fotos de: João Padinha

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