Associação ambiental Quercus critica relatório do novo aeroporto em Alcochete e aponta impactos no aquífero, biodiversidade e recursos hídricos.
A associação ambiental Quercus manifestou reservas quanto ao relatório técnico recentemente divulgado sobre a localização do futuro aeroporto da região de Lisboa, alertando para a necessidade de uma análise rigorosa e de um escrutínio público alargado, face aos potenciais impactes ambientais, territoriais e climáticos associados ao projeto.
A organização considera que qualquer decisão relativa à implantação da nova infraestrutura deve assentar em critérios de avaliação independentes, transparentes e sustentados, assegurando a salvaguarda do ambiente, da saúde pública, dos recursos naturais e do ordenamento do território.
Novo aeroporto de Lisboa: riscos para o aquífero de Setúbal e abastecimento de água
Entre os principais fatores de preocupação identificados pela Quercus está a proximidade ao maior aquífero da Península Ibérica. Este sistema aquífero assume um papel estratégico no abastecimento de água, sendo responsável por uma parte significativa do fornecimento à população do distrito de Setúbal. A associação sublinha que intervenções suscetíveis de comprometer a qualidade ou a disponibilidade deste recurso poderão ter consequências relevantes para a segurança hídrica da região.
A Quercus tem vindo, ao longo dos últimos anos, a assinalar os riscos ambientais associados às várias soluções aeroportuárias em análise. Entre os impactes referidos encontram-se a destruição e fragmentação de habitats, a pressão sobre ecossistemas considerados sensíveis, os efeitos sobre a avifauna, o aumento dos níveis de ruído e das emissões atmosféricas, bem como alterações nos recursos hídricos, na paisagem e na biodiversidade. No caso concreto da localização em Alcochete, a associação entende que persistem preocupações significativas devido à presença de valores naturais com elevada relevância ecológica.
Aeroporto em Alcochete: movimentação de terras, desvio de ribeiras e impacto ambiental
O relatório técnico agora divulgado propõe a definição da plataforma aeroportuária à cota de 50,25 metros, com o objetivo de limitar a movimentação de terras. Ainda assim, estão estimados cerca de 25 milhões de metros cúbicos de escavação e 20 milhões de metros cúbicos de aterro, o que configura uma intervenção de grande escala. Segundo a Quercus, mesmo que se procure um equilíbrio entre materiais de corte e aterro, a operação implicará alterações profundas na topografia, na estrutura dos solos e no funcionamento dos ecossistemas existentes.
Outro ponto destacado prende-se com o desvio previsto da Ribeira do Vale Cobrão. A intervenção abrangerá uma área próxima dos 36 hectares e contempla a criação de canais abertos destinados a assegurar a continuidade hidráulica e ecológica. A associação alerta, no entanto, que eventuais falhas no dimensionamento dessas infraestruturas ou a ocorrência de fenómenos hidrológicos extremos poderão comprometer o equilíbrio da bacia hidrográfica, com possíveis impactos na segurança operacional do aeroporto e da futura ligação ferroviária.
A Quercus defende ainda que a política aeroportuária nacional deve ser enquadrada numa perspetiva mais ampla de mobilidade e ordenamento do território. Nesse sentido, considera essencial reduzir a pressão sobre a Área Metropolitana de Lisboa, reforçar a rede ferroviária e promover alternativas compatíveis com os compromissos climáticos assumidos por Portugal. A associação aponta, como solução transitória, o aproveitamento do Aeroporto de Beja e defende a substituição de voos de curta distância por ligações ferroviárias sempre que viável.
Perante os riscos identificados, a organização sustenta que qualquer decisão sobre o novo aeroporto deve ser precedida por uma avaliação ambiental exigente, um processo de participação pública devidamente informado e uma análise detalhada dos custos ecológicos, sociais, económicos e climáticos.
