Entre escolhas difíceis e momentos inesperados, o terceiro dia do Primavera Sound Porto mostrou que o melhor nem sempre está nos maiores palcos.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, e após anos a vê-los como decoração das primeiras horas de cartazes, finalmente chega a hora de assistir a um concerto dos Triángulo de Amor Bizarro, banda galega que mostrou a sua sensibilidade com muitos gatos a serem projetados e “Mi Catedral” a soar como hino indie numa tarde de muito calor e sol, como não poderia deixar de ser em 2026. Ouviu-se outra língua que não o inglês, e ainda bem.
Mas o pop é o que é, e dificilmente não se volta à matriz linguística da pastilha elástica. E neste caso, os Yard Act são uma desculpa para ter de fazer o sacrifício de voltar a um palco principal no tamanho, não no prazer. Os jovens de Leeds continuam a fazer pensar como é que não são “maiores”, em mais um concerto impecável, aqui com a novidade de ter sido muito baseado em You’re Gonna Need a Little Music, o álbum que está quase a surgir nos escaparetes e que surge a rodar em pano de fundo na sua versão vinil. James Smith, o vocalista com o nome mais genérico de sempre, dá uma aula de empatia com o público, posicionamento político ao peito com um pin da banderira Palestina em vez de em discurso, e tiradas como“Primavera was created in Barcelona, but comes alive in Porto”.

Muita festa com o saxofone em destaque, e ponta final a misturar clássicos instantâneos como “100% Endurance” e “The Overload”, com novidades como “New Begginings” – diz que vêm a Lisboa em outubro para show no Capitólio, portanto saquem das agendas.
Em seguida, cisma importante entre Mike D, histórico dos Beastie Boys aqui a solo, e Criolo, Amaro & Dino no palco de nome mais polémico desta edição a fazer concorrência. A lusofonia acaba a ganhar, mas curiosamente depressa se pede a dispensa dos vocais e dos discursos (entre os slogans artivistas e as declarações às damas) perante a genialidade de Amaro Freitas ao piano. Brincou com isto tudo, navegou com igual facilidade entre ritmos de Cabo Verde e o “Rondo Alla Turca” de Mozart. O pernambucano ofusca tudo e mostra que não podem existir instrumentos proibidos em festivais que lhes seriam aparentemente deslocados. O virtuoso deste Primavera Sound Porto.
Em jeito de balanço, e lida a entrevista ao diretor do festival, José Barreiro, que afirma que não quer um festival de 60 ou 70.000, agradece-se – até pelo facto de que a passagem dos 20 para os 40.000 originou muitas baixas entre os veteranos do certame. Desde o fim do mítico palco ATP até à criação do novo palco principal que é dos piores nos grandes festivais nacionais, a compreensão pela necessidade de crescer para sobreviver – e que a Live Nation é fezes – faz no entanto também escolher não andar por este último e optar por outros palcos. Até por isso, desafia a compreensão a obrigação de não ter alternativa durante o concerto de Massive Attack (cujo concerto de 2024 no Kalorama foi agradável).

Mas de facto, o que interessa são as coisas que chegam aqui e não se costumam ver com tanta facilidade. É o caso das Smerz, que a ZdB já tinha trazido a Lisboa, mas que chegaram pela primeira vez a norte do Douro. Fogo lento que queima nos corações, serpentinas prateadas em fundo, as meninas da Noruega sediadas em Copenhaga deram a beleza calma que se queria, com teclas sublimes e vestidos ao vento. Por momentos, vai-se a Amaarae ,mas percebe-se que depressa o modo solo em palco com pré-gravados à la Kendrick não vale a pena.
Gostamos de lebre mas não queremos gato, e mais vale regressar à poesia, olhar para o céu a apreciar com o final inevitável de “You Got Time and I Got Money”. Já não estamos em 2012 a correr à chuva para conseguir bilhetes para ver Jeff Mangum na Casa da Música, mas no fundo nunca deixamos de estar. Enquanto assim for, fenómenos migratórios como os descritos pelo diretor do festival de que a segunda cidade onde se vendem mais bilhetes para o Primavera Sound Porto seja Lisboa são para continuar. Mesmo a ter de contornar os cabeções, assim seja.
Até para o ano!

