O segundo dia do Primavera Sound Porto 2026 trouxe casa cheia para os Gorillaz e uma viagem sonora entre Portugal, Reino Unido, Suécia e Japão.
Mais um dia de suor a pingar pelo corpo enquanto se viaja de metro até à Câmara de Matosinhos. À chegada ao Primavera Sound Porto, Baxter Dury brinda-nos com a despedida do seu concerto com “Allbarone”, tema-título do seu último disco e com a eletrónica com o seu quê de lembrança de John Grant. A seguir, a promessa de um regresso em breve, fácil de acreditar com este já habitué em terras lusas nos últimos anos.
Panda Bear, esse, nem precisa de apanhar aviões. A residência por cá há vários anos é de conhecimento geral e não é surpresa a escolha de nacionais para a sua banda, como é o caso de Maria Reis. Bem unidos no palanque no centro do palco, animações variadas a surgir em fundo (muitos emojis de dedinhos do meio em riste a pairar em “Shepard Tone”), a atmosfera de “Song for Ariel” a seguir antes da chegada de “Ferry Lady” do mais recente Sinister Grift.

No entanto, Gisela João estava a reforçar a armada portuguesa a horas de jeito no palco da polémica marca de bolsas de nicotina oral ZYN. A cantora orgulhosamente minhota de Barcelos tem andado muito pelas versões e colaborações, desde o tecno vira de “Por Minha Sorte”, à confissão de “A Louca” e à infusão de eletrónica de Xinobi em “Fado para esta Noite”. Muito diálogo com a galera a falar de temas de agrado fácil em termos de reação, antes de fechar nos “Vampiros” e “Inquetação” dos mitos Zeca Afonso e José Mário Branco, com muita bateria, guitarra e gestualidade à mistura. Gisela ganhou um espaço incontornável na cena musical portuguesa e toda a gente de colaborar com ela, mas bateu a saudade do disco inicial de 2013 e de “Malhões e Vira”.
Os Slowdive são um dos monumentos do shoegaze, e após o seu retorno às lides, têm sido visita recorrente, em especial entre Paredes de Coura e o Porto. Dois álbuns de prova de vida após, Neil Halstead e Rachel Goswell deram mais uma lição apreciada por uma imensa minoria ao pôr do sol no único dia esgotado do festival, variando entre as mais recentes (“shanty” a arrancar), aos clássicos (“Star Roving” do imorredoiro Souvlaki a seguir). Horinha de contemplação de vida que vale muitos euros de consultas, com “Alison” e “When the Sun Hits” impecáveis a fechar – as coisas boas de 1993 ainda soam à nossa volta.
De um lado de mais longe, de outro muito atuais, os Viagra Boys apareceram este ano num dos palcos maiores do Primavera Sound Porto – para os verdadeiros, ainda o principal – trazendo um pós-punk com raízes diretas à década setenteira muito antenado à agenda dos dias de hoje – dias do lixo como um historiador português já os chamou. Foi um concerto de clique face aos avistamentos anteriores deles – vem-nos à memória o ano de 2019, também com um concerto neste mesmo festival, na altura com o vocalista Sebastian Murphy deitado no chão a cantar para o público que olhava para as solas das sapatilhas.

Hoje não foi assim. “Man Made Of Meat” atira-se à jugular (“If it was 1970 I’d have a job at a factory” / I am a man that’s made of meat / You’re on the Internet looking at feet”), com a multidão a mexer-se e a causar confusão nas filas da frente. E foram todas assim, “Uno II” a falar de dentes com tratamento Paulo Portas special, falas da atualidade sobre o pirmeiro bilionário do mundo (trilionário nas contagens de outras paragens), o sotaque e a intensidade a fazer lembrar o compatriota Pelle Almqvist dos The Hives vistos há pouco tempo no Sagres Campo Pequeno, mas aqui com o humor a ser levado muito mais para as grandes questões por que passa o quotidiano dos mais pequenos. Assim, sim, e com direito a elogio aos cachorros quentes da cidade.
Se hoje se esgotou, não há duvida do motivo: Gorillaz. Eles estão de volta e continuam a arrastar multidões, naquela que foi bem possivelmente a maior enchente. Antes do início, homenagem ao recém-falecido e venerado artista plástico David Hockney, seguindo-se uma abertura com flauta que para os nativos fará recordar Rão Kyao, e também uma animação de inspiração do sudeste asiático a levar logo para The Mountain, deste ano da Graça de 2026. Faixa título com direito a animação original e recordação da voz de Dennis Hopper.
Logo a seguir, “The Happy Dictator” projeta os maiores de sempre Sparks em pano de fundo, dando força a este álbum que vai ocupar metade do concerto e reforçando a nota que Damon Albarn adora gravar coisas com múltiplas pessoas. De barrete vermelho, camisa khaki verde e megafone em punho, surge depois Jacques Costeau. Damon desce às grades onde senhores de bonita idade estão surpreendentemente a marcar presença, e como não é um monstro mas precisa de amigos, pouco depois Joe Talbot dos IDLES aparece em palco para cantar “The God of Lying”. Clima de sorrisos e honra por partilha palco, sem passar a ideia de farsolice, qual um Sérgio Godinho de Londres. Clima de festa, público na mão, e no final guarda-se “Feel Good Inc.” e “Clint Eastwood” como bónus porque na verdade não são precisas para quem ganhou tantas fichas novas no casino para precisar de tirar o livro de cheques e levantar os ganhos do passado.
Mas ainda havia Melt-Banana, o noise do tufão japonês de Yasuko O e Ichiro Agata. O power duo que veio acabar com tudo. Pessoal a despir-se, Yasuko a perguntar se nos estávamos a divertir porque eles se estavam a divertir, e “Candy Gum” a partir tudo. Éramos poucos, começámos a ser cada vez mais como o círculo do mosh, e a sequência de oito músicas em minuto e pouco cada (com direito a reatores a jato sem nunca vacilar pela madrugada fora). Nada parecido, e obrigado tampões.

