Orange Is The New Black Temporada 6 – Quando o drama e a comédia negra se juntam

“Gooooood morning Litchfield Max! And greetings to our new cookies!”. Sejam bem-vindos à penitenciária feminina de segurança máxima de Litchfield! É assim que começa a sexta temporada da tão bem aclamada série Orange Is The New Black.

Calma. Este foi o único “spoiler” presente neste texto. Os autores fizeram um esforço para não se desbocarem já sobre tudo o que acontece nesta temporada. Por isso, aos anti-spoilers e amantes desta série de comédia negra… Podem ler sem reservas.

Saltando do início diretamente para o final, iremos começar esta crítica com uma curiosidade: cada episódio de Orange Is The New Black (OITNB) termina com uma canção, a acompanhar os créditos, que é sempre uma referência a uma personagem e/ou acontecimento pertinente que vimos no dito. Já tinham reparado?

Na verdade, são estes pequenos detalhes que nos fazem apreciar ainda mais uma série que nos tomou de assalto há seis temporadas. O mote sempre foi simples: transpor a obra literária de Piper Chapman – que, efetivamente, é uma memória do seu ano e meio como reclusa no sistema prisional americano – para o pequeno ecrã numa série de comédia. E especificando mais ainda, comédia negra. O problema – ou, neste caso, a sua inexistência – é quando os atores e o argumento fazem desta série um vício de consumo e se veem os 13 episódios num piscar de olhos.

Foi o que nos aconteceu com a pré-visualização desta nova temporada da série, que estreia já esta sexta-feira, dia 27 de julho. Mal começámos a ver, o difícil era terminar. Ainda por cima, a própria Netflix dificulta esta tarefa aos viciados em séries, pois para além de lançar todos os episódios de cada temporada de uma vez só, é incrível a facilidade e rapidez com que passa automaticamente para o episódio seguinte, sem requerer qualquer esforço por parte do espectador, que não seja a sua vontade de devorar a temporada toda de uma só vez.

Orange Is the New Black – Fotografia: Netflix/Cara Howe

Voltando ao que interessa, Orange Is The New Black é uma série surpreendente e deliciosa de acompanhar. O final da temporada passada – lembremo-nos que a história, que se desenrolou ao longo dos 13 episódios, aconteceu ao longo de três dias na vida Piper Chapman e suas companheiras – culminou com um motim (um prison riot) que nos deixou na incerteza sobre o que irá acontecer, certos, no entanto, que o que aí virá será uma experiência completamente nova. Um autêntico cliffhanger (só para nos deixar nada mais nada menos do que um ano inteiro à espera que saísse a nova temporada), que deixou muitos pontos de interrogação e poucos pontos finais.

Talvez o único ponto final fosse o de que, certamente, o destino destas mulheres nunca mais seria o mesmo. Todo o momentum de drama que pejou a temporada anterior levou a que as residentes tomassem decisões que viriam a ter repercussões – tal como na vida real, todas as nossas decisões trazem consequências, e afinal, é por isso mesmo que estas mulheres estão presas; porque em algum momento da vida tomaram uma decisão que as levou até àquela situação. Restava saber que repercussões seriam estas.

Danielle Brooks, atriz que interpreta a divertida personagem Tasha Jefferson, já havia levantado um pouco a ponta do véu sobre o que poderíamos esperar desta sexta temporada: “You’re definitely going to see all of the girls trying to figure out how to get out of this rabbit hole they’ve created. Who is loyal to whom? Who is standing alone? Who is motivated by their own personal will to get out of prison? Who lies and who tells the truth? All of that stuff will come out this season”. De facto, e em pleno contexto prisional, convenhamos que a confiança nunca pode ser cega. Ao longo do desenrolar da série assistimos à criação (ainda que ficcional) de amizades verdadeiras, laços profundos, votos de confiança, quase como se criassem uma família ali dentro.

Houve momentos muito divertidos – de facto, arriscaríamos até dizer que as residentes de Litchfield conseguem passar, para o espectador, a ideia de que estar na prisão até é divertido, dando vontade de lá viver. Até mesmo o título da série (traduzido para Laranja é o Novo Preto) remete-nos para a ideia desta mistura entre uma realidade bem cruel (negra) mas que pode ser encarada com uma certa leviandade e irreverência (laranja). Não obstante, nos momentos de crise, a questão permanece: em quem podemos, afinal, confiar? Para a sexta temporada, podemos contar ver como cada personagem responde a estas questões (revelando personalidades e divergências de opiniões morais do que é correto ou não, das escolhas que fazemos e por quem quase daríamos a vida), numa espécie de aftermath da temporada anterior. Podem, também, contar com novas personagens, novas rivalidades, novos esquemas, dinâmicas, conflitos e todo um novo rol de histórias e relações. E mais não podemos revelar. É um ambiente sempre envolto em comédia e drama, por vezes com uma pitada de thriller, numa mistura interessante.

Orange Is the New Black – Fotografia: Netflix/JoJo Whilden

Apesar desta componente de comédia, não significa que a produção tenha deixado de lado temáticas importantes e pertinentes que acontecem em contexto prisional, tanto do lado de quem detém o “poder” – como abusos sexuais e de poder, assédios, violência extrema (e muitas vezes sem motivo) dos guardas para com as residentes, falta de condições básicas de higiene e saneamento – como das próprias residentes – como abuso de substâncias psicotrópicas, tráfico de drogas, desesperança, insanidade mental – entre outras situações, são frequentemente abordadas e retratadas como parte da realidade prisional, que nos fazem refletir sobre uma série de questões.

Algumas destas situações invertem-se por completo nos episódios finais da quinta temporada, nos quais são os guardas que passam a ser os reféns das prisioneiras e são eles as vítimas desses mesmos abusos, com um certo sabor de vingança. Do lado do espectador, não pode deixar de pairar a pergunta no ar: não mereciam, mesmo? Ou, colocando a questão de outra forma, será alguém que cometeu um crime e já está a ser penitenciado por isso (ao lhe roubarem o maior bem que alguém pode ter, que é a sua liberdade) merecedor(a) de tais abusos? Sabemos que uma série é boa quando nos faz refletir, e OITNB certamente preenche este requisito.

As personagens de OITNB são riquíssimas e foram muito bem conseguidas, apresentando toda uma variedade de traços de personalidade e comportamentos. Não desvirtuando a história da personagem principal, Piper Chapman – mas relegando-a para um plano secundário, até mesmo porque durante o desenrolar da própria série, outras personagens acabaram por ter mais destaque do que aquela que seria, supostamente, a principal – é impossível não dar atenção às inúmeras sub-histórias das personagens restantes. As várias personagens secundárias são um mimo de caraterização e, de igual modo, extremamente bem conseguidas, através de variados estereótipos – como a líder e estratega Red (interpretada por Kate Mulgrew), a independente e sexy Alex Vause (interpretada por Laura Prepon), a amorosa e infantil (devido a um distúrbio mental) Suzanne (interpretada por Uzo Aduba), a divertida dupla Flaca e Maritza (interpretadas por Jackie Cruz e Diane Guerrero, respetivamente), entre outras.

Ainda sobre as protagonistas, é de destacar o fenómeno que é o facto do espectador começar a gostar e criar empatia com personagens que, à partida, estão naquele lugar porque cometeram algo de muito errado nas suas vidas. Fosse um “simples” esquema de crime organizado em tráfico de drogas, ou até crimes mais graves como homicídios planeados, inclusivamente homicídio infantil, o que é facto é que nós gostamos delas e acabamos por quase ter pena e empatia com elas. Um fenómeno que podemos também identificar em séries como Dexter (que retrata a vida e o enorme segredo de um viciado em assassínio de outros assassinos ou criminosos) e Breaking Bad (que retrata a vida de um homem normal que, devido a uma doença, se tornou também num criminoso). O denominador comum a estas três séries é um fenómeno de adoração do anti-herói, no qual nutrimos sentimentos positivos por personagens com comportamentos que seriam intoleráveis na vida real.

Orange Is the New Black – Fotografia: Netflix/Cara Howe

Assim, todo o argumento, as dinâmicas, os enredos, a escolha das personagens (intercalando a narrativa dentro de Litchfield com pequenos trechos ou flashbacks das vidas das prisioneiras cá fora e o que as levou até ali, o que torna a série ainda mais rica), a exploração do background e a importância do mesmo no dia-a-dia das reclusas da Penitenciária de Litchfield e as suas histórias mirambolantes, tornam esta série verdadeiramente cativante. Olhar para o dia-a-dia de uma prisão e rirmo-nos, como se de qualquer outro contexto se tratasse é, no mínimo, bizarro e bem conseguido, nunca deixando, porém, o drama de lado.

Não obstante, há uma crítica menos positiva a fazer à sexta temporada de OITNB: ficou a sensação de serem demasiados novos cenários e tramas, em detrimento de um aprofundamento do drama que poderia ter sido levado a cabo, aproveitando e explorando mais a fundo a investigação de quem assassinou Poussey na quarta temporada (o que acabou por dar origem ao riot que marcou a quinta temporada, e que resultou no que resultou agora na sexta temporada). Dito isto, foi um pouco “demasiado de tudo”, demasiada leveza, demasiada comédia, histórias aqui e ali um pouco soltas demais e, talvez, não drama suficiente.

Apesar disso, se as cinco temporadas lançadas até agora muito pouco deixaram a desejar, a sexta tem, sem dúvida, o seu mérito, vindo como que fazer um “close up” de um culminar de acontecimentos até ali. Tendo terminado, também, com um novo cliffhanger, como não podia deixar de ser. Já agora, recomenda-se vivamente o bingewatching da quinta temporada para que o desfecho de eventos no final dessa temporada esteja presente ao iniciar esta nova.

OITNB já tem uma sétima temporada confirmada para 2019 (yes!), tendo o autor, Jenji Kohan, lançado o rumor que poderá ser a última. Mas, até lá, a recomendação é o consumo imediato e obrigatório destes novos 13 episódios da sexta temporada.
E, depois, até p’ro ano!

Texto por: Cláudia Silva e João Cunha


 

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