Com mais de seis décadas de história a alimentar a memória coletiva da cidade, a Churrasqueira do Campo Grande renovou a sua casa tendo em mira nunca perder a alma.
Fundada em 1962, a Churrasqueira do Campo Grande representa um marco fundamental no tecido urbano e na memória gastronómica de Lisboa. Com mais de seis décadas de tradição ininterrupta, o espaço passou recentemente por um minucioso processo de remodelação interior que permitiu modernizar o serviço e a infraestrutura sem nunca fechar portas ao público.
Ao entrarem na sala, salta imediatamente à vista o cuidado que houve, por parte destes empreendedores, em resgatar a essência da casa através de detalhes fotográficos e patrimoniais únicos, destacando-se a impressionante chaminé central da churrasqueira original, preservada como coração pulsante do espaço, no meio de um ambiente renovado, requintado e acolhedor.
Este novo projeto consegue o equilíbrio perfeito entre a traça rústica genuína e o conforto que qualquer cliente contemporâneo exige, criando uma atmosfera profundamente familiar onde os clientes de sempre e as novas gerações se cruzam para degustar os pitéus típicos da cozinha tradicional e testemunhar a vitalidade de um produto, chamemos-lhe assim, que é bem português.
Podemos dizer que a oferta gastronómica obedece sem desvios nem parêntesis a este espírito de regresso às origens e aos sabores que acompanharam os lisboetas ao longo de décadas.
O menu celebra os pratos tipicamente portugueses, ancorado na incontornável grelha a carvão e numa seleção criteriosa de matérias-primas frescas. Senão reparem: a carta, que convida à partilha e ao conforto, destaca manjares como o icónico Frango assado com o molho especial da casa, peixes grelhados, os guisados aromáticos e um vasto leque de propostas clássicas da nossa gastronomia.
Antes de descrever os pitéus que vieram para a mesa, sublinhar que, durante a experiência de degustação, a excelência da comida foi impecavelmente acompanhada por um serviço de sala intocável e atencioso, composto por funcionários experientes que trabalham no espaço e no ramo há décadas, em perfeita sintonia com jovens talentos que lhes seguem os passos com o mesmo profissionalismo.
O arranque da refeição deu-se com o couvert, bem tradicional, de pão, manteigas e azeitonas, e duas entradas, entre outras igualmente tentadoras, Os Nossos Croquetes de Novilho servidos com mostarda Savora e os famosos Peixinhos da Horta com Maionese de Coentros e Lima (“o clássico feijão-verde em polme, acompanhado por maionese de coentros estaladiços”).
Quanto aos croquetes há a referir que são mesmo do tempo das nossas avós, pelo menos daquelas que cozinhavam bem – feitos de carne de vaca desfiada e com o sabor do molho da carne bem temperado e calibrado pelo tempo ao lume. Já os Peixinhos da Horta são um daqueles acepipes irrecusáveis, para quem frequenta ou visita as nossas ruas – estaladiços e apetitosos, sendo que um pouco de maionese da casa destaca-lhes ainda mais o paladar delicioso.
Para ficarem com uma ideia mais completa da seleção variada do menu e das opções alternativas aos croquetes ou aos peixinhos da horta, a carta da Churrasqueira Campo Grande reserva ainda outras sugestões de entradas muito apelativas. Podem optar pelo Chouriço assado, um enchido artesanal com ricos sabores de fumeiro, ou pelas Gambas à guilho, um clássico de gambas salteadas em azeite e alho com um toque de malagueta. Para quem prefere uma partilha mais requintada, há a Tábua de presunto com fatias finas de presunto serrano, bem como os Ovos rotos com lascas de presunto, compostos por uma cama de batatas fritas cobertas com ovos fritos e fatias de presunto.
Nos pratos principais, têm também por onde escolher à vontade. Para os pratos principais, divididos entre os clássicos do mar, as propostas da grelha e não só, e uma opção vegetariana, a carta destaca várias sugestões. Nos peixes, encontram-se a Posta de bacalhau de cura tradicional com migas de broa, couve portuguesa e feijão frade, o Arroz de bacalhau com coentros, e o Bacalhau à brás do nosso chef com batata palha caseira e ovos. A Corvina surge em posta grelhada com molho de limão, assada no forno com batatinhas fritas e legumes assados no seu molho, ou em filetes com arroz de tomate à antiga, além da tradicional Açorda de gambas com pão alentejano, azeite, alho e coentros.
Nas carnes, as opções variam entre o Frango no churrasco com molho da casa, o Frango grelhado com batatas fritas, a Coxa de frango desossada com molho especial de alho e limão, e a Fatiota de coelho desossada com molho verde.
E não ficamos por aqui. Há também o Arroz de cabidela de galinha, o Bitoque da vazia com ovo a cavalo, e a Grelhada de porco alentejano com lombinho, lagartos, cachaço e salsicha. A lista inclui ainda o Rosbife de novilho com batata palha caseira e esparregado, o Cachaço de porco à bordalesa em vinho tinto e cebolinhas, o Tomahawk de novilho de pasto para duas pessoas na grelha com pedras de sal, a Posta de vazia premium na brasa, e a clássica Picanha com acompanhamentos tradicionais de arroz branco, feijão preto temperado e batata frita.
Para completar, o lado vegetariano apresenta o Alho francês à brás com azeitona galega, uma reinterpretação cremosa desse outro clássico.
No nosso caso escolhemos dois pratos que colhem maior fama na cozinha tradicional: os Filetes de corvina dourados com arroz de tomate malandrinho e o Frango no Churrasco com Molho da Casa, tudo harmonizado à altura com um elegante Chardonnay da Casa Santos Lima e a estrutura do Duas Quintas Tinto.
Revelaram-se dois pratos muito à altura do que a Chuirrasqueira promete: filetes frescos, que se abrem em suculentas lascas (nada de peixe guardado no congelador, portanto), com o arroz de tomate feito em refogado de picado grosso, bem aromatizado. O frango com o molho da casa é um cartão de visita, segundo de resto já nos tinha sido dito: cheio de sabor.
Não esquecer, ainda, que a Churrasqueira do Campo Grande tem um menu diário de Pratos do Dia, que valem bem a pena caso não tenhas tempo para esperar e queiras uma refeição rápida, mas de comida a sério.
A única nota menos positiva na cozinha diz respeito às doses, cujas quantidades não são abundantes e poderiam ser ligeiramente mais generosas para satisfazer a fartura que habitualmente se associa, lá está, a este tipo de casa.
Já no momento dos doces, a experiência reserva surpresas e contrastes. Para nós, o grande destaque vai para o Pudim de azeite (pudim de textura aveludada, servido com sorbet de limão): o facto de vir o termo “azeite” incluído no título e na sua confeção não desfavorece em nada o paladar. Recomendamos que ultrapassem essa primeira impressão porque se trata de uma de sobremesa de textura aveludada absolutamente memorável que anula qualquer desconfiança quanto ao resultado. Vale mesmo a pena experimentar!
Em sentido inverso, a Torta de laranja húmida (a receita algarvia feita com as laranjas da estação) deixou um pouco mais a desejar, pois o shot de sumo de laranja que a acompanha não invalida o facto de as fatias se apresentarem, desfeiteando o nome do prato, um pouco para o seco.
Se estas sobremesas não agradarem, não se preocupem: há outras mais, e bem atrativas, para terminarem a refeição da melhor forma, pois têm à disposição várias tentações doces. Podem escolher a Mousse de chocolate negro feita com 70% cacau, ou as Farófias leves e volumosas com creme de ovos. Se preferirem sabores tradicionais, encontram a Sericaia com ameixa de Elvas, que traz a herança da doçaria conventual, a Tarte folhada de maçã com gelado de baunilha, ou o Leite creme tradicional queimado no momento com crosta caramelizada. Para opções mais frescas, têm ainda os Gelados caseiros de bola preparados com fruta fresca e leite gordo, ou a Salada de fruta da época.
Por fim, o aspeto mais desafiante para o futuro deste renovado espaço passa por conseguir equilibrar o respeito pela tradição com as preocupações de uma alimentação mais saudável. Os molhos, o óleo e as gorduras são elementos que a literacia nutricional nos ensinou a afastar do menu diário por não se encaixarem nos requisitos de um perfil saudável. Aliás, esta presença nota-se particularmente através do oleogustus (a expressão não é nossa, implementou-se a partir de artigo científicos), ou seja, a presença de uma certa sensação gustativa e tátil associada aos ácidos gordos – exatamente onde seria de esperar, como no polme dos filetes de corvina e nos peixinhos da horta.
Trata-se de um ponto que pode ser atenuado na confeção sem que se perca o sabor incrível que estes pratos realmente têm, razão pela qual continuam a ser irresistivelmente tentadores e merecem, sem dúvida, ser degustados.
