Neko Case e as raízes do country no Cinema São Jorge

por João Cunha

No passado dia 19 de Junho, Neko Case deu-nos o prazer da sua visita, na senda da atual tourné, a propósito da apresentação do último álbum. Na sala com o nome do falecido cineasta Manoel de Oliveira, deu-se um concerto extremamente intimista – contou-nos Neko Case que o resto da banda não veio por falta de dinheiro para tal -, mas, ainda assim, eficaz.

A introdução deu-se tal como no álbum: “Hell-On”, título homónimo do álbum, serve de entrada ao que será um bom concerto. Estando acompanhada apenas por mais três músicos (e sem secção de percurssão!) antecipa-se, desde logo, uma expectável mudança nas canções apresentadas. Despidas é, naturalmente, o melhor termo para as descrever. Apesar disso, é na voz de Neko Case que reside toda a alma sôfrega e intensa de cada uma das suas composições.

A diferença adensa-se com “Man”, tema rebuscado ao álbum anterior The Worse Things Get, the Harder I Fight, the Harder I Fight, the More I Love You. O galopante tema rockeiro é mostrado em versão light acústico. Giro, mas não cativou o público da sala, que estava minimamente composta.

“Deep Red Balls” vai ainda mais longe na (já) considerável obra da artista – tema inserido no álbum Blacklisted, de 2002 – e na singela apresentação, onde sobressaem as origens country, e regressa-se ao prato principal com “Bad Luck”, um dos singles do último álbum.

Ainda só tinham passado cinco canções e o ambiente proporcionado por Neko Case já nos tinha aquecido, culpa, sem dúvida, da voz da mesma. Foi impressionante ouvir uma voz que, à falta de uma instrumentação mais completa, suplanta qualquer expetativa. Uma nova memória, desta feita ao excelente álbum Fox Confessor Brings the Flood (2006), a (adequada à leveza instrumental) “Margaret vs. Pauline” embala-nos até “Last Lion of Albion”, outro single do último álbum, outra canção despida, outra boa performance de Neko Case.

A próxima canção é-nos introduzida com um “we haven’t played this in a while”: “Favorite”, de The Tigers Have Spoken (2004), foi um perfeito exemplo de sinergia entre os músicos e um dos melhores momentos da noite. “Calling Cards” entra de seguida, mais lenta, numa ótima versão, mas que não convence os presentes. Voltamos a Blacklisted com “Lady Pilot”; talvez os temas que melhor se enquadradram neste quarteto terão sido os deste álbum. Um exemplo disso foi “Middle Cyclone”, que se seguiu.

“Oracle of the Maritimes” foi um perfeito exemplo da pobreza instrumental. Todo o dramatismo da canção desapareceu, tornando-se uma melodia sensaborona. Neko Case vai percorrendo a sua obra, alternando-a com temas de Hell-On, “Hex” de The Tigers Have Spoken precede “Halls of Sarah” e “Maybe Sparrow”, uma das obras maiores de Fox Confessor Brings the Flood, antecede a “Winnie”, outro bom momento do último álbum.

O resto da noite foi pautaudo por obras antigas: “The Pharoahs”, “The Teenage Feeling” e “I Wish I Was The Moon” numa grande sequência, com “Loretta” já a fechar o encore.

Foi bem bom. But we wanted more.

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