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Mulatu Astatke: Sons de Cristal

Mulatu Astatke surge no Capitólio poucos minutos depois das 21h30 à frente de uma banda de sete elementos com o seu ar de avô simpático – a sala muito composta recebe-o alegremente. Estamos a jogar em casa, com um público com uma feliz mistura de várias gerações.

Com uma breve apresentação do trompetista e algumas palavras de agradecimento do Mestre, breve cortesia que, felizmente, se mantém durante todo o concerto dada a dificuldade em entender as palavras ditas do palco, começa o concerto da mui competente máquina de Mulatu Astatke.

Com um conjunto de instrumentos diversos, tais como trompete, saxofone, piano violoncelo, contrabaixo, bateria e bongos, para além do vibrafone do mestre do Ethio-Jazz, as músicas vão passando de forma eficiente e bem recebida pelo auditório.

Afinal quem está presente sabe bem ao que veio: Os sons da lendária terra do Prestes João, venerados como os mais puros de África dada a história de resistência da Etiópia face às tentativas de controlo estrangeiro, misturados de forma harmoniosa com a mistura de instrumentos de diversas tradições musicais, com o jazz a ser a denominador commumente usado, mas curto para descrever a liberdade controlada que é definida nesta obra de décadas.

Assim, a arquitetura escura e austera da sala vai ganhando calor, apesar do movimento na metade de trás de quem vai falando com os amigos ou se dirige aos bares do Capitólio – seguramente que o ambiente do Theatro Circo vai garantir que no Minho o nível de solenidade seja outra. Por isso mesmo, músicas mais cheias de ritmo como “West Africa Meets East Africa” ganham com o balanço dos espectadores em pé, enquanto que momentos como “Motherland” saem a perder em termos de solenidade.

Não obstante, a agilidade com que o alinhamento vai discorrendo deixa todos agradados, e, de forma sábia, Mulatu vai distribuindo destaque pelos vários instrumentistas, da esquerda para a direita: no início com o trompete e saxofone em destaque e, progressivamente, com piano, violoncelo e contrabaixo em lugar de destaque, pelo que as sonoridades da Etiópia ganham diferentes camadas.

Embora a suavidade do vibrofone passe num ambiente em que as suas subtilezas passam de forma disfarçada, o som etéreo, apesar da boa acústica da sala, perde-se no ruído de fundo. Mas Mulatu Astatke não se fixa aí e utiliza as congas e bongos de forma igualmente capaz, garantindo um ritmo alegre e contagiante para o óbvio ululante.

A veneração pelo mestre continua ao longo das perto de duas horas, com a sensação de se estar a assistir a uma das grandes figuras a nunca abandonar o auditório e com os ritmos a passar de forma escorreita. O respeito é bonito e conquista-se, e está aqui garantido pela força tranquila do mestre.

Quando se anuncia a última música, sabe-se que é mesmo a última. Não há teatro, as coisas são como o mestre dizem que são. A celebração é generosa e tem horas marcadas, assim, de forma rigorosa. A despedida é alegre e sincera.

Ninguém vai ao engano, e ninguém é enganado. Ainda bem que assim é. Reconfortantemente direto.

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