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Mrs. Fletcher, a milf de que não estavas à espera

Suponho que a Milf seja uma figura recorrente no imaginário de alguns jovens. Suponho também que esta seja idealizada enquanto uma mulher mais velha e atraente que sabe falar sobre as ideias de Sartre e comportar-se de forma confiante e determinada. Calculo ainda que o interesse por esta figura surja principalmente durante a transição de “rapaz” para “homem”. E a questão que levanto, meus caros, é a seguinte: Porque raios é que uma mulher assim estaria interessada em passar o tempo dela convosco?

A verdade é que esta mulher não está interessada. Quem pode estar interessada é uma mulher mais velha, igualmente inteligente, que está a passar por uma descoberta qualquer. Uma mulher que se apercebeu que ainda não viveu o suficiente, que ainda não se descobriu o suficiente. Uma mulher que, possivelmente, e infelizmente, ainda se sente desconfortável com ela própria. Pelo menos, esta é a Mrs. Fletcher (Kathryn Hahn).

Nos primeiros dois episódios, a personagem até me deixava desconfortável. Existe uma certa ansiedade e angústia nela que são inquietantes para quem vê de fora. Às vezes, transmite a sensação de que alguém a fechou dentro do corpo dela, não sabendo como escapar de si mesma. Tudo nela é um pouco constrangedor. 

Mas não é só ela. Quase todas as personagens de destaque estão a passar por uma fase assim. Todas parecem estar a lidar com a realidade de quem são e dos ajustes que têm que fazer face aos novos contextos a que foram expostas. O filho da Mrs. Fletcher (Jackson White) é um exemplo disso. Também ele está a redescobrir-se, mas, ao contrário da mãe, ele não se está a redescobrir através dos seus próprios olhos, mas sim através dos julgamentos dos outros. 

Outrora o miúdo fixe da secundária, ele passa a ser um miúdo quase que indesejado na universidade. Os ideais que o movem são vistos como superficiais e desinteressantes – ele não é estranho o suficiente para ser aceite. Ele torna-se “ básico”. ( Quem está familiarizado com a cultura americana, perceberá a conotação que este termo tem. Quem não está, o meu conselho é que não perca tempo com isso porque o termo é pretensioso e preconceituoso.) 

A série parece-me realista em determinada medida. Digo “parece-me” porque não tenho quarenta anos e, por isso, não sei como é estar nessa fase da vida, mas dado aquilo que vejo e ouço acerca do assunto, acho que se assemelha à realidade. Quanto à personagem do filho, já não tenho tanta certeza. Contudo, tal pode advir das diferenças culturais entre as experiências universitárias da Europa e as dos Estados Unidos.

Honestamente, acho que, em Portugal, o filho da Mrs. Fletcher seria um gajo que idolatra as praxes e anda há dez anos a fazer o curso porque tem a maturidade e a motivação de uma uva passa enrugada. Ou seja, não teria quaisquer problemas em integrar-se, mas sim a desapegar-se.

Mas voltando à mãe dele, a profissão dela foi uma escolha interessante porque o facto dela trabalhar com idosos é um elemento enriquecedor para a série. Houve até uma personagem que me fez pensar sobre a velhice. E não me estou a referir às rugas ou a essas tretas superficiais que no final do dia são insignificantes. Refiro-me, sim, à fragilidade da velhice. Uma das coisas mais assustadoras para mim é pensar que um dia poderei não ser capaz de limpar o meu próprio rabo. Sei que isto pode parecer uma coisa caricata, mas conseguem imaginar a posição indefesa e vulnerável duma pessoa assim? 

Alguém que não é capaz de executar um ato tão mundano e quotidiano como este, é alguém que se torna refém da vontade e da disposição dos outros e isso é uma posição terrível para se estar. 

Embora a personagem em questão não estivesse a passar exatamente por isto, ele também estava à mercê dos outros. O pior é que a fragilidade dele revelava-se duma forma inconveniente para a sociedade. E quando alguém se impõe como uma espécie de ameaça às normas sociais, esse alguém é excomungado para as margens. E não é que isto seja propriamente injusto, até porque é uma forma de proteger a comunidade, mas, ainda assim, é triste. A verdade é que não há espaço para todos ou pelo menos não existe espaço para acomodar toda a gente da mesma maneira. 

Em última análise, a série Mrs. Fletcher esforça-se para retratar as fases de adaptação pelas quais as pessoas passam, mas ainda não decidi se faz um bom trabalho ou não. Ou talvez a verdade seja outra – se calhar, não estou assim tão interessada em acompanhar o despertar sexual duma mulher na casa dos quarenta e também não quero saber das escolhas que o filho idiota dela vai fazer. Portanto, a escolha como sempre é vossa. Já sabem do que a série trata, agora ajam em conformidade.

Mrs. Fletcher está disponível na HBO Portugal.

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