Crítica – The Feast (MOTELX)

Uma premissa forte, boa atuação e boa cinematografia, mas uma história pouco coerente tornam o filme desequilibrado.

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Sinopse: “Uma família reúne-se na sua luxuosa e contemporânea casa feita de vidro e aço nas montanhas galesas. A matriarca está a oferecer um jantar com o seu marido político em nome de um empresário que espera comprar terras na área para mineração. Os dois filhos adultos da família são relutantes convidados do jantar. Os valores e crenças da família são desafiados pela chegada de Cadi, uma jovem que eles contrataram para servir como criada durante a noite. A sua presença cresce em força e o comportamento da família torna-se cada vez mais extremo. Apesar de estar enraizado em folclore gaélico, os temas de “The Feast” são universais e contemporâneos – família e história, ganância e responsabilidade, identidade e diferença – e versam a urgência ambiental de uma forma que só um filme de terror pode ambicionar.”

Texto de: Filipe Santos

Um trabalhador numa operação de extração mineral no meio do campo sucumbe a uma condição inexplicável que parece ser provocada por algo debaixo da terra. Assim começa esta comédia de costumes e conto de terror ecológico, que nos leva numa jornada perturbadora, mas que eventualmente desaponta.

O cenário do filme é uma casa moderna isolada num cenário bucólico do País de Gales. Esta é a casa de férias e herança de família de um político corrupto e a sua família complicada, cada um dos membros, marido, mulher e dois filhos, danificados emocionalmente ao ponto de serem prejudiciais uns para os outros e para o mundo à volta. No seio deste ambiente familiar disfuncional, que se tenta esconder por trás de uma fachada de família perfeita, organiza-se um jantar luxuoso para convencer uma agricultora local a deixar o seu terreno ser explorado por um empresário sem escrúpulos. Mal sabem eles que Cadi, a estranha e quieta empregada contratada para ajudar no jantar, está ali para impedir que esse negócio se realize. Antes da noite terminar, Cadi irá provocar uma devastação impiedosa desta família e daquilo que representam. Não se deve brincar com a mãe natureza.

The Feast é a primeira longa metragem de Lee Haven Jones, um realizador com uma longa carreira em televisão que, com este salto para o grande ecrã, mostra talento para os thrillers minimalistas europeus, como Raw ou Dogtooth. Infelizmente, a riqueza visual e o tema não são suficientes para perdoar a história previsível, uma protagonista sem lógica e o desfecho pouco original.

O elemento em que o filme realmente tem sucesso é na satira. Desde um político egocêntrico e corrupto, a uma mãe narcisista, um filho toxicodependente e outro um pervertido sexual, estes novos ricos afastam-se tanto das suas origens e de uma noção de humanidade a ponto de se tornarem tóxicos para a própria terra natal.

Acompanhamo-los pelos olhos de Cadi ao longo do dia e percebemos os traumas que os consomem, chegando mesmo a sentir empatia por eles. Há um momento de particular emoção em que Glenda, a matriarca, interpretada pela excelente Nia Roberts, confessa com muita pena que, nesta casa remodelada, as lembranças da família já não têm lugar. A questão é: para quê estar a permitir-nos sentir empatia por estas pessoas se o filme não lhes oferece possibilidade de redenção?

Essa é uma abordagem sádica e perturbadora, niilista, que funciona em termos de provocar um efeito no público, mas não faz sentido na estrutura da narrativa. No final, quando toda a família sucumbe à vingança de Cadi, apercebemo-nos que estamos a ver apenas um exercício de sadismo sem justificação plausível. Porque ela mata indiscriminadamente, a moralidade de Cadi acaba por ser tão corrupta como a das suas vítimas. O filme é um exercício em tragédia, mas não oferece nada de novo ou substancial.

Mas não há como negar a qualidade da cinematografia, excelente atuação e um cenário intrigante, tudo elementos para o filme funcionar como um excelente exemplo de eco terror.

No entanto, o guião está demasiado dependente da misteriosa criada, interpretada com uma presença e confiança desconcertantes por Annes Elwy, mas que se comporta sem uma lógica coerente. Claramente ela está ali para punir estas pessoas, impedindo-os de prejudicar ainda mais os terrenos férteis naquela região, e tem poder para os destruir a qualquer momento. Então porque é que em vários pontos do filme ela afeiçoa-se a eles, demonstra empatia e tenta aproximar-se das suas vítimas, age até com surpresa quando alguns são feridos pelo castigo que ela própria provocou?

Sente-se que o guião depende demasiado de momentos insólitos e perturbadores, mas não tem uma lógica coerente a unir essas situações e as consequências que cada personagem deve sofrer. Como entidade ancestral que está ali para proteger a terra, nunca há uma justificação para Cadi se envolver emocionalmente com esta família ou tentar ajudá-los, e no entanto é isso que ela faz em certos pontos, apenas para mudar de ideias e os aniquilar friamente.

A certa altura, um dos filhos é punido de forma particularmente severa durante uma cena de sexo. Em todos os elementos superficiais, de espetáculo, é uma cena muito forte. Mas quando pensamos no porquê desta situação, a justificação é muito vaga e apresentada tão tarde que não é o suficiente para ver isto como algo mais que violência gráfica. O filme prometia uma história melhor do que um enredo de slasher com uma camada de cinema alternativo de género.

Isso é outro dos problemas que o filme apresenta, parece ter vergonha de se assumir como filme de género. Os elementos fantásticos estão tão remetidos para debaixo do tapete que parecem uma lembrança. Destaca-se o mistério por trás desta força elementar que ataca a família. A justificação é explicada de forma tão superficial, e tão tarde, que parece que o guionista se lembrou a certa altura que tinha que justificar a missão de Cadi naquele cenário.

A conclusão não é tão bombástica ou inesperada que resulte, e quando o filme termina, questionamo-nos porque se arrastou durante tanto tempo o inevitável. Uma premissa forte, boa atuação e boa cinematografia, mas uma história pouco coerente tornam o filme desequilibrado. É ambicioso e tem tudo para funcionar, mas algures a meio, perdeu-se algo na tradução da página para o ecrã.

É uma pena, porque o potencial está lá, mas tal como as vítimas do filme, The Feast merecia um desfecho melhor.

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