Crítica – In the Earth (MOTELX)

Não é um filme que surpreenda na sua estrutura, mas é cativante e prende-nos durante todo a jornada.

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Sinopse: “Enquanto o mundo busca a cura para um vírus devastador, um cientista e uma guarda-florestal aventuram-se nas profundezas da floresta para um exercício de teste de equipamento. Durante a noite, um simples exercício rotineiro vai tornar-se numa viagem aterrorizante através do coração das trevas, com a floresta a ganhar vida. O realizador e argumentista Ben Wheatley (“Kill List”, “High-Rise”) combina ficção científica, terror e o sobrenatural numa história de loucura, malevolência e (muitos) cogumelos.”

Texto de: Filipe Santos

O que poderia ser uma simples viagem de rotina numa reserva natural de Inglaterra, torna-se um pesadelo para os nossos protagonistas, Martin, um pesquisador, e Alma, a sua guia. Há lendas sobre a floresta, sobre um espírito ancestral que por lá deambula, sobre um monólito estranho cuja origem é desconhecida e sobre uma maldade insidiosa que está disposta a sacrificar tudo, até vidas humanas, para alcançar novos planos de existência.

Ben Wheatley, um dos melhores realizadores de género da atualidade, com clássicos como Kill List, Sightseers e Freefire no seu cunho, fez a única coisa que é esperado de um realizador durante um período de isolamento e quarentena: escreveu, produziu e realizou um filme de terror durante a pandemia de Covid-19.

In the Earth conta a história de Martin e Alma, ele um pesquisador de flora, fungos e raízes, ela uma guia florestal, que se aventuram para o meio de uma floresta que abriga um complexo sistema biológico por baixo do solo, que pode ser uma nova forma de vida inteligente. Ao longo da caminhada, descobrem os restos de outros acampamentos e indícios de pessoas desaparecidas. Quando Martin fica ferido no pé e o duo é acolhido por um estranho eremita, Zach, uma simples viagem de trabalho torna-se num pesadelo. Em breve, Martin e Alma vão deparar-se com uma descoberta científica incrível, mas assustadora.

Um filme de terror ecológico, contido, simples, que demonstra mais uma vez que Ben Wheatley é capaz de produzir excelentes resultados com poucos recursos. In the Earth é tanto um ensaio sobre o isolamento e o perigo de se sacrificar a humanidade em nome da ciência, como um retorno do talentoso realizador ao chamado terror psicadélico desde A Field in England, de 2013.

Sendo um realizador capaz de extrair grandes atuações dos seus atores, este filme não é exceção. Todos brilham, seja como pessoas com quem temos toda a empatia, ou como pessoas que percebemos, instintivamente, que estão para além da racionalidade. Entre os presentes, Reece Shearsmith destaca-se entre os seus pares, como o instável e estranhamente compreensível eremita demente, Zach.

O filme não é muito complexo em termos de narrativa. Os nossos heróis perdem-se na sua busca, caem nas mãos de um louco psicopata e vêm a descobrir que algo mais estranho, uma outra forma de vida, pode estar a influenciar o comportamento dos seres humanos nesta floresta. Estará essa forma de vida a tentar escravizar e consumir o ser humano, ou simplesmente a tentar comunicar connosco para que possamos coabitar em paz?

Este é um filme de terror que vai buscar as suas influências ao horror britânico dos anos 70, com uma estética que se apoia muito nos filmes dessa época, dependente dos tons sépia, mostrando atrocidades cometidas por humanos influenciados por esquemas cósmicos, e lançando críticas à sociedade atual e à quebra nos valores morais. A certa altura, quando os nossos heróis escapam do seu raptor e encontram refúgio na personagem da Dra Olivia, a responsável pelas experiências realizadas na floresta, percebemos que o verdadeiro perigo pode originar não desta forma de vida estranha, mas das mentes retorcidas dos próprios humanos.

Quando o filme termina, poderão questionar-se sobre a intenção da apelidada “mycorrhiza”, a tal consciência vegetal que vive debaixo do solo de Inglaterra. Esse é o propósito do realizador – ele mostra-nos que a culpa dos eventos cai toda sobre os ombros dos nossos protagonistas. Homens e mulheres que são afetados por essa esfera estranha e psicadélica. No fundo, In the Earth mostra que a corrupção de uma mente humana só será possível se a mesma estiver aberta a isso.

Do ponto de vista visual, este é um dos filmes mais contidos e sóbrios de Wheatley, mas o realizador está no domínio das suas capacidades, aproveitando ao máximo os cenários envolventes da floresta e ao utilizar uma mistura de técnicas visuais e uma direção de som intrusiva para criar sequências alucinogénicas que induzem uma verdadeira viagem psicotrópica.

in the earth motelx critica echo boomer 2

Do lado do terror, aqui o filme cinge-se ao horror de ações bem-intencionadas, mas distorcidas pelo fanatismo, e há um lado de comentário ao isolamento da nossa pandemia atual, como fonte de distúrbios comportamentais e sociais. O que é que acaba por levar ao rapto, tortura e homicídio de pessoas inocentes: uma planta milenar que vive debaixo da terra e comunica através de vibrações sonoras, ou a angústia e medo provocado pelo isolamento?

Não é um filme de sustos fáceis e superficiais. Vive antes de uma tensão sempre à superfície, com uma ideia de fatalismo muito presente. Os nossos heróis estão numa situação da qual não podem escapar sem enfrentar o horror que os cerca. Destaca-se o ponto do filme em que o acampamento dos nossos protagonistas é cercado por um nevoeiro capaz de enlouquecer as pessoas, mas através do qual é necessário passar se quiserem procurar ajuda. Este é o mais lovecraftiano dos filmes de Wheatley.

Quanto à violência e horror, sentimos que estamos a ver cenas do mundo real, com momentos tão explícitos, mas simples, que ficamos sem palavras. De destacar uma cena em particular que envolve uma operação de amputação. Esta é talvez a cena mais horrenda do filme, não só pelo seu grafismo, mas pela frieza e naturalidade com que ocorre.

Claro que, conhecendo o trabalho de Wheatley, o filme não seria o mesmo sem associarmos ao terror momentos de comédia. Destaco um momento no clímax em que Alma e Zach enfrentam-se com resultados, digamos, comicamente fatalistas.

Talvez seja um filme com uma estrutura muito simples para alguns. Talvez haja um recurso muito recorrente a sequências alucinogénicas, mas dentro do contexto de uma pandemia que limitou tanta produção cinematográfica, este é, sem dúvida, um exemplo de como as circunstâncias oferecem oportunidades para criar trabalhos únicos.

Não é um filme que surpreenda na sua estrutura, mas é cativante e prende-nos durante todo a jornada, como uma viagem psicadélica que não sabemos como vai terminar, mas na qual vale a pena embarcar.

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