Crítica – Cross the Line (MOTELX)

Cross the Line até pode ter uma ideia interessante… mas o enredo em si não é.

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Sinopse: “Exibida numa sessão especial do 53.º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Sitges, a segunda longa-metragem de David Victori deixou o público completamente estonteado com uma overdose de stress, emoções fortes e dúvidas morais. Dani, cidadão exemplar e cumpridor das regras, dedicou os últimos anos a cuidar do pai doente. Depois do pai falecer, decide que é hora de alinhar a própria vida e compra um bilhete para começar uma viagem pelo mundo. Antes de iniciar a sua jornada pessoal, conhece Mila e o que começa como uma noite descontraída e de aventura, transforma-se no seu pior pesadelo, levando-o para uma espiral de violência, drogas, sexo… e morte.”

Texto de: Filipe Santos

Quando vemos o herói de um filme a tentar salvar a vida do homem que o tentou matar, e a namorada deste decide atirar-se da janela para tramar o nosso herói perante a polícia, sabemos que estamos em perigo de ver um filme absurdo. Este é Cross the Line, um filme que merecia ser mais eficaz na forma como balança a linha entre o plausível e o ridículo.

A história é de Dani, um homem pacato, bom cidadão, bom filho, que dedicou anos a cuidar do pai moribundo, a viver uma vida recatada e sem ambições. Com a morte do pai, ele decide arriscar e realizar o seu sonho de fazer uma viagem à volta do mundo. Infelizmente, na véspera da partida, Dani cruza-se com Mila, uma jovem problemática que o seduz para uma noite de loucura e descoberta, que vai resvalar para violência e morte. No final da noite, Dani nunca mais será o mesmo, transformando-se num homem capaz de quase tudo para sobreviver.

O filme mostra-nos como o medo e a culpa podem não só toldar as nossas decisões, como transformar-nos definitivamente. O título original espanhol, No Mataras, faz mais jus ao tema do filme, a mudança que ocorre no ser humano quando é levado ao extremo. Esta é a segunda longa metragem do realizador David Victori, depois de El Pacto, de 2018, e várias curtas-metragens e trabalho em televisão, sendo um dos realizadores espanhóis emergentes no cinema de género.

Apoiando-se na atuação de Mario Casas, no papel de Dani, papel que lhe deu o galardão de melhor ator pelos prémios Goya, Victori mostra-nos um retrato que é infelizmente básico, medíocre, sobre os extremos a que uma pessoa pode chegar para garantir a sua sobrevivência. Em Cross the Line, o ato de matar muda uma pessoa, e ações que antes nunca seriam ponderadas tornam-se possibilidades. É uma pena que essas ações e conflitos nunca sejam tão originais ou realistas quanto a história merece.

A ideia é interessante, mas o enredo em si não é. O filme depende demasiado de comportamentos irreais e circunstâncias convenientes, tanto que a certa altura pensamos que estamos a ver um episódio de Looney Tunes e não uma história real sobre um homem levado ao desespero por circunstâncias extremas.

Desde o momento em que Dani cruza-se com Mila, o filme começa a seguir lentamente uma estrutura demasiado conveniente, em que muitas vezes perguntamo-nos se o comportamento que estamos a ver é o mais credível. Para um filme que tenta ser realista e visceral, isto é um problema. Dani acaba por envolver-se com Mila de forma destrutiva, sendo puxado para um conflito violento. No meio dessa altercação, ele é atacado e forçado a defender-se, acaba por ser acusado de assassinato e, percebendo as provas estão contra ele, Dani toma a decisão de fugir, o que só vai piorar a sua vida.

Nesse momento, o filme deveria passar para um nível ainda mais tenso, mostrando-nos como um homem bondoso, quando exposto a traumas, pode tornar-se um sociopata, mas os momentos de conflito são pouco originais ou credíveis na sua resolução.

O que não ajuda é que o filme depende demasiado de uma sensação de frenesim, de uma tensão realmente palpável… A realização tenta tornar as coisas mais tensas com um trabalho de câmara à mão caótico, que em vez de transparecer dinamismo e ansiedade, apenas torna o visionamento aborrecido. Além disso, os movimentos de câmara por vezes tornam a ação tão confusa que ficamos a desejar um pouco mais de clareza para podermos apreciar o drama das cenas, ou uma realização que nos mostre alguma mestria e realmente dirija a nossa atenção, em vez de nos atordoar com estímulos.

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Infelizmente, a realização depende mais do caos do que do controlo. É uma escolha propositada, mas enfraquece o filme se sabemos sempre que uma cena em que Dani está prestes a ser descoberto vai ser resolvida com ele a escapar por uma janela. Cross the Line tem potencial para conflitos inteligentes, mas estes são todos resolvidos da mesma forma, com Dani a correr, a esgueirar-se e, por vezes, a envolver-se numa cena de pancadaria desnorteada e forçada.

Outro exemplo da falta de verdadeira substância do filme é a palete de cores. Típica dos filmes da nossa época, associa a tons púrpura e rosa neon a uma ideia de ócio e perigo, mas por baixo dessa estética encontramos muito pouca substância ou um sentido temático.

Cross the Line tem falta de lógica no comportamento dos personagens e falta de realismo, mas como tem uma estrutura que vai aumentando de intensidade, a bem ou mal, o filme acaba por funcionar, como um surto de adrenalina. Se ao menos o guião não fosse tão básico…

No final, Dani está numa encruzilhada e tem que tomar uma decisão que tomar vai ditar o resto da sua vida. Este momento é realmente poderoso e credível, mas é uma pena que, até agora, o resto do filme não tenha sido assim.

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