Miguel Sabino, CEO da ThumbMedia: “Temos canais que geram uma média de 170 milhões de visualizações por mês”

por André Azevedo

O YouTube cresceu exponencialmente na última década, tendo alcançado níveis de popularidade nunca vistos, tornando-se um autêntico fenómeno. Este crescimento deveu-se muito a quem soube explorar este mercado.

A ThumbMedia, fundada por Miguel Sabino, é um desses casos. Reuniu, sob a sua alçada, vários youtubers portugueses e criou uma rede que apoia os criadores de conteúdos e lhes dá um meio de suporte e de orientação dentro do mundo que é o YouTube.

Falámos com o CEO da ThumbMedia para perceber o que são estas networks e quais as funções no YouTube. Conversámos também um pouco sobre o Artigo 13 (agora 17) e as suas medidas.

O que é a ThumbMedia?

A ThumbMedia é uma empresa que gere dentro do YouTube uma rede de canais. Basicamente temos um contrato especial com a Google e agregamos os canais dentro de uma rede. Um backoffice, se quisermos chamar assim. É onde podemos ver os vídeos que la estão, temos acesso aos Analytics dos canais e, com essa informação, podemos ajudar a crescer dentro do YouTube – a posicionarem-se, a ver o que é que funciona e não funciona, a pensar na sua estratégia dentro da plataforma.

Outra parte do que fazemos é a rentabilização do canal. A receita da publicidade que é gerada a partir das visualizações de um vídeo é canalizada e otimizada a partir da ThumbMedia, para que os canais possam receber mais pelas visualizações tendo um maior retorno. Estas são as funções base.

A ThumbMedia, quando surgiu em 2014, fazia praticamente só isto. Desde o início até agora, e com o aumento do número de canais, temos mais de 600 canais agregados connosco, gerando uma média de 170 milhões de visualizações por mês. Com este crescimento, a nossa visão e o nosso posicionamento deixou de ser só a agregação e o apoio aos canais, para passar a ser também uma área muito importante: ajudar quer os canais, quer as marcas.

No caso das marcas, ajudamos a encontrarem uma forma de aproveitar a audiência dos youtubers. No caso dos próprios youtubers, ajudamos a entender o ponto de vista das marcas e porque é que podem ser relevantes para os canais, trazendo uma fonte de receitas. Qual é o desafio? As marcas estão habituadas a trabalhar de uma forma e a comunicar de uma maneira própria quando fazem publicidade. Os youtubers têm também uma maneira própria de comunicar, que eles desenvolveram e aperfeiçoaram, e que funciona junto da sua audiência.

Muitas das vezes, o desafio está em como pegar naquilo que a marca quer e transformar na linguagem que o youtuber usa e passar para audiência de uma maneira harmoniosa e que faça sentido. Não se trata de fazer as coisas de forma a que não se perceba que é publicidade, antes pelo contrário. Nós defendemos que, quando há publicidade ou apoio à produção, que envolva um acordo ou uma remuneração ao youtuber, tem que ser obviamente revelado. Tem que estar claro quer para o youtuber, quer para a marca, quer para a audiência.

Fazer com que todo este ecossistema funcione é muito daquilo que fazemos. Trabalhamos essa parte com a Millenar, uma agência que trabalha toda a parte da comercialização de todo esse potencial publicitário que existe dentro do conteúdo. E nós trabalhamos para que as expetativas de uma e outra parte se encontrem e sejam harmoniosos, para serem entregues à audiência de uma maneira que não fere a persona e a relação que o youtuber tem com a audiência.

Uma terceira linha daquilo que nós fazemos, que é, talvez, a mais recente, é a produção de conteúdos próprios. Porque conhecemos bem o YouTube, porque conhecemos o que funciona e o que não funciona na plataforma, e porque percebemos que, no panorama do YouTube português, embora haja muita gente a fazer vídeos, há categorias que estão ainda muito pouco exploradas.

Nós estamos a desenvolver alguns projetos neste sentido. Trazer para o YouYube alguns canais ou conteúdos que ainda não são feitos em Portugal. Este é um lado importante daquilo que fazemos e, para isso acontecer, adaptámos as nossas instalações e construímos um estúdio onde estamos a produzir conteúdos e também onde podemos produzir conteúdos que não sejam nossos, que sejam encomendados por marcas. Imaginemos que uma marca pretende iniciar ou desenvolver o seu canal de YouTube, mas não sabe como é que deve estar na plataforma. Nós prestamos esse serviço.

Desenvolvemos uma estratégia de conteúdo, desenvolvemos esse formato ou alguns formatos que propomos à marca e desenvolvemos os conteúdos para que a marca possa ganhar visibilidade e uma presença que faça sentido naquilo que é o YouTube.

Como é que surgiu a gala da ThumbMedia?

Nós percebemos que uma das coisas que fazia mais falta para o ecossistema, quer dos criadores quer do seu público, era uma forma de reconhecimento. Uma consolidação do seu trabalho sob a forma de uma gala de prémios.

No entretenimento, seja globalmente, seja em Portugal, existem entregas de prémios, em que as áreas da música, televisão ou cinema recebem os seus prémios. Lá fora já há galas que premeiam os conteúdos e os criadores de conteúdo nas plataformas digitais. Em Portugal ainda ninguém o tinha feito e, no ano passado, decidimos lançar esse desafio, para que os criadores de conteúdo nesta plataforma pudessem ter esse reconhecimento e essa visibilidade.

O ano passado fizemos uma primeira experiência, mais pequena, que se realizou no salão Preto e Prata no Casino do Estoril, e que serviu para duas coisas: primeiro, para nos ajudar a perceber que faz todo o sentido, além de fazer muita falta; e para perceber qual seria o acolhimento que este evento teria perante a comunidade.

Thumb Media Play Awards

Realmente, a adesão foi ótima, e, embora tenha sido um evento mais pequeno, correu muito bem. Decidimos então este ano aumentar a fasquia. Convidámos alguns parceiros para nos ajudar a fazer isto. A RTP assumiu toda a parte da transmissão televisiva, em direto para o RTP Play, a plataforma digital da RTP, e também para o canal de YouTube.

O evento vai ser transmitido no dia 24 a partir das 19h, em direto no RTP Play e no canal de YouTube da RTP. Irá também ser transmitido em diferido no próximo fim de semana. Isto ajuda-nos a perceber que o conceito é válido, apoia aquilo que nós entendemos como um evento relevante. E prova disso é que a RTP se quis juntar a nós e assegurar toda a parte da transmissão. Tem sido extraordinária a forma como eles estão a trabalhar e a fazer com que esta transmissão seja um sucesso.

A ThumbMedia trabalha apenas com criadores da plataforma Youtube ou também com criadores de outras plataformas?

Nós trabalhamos especialmente com youtubers, devido à relação inicial e forte que temos com o YouTube. Temos acesso à plataforma nos bastidores, digamos assim, ou seja, estamos lado a lado com as pessoas da plataforma, o que é ótimo, e essa é a nossa mais valia. Já tivemos algumas reuniões com a Twitch. É uma área para a qual estamos a olhar com muita atenção, até porque com a Twitch tem todo o fenómeno que é os E-Sports, e toda a dinâmica que daí resulta. O Youtube é uma grande plataforma de livestream, mas é óbvio que a Twitch tem uma palavra a dizer nessa dimensão.

Tudo o que seja conteúdos digitais nós estamos ligados ou vamos estar ligados a curto prazo. Passará necessariamente pela Twitch, passará necessariamente pelo Instagram, pelo Facebook Watch e por todas as plataformas digitais que se estão a posicionar em relação ao vídeo, e, em particular, ao vídeo em direto como muito relevante em relação ao que estão a fazer. Como na nossa essência somos vídeo e conteúdo de vídeo para plataformas digitais, vamo-nos aproximando de todas essas plataformas.

Quais vão ser as galerias premiadas na gala?

Este ano temos 12 categorias as concurso. 11 que já foram reveladas e uma categoria mistério que só vai ser revelada durante a gala e cujas votações serão feitas em direto pelo público. Temos a categoria Revelação, o canal do ano, a música do ano, tecnologia, humor, entretenimento, live stream, moda beleza e lifestyle, gaming e mais algumas.

Quais são os critérios para a escolha dos premiados?

Nós este ano quisemos abrir o leque de canais. Desde que sejam canais portugueses com mais de 20 mil subscritores e com mais de 4 mil horas de visualização nos últimos 12 meses, podem ser eleitos. Em primeiro lugar, pedimos aos youtubers que, dentro destas categorias, escolhessem quais os canais merecedores de ganhar o prémio. Depois, com base nessas sugestões da comunidade, convidámos um júri independente e apresentámos os 10 mais nomeados pelos pares. E o júri escolheu.

A partir daqui, o processo foi devolvido ao público. Disponibilizámos ao público uma votação e contratámos uma empresa específica para gerir essas votações. Mas para não vencerem os prémios somente os youtubers que tiverem mais seguidores, os votos do público têm um peso, mas os votos dos pares são os que têm mais peso. Desta maneira, o vencedor dos votos do público não é necessariamente o vencedor da categoria.

Como é que vêm as medidas propostas no Artigo 13 (agora 17)?

Quando se tornou tudo muito público, resultando do vídeo que o Wuant publicou E que lançou o debate público em Portugal, o que procurámos fazer de imediato foi informar as pessoas. Pareceu-nos que houve muita desinformação.

Primeiro não se sabia bem o que era, depois apareceu muita gente do lado dos youtubers e muita gente do lado da Comissão Europeia. Percebemos que havia muita disparidade. Fizemos uma conferência nos cinemas NOS do Alvaláxia e convidámos especialistas de direito comunitário e a próprio Google. Convidámos uma associação de direitos digitais que tem falado muito no assunto e procurámos informar as pessoas: Esta é a questão, este é o risco que está associado ao problema e o que é que nós podemos fazer em relação a isso.

Isto dinamizou os youtubers a publicar uma carta aberta, em formato de vídeo, disponível no Youtube, a explicar a posição deles e quais os riscos que sentiam no processo. Explicaram o que é que eles sugeriam como melhorias ou alternativas ao que estava a ser proposto na altura.

O que estava proposto no texto do Artigo 13, na altura, estava a colocar uma responsabilidade do lado das plataformas com a qual elas não tinham capacidade tecnológica para lidar. E o risco que se estava a correr, daí o título do video do Wuant, “O meu canal vai ser apagado”, mais ou menos sensacional, era exatamente este.

A Google transmitiu a ideia que iria ser responsabilizada pelo conteúdo que os criadores publicavam e que não havia forma de tecnologicamente não o permitir. Ou removia o conteúdo que causasse dúvidas sobre se era, ou não, legal, ou então retiravam-se da UE.

Esta opção seria das últimas a ser tomadas, mas estava sobre a mesa e isto preocupava-nos. Esta medida de colocar a responsabilidade inteira na plataforma parece-nos incorreta. A plataforma tem uma quota-parte de responsabilidade, mas são os criadores que devem ser responsabilizados pelo conteúdo que criam.

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