Mercury Rev – A redescoberta de Deserter’s Song passou pelo Lux Frágil

por Matteo Ottocento

O ano de 1998 é o de Deserter’s Song, quarto álbum da banda de Buffalo (New York), Mercury Rev. Louvado pela crítica, Deserter’s Song (V2 Records) é um álbum de difícil colocação pela transversalidade do seu estilo, em anos onde o centro de gravidade da produção musical, tanto mainstream como de vanguarda, mudava pelo Velho Continente, especificamente no Reino Unido: a diatribe dos Blur/Oasis pela liderança representativa do género Brit Pop estava no topo mediático, a cena Trip Hop trilhava nas ruas de Bristol (é o ano também de Mezzanine dos Massive Attack) e o Big Beat dos Prodigy, dos Chemical Brothers e de Fatboy Slim era já uma referência na música electrónica de meia Europa.

Ai de nós entender Deserter’s Song como uma produção anacrónica. Longe disso, é um pequeno milagre, cujas raízes afundam nos terrenos mais díspares: no folk rock de autor e no prog/kraft rock dos anos 60/70 até às experiências do alternative/noise rock americano dos 90, onde os Mercury Rev inventam um dream pop evocativo, quase de orquestra, barroco, às vezes, com um propósito psicadélico, da alma frágil, mas luminosa. Poliédricos, os Mercury Rev operam uma síntese genial dos percursos musicais mais diversificados, com uma certa desenvoltura.

Após quase vinte anos exatos (o disco foi publicado a 29 de setembro de 1998), a banda de Buffalo comemorou Deserter’s Song no passado dia 27 de setembro no Lux Frágil, em Lisboa.

O conjunto instrumental escolhido é reduzido, privado de secção rítmica, e deixa-nos quase surpreendidos se pensarmos na orquestração grandiloquente deste álbum. Em detrimento de qualquer dúvida, aqui os MR acabam para fazer o máximo com o mínimo.

O piano encantador de “The Funny Bird” leva-nos às tramas de uma história onde o narrador é Jonathan Donahue, fundador da banda juntamente com o guitarrista Sean “Grasshoper” Mackiowiak. Um cavalheiro de maneiras delicadas, que conta, entre as pausas, a génese de cada faixa. A calma de” Tonite It Shows”, marcada pelos sons de um xilofone infantil e de uma harmónica, é aquela do sono de uma criança, um berço mexido ao luar. A dimensão dos Mercury Rev é sinestética: evoca imagens, contrastes, gamas cromáticas dignas de uma pintura abstracta. E Deserter’s Song, mais do que um disco, é uma revelação, construído como uma banda sonora de uma historia jamais escrita, uma epifania de fluxos imaginários.

  • Mercury Rev no Lux Frágil - Foto por Nuno Conceição
  • Mercury Rev no Lux Frágil - Foto por Nuno Conceição
  • Mercury Rev no Lux Frágil - Foto por Nuno Conceição
  • Mercury Rev no Lux Frágil - Foto por Nuno Conceição

O trabalho dos Mercury Rev é uma contínua experimentação, por isso, as faixas podem parecer, ao primeiro ouvido, difíceis de metabolizar. Esta é a observação partilhada por Donahue à plateia, antes de “I Collect Coins”, um interlúdio musical de câmara, seguido pelo art pop desnorteado de “Hudson Line”. Como surpresa, os nova-iorquinos oferecem-nos um tributo aos Pavement, banda fundamental na temporada indie rock dos 90, reinterpretando o clássico “Here”. A faixa é de 1992, um ano após o início dos Mercury Rev com Yerself Is Steam (Jungle Records, 1991), época onde Donahue e o baixista David Fridmann – terceiro fundador da banda, saído oficialmente como músico mas presente como produtor – colaboraram simultaneamente com os Flaming Lips, para demonstrar que a década musical dos anos 90 foi particularmente brilhante também no outro lado do Atlântico.

Continuamos com “Endlessly”, que, na secção de cordas e nos arpejos das guitarras, é uma síntese melódica entre uma música pastoral e uma canção de Natal, dos efeitos alienantes. Entre os intervalos, Donahue recorda uma chamada, recebida numa melancólica noite de 1996, onde dois “estranhos” ingleses, apresentados como Chemical Brothers, se confessaram admiradores da música dos MR, ficando interessados numa futura colaboração. Advém daí que a intro house é aquela do “Delta Sun Bottleneck Stomp”, na altura remixada pelo próprio duo inglês, acompanhada depois para “Goddess on a Highway”, mais clássica na estrutura verso/refrão, mas não menos sofisticada.

A abertura de “Holes” é celestial, menos “densa” do original, mas sempre sugestiva, na voz frágil do frontman e num compêndio dum serrote musical, dos ecos e das melodias abrandadas, que pode ser a banda sonora de um timelapse natural. Imagens evocativas que encontram em “Opus 40” uma correspondência, aqui revista: o que resta é uma harmonia de um piano, à moda de Lennon por assim dizer, distorcida pela abundância dos delay das guitarras, de uma flauta e pela entrada de um timbale (o único “pretensiosismo rítmico” da banda). Podia acabar aqui, mas os Mercury Rev empurram o lirismo mais acima, com a elegante “The Dark Is Rising”, a mais recente das faixas propostas, extraída do álbum All Is Dream (V2 Records, 2001).

É restritivo chamá-las faixas: os trabalhos do Mercury Rev são verdadeiras bandas sonoras; termo não usado por acaso, tendo em conta as suas participações passadas em vários projetos cinematográficos. Um concerto conciso – não superior a setenta minutos – onde a banda de Buffalo executa uma espécie de lançamento do seu álbum mais representativo, saído há já duas décadas, mas que tem ainda uma força e intensidade intemporais.


 

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