MEO Kalorama 2026, Dia 3: rock, moshpits e Deftones no Parque da Bela Vista

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Foi um belíssimo encerramento para esta edição do MEO Kalorama, que regressa em 2027, em datas ainda por confirmar.

Texto de: Maria João Cavadas

O terceiro e último dia do MEO Kalorama 2026 prometia ser o mais pesado desta edição, com o alinhamento menos eclético destes três dias, ainda que passando por vários géneros diferentes. As centenas de t-shirts de Deftones e Turnstile não deixavam espaço para dúvidas: esta era a noite mais alternativa do festival.

Foi pelas 17h que o rock psicadélico dos portugueses Travo inaugurou o palco principal neste dia e abriu caminho para normalizar os moshpits sucessivos no Parque da Bela Vista. O quarteto de Braga, que Sinking Creation (2022) e Astromorph God (2023) catapultaram para cena internacional, passando mesmo pela KEXP, tem lançamento de novo álbum, WASTELAND, marcado para dia 2 de outubro. A intensidade do seu psych-rock, de mãos dadas com o prog-rock, o seu som cru e energético e o carinho e a ligação do público foram os ingredientes para um início de noite que prometia muito salto e muita poeira.

Travo no MEO Kalorama 2026
Trevo no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

Uma hora depois, era a vez dos Pelados entrarem no palco Sagres. A banda brasileira, a tocar pela primeira vez fora do Brasil, começou a sua primeira tour internacional nesta edição do MEO Kalorama. Abriram com uma versão de “star trek: o primeiro contacto” e seguiram respeitando a ordem do seu mais recente álbum, Contato (2025): “os pelados sabem demais”, “planeta oxxo” e “enel”, interrompendo o esquema andando uns anos para trás, com “vampirinhos do amor”, de Foi Mal (2022). Encaixando-se algures entre o indie pop e o rock alternativo, o grupo destaca-se pela genuinidade e pelo humor das suas letras e instrumentais divertidos e inesperados. O tema “modrić” é exemplo disso. Dedicado, neste concerto, a Cristiano Ronaldo, foi escrito depois da derrota do Brasil contra a Croácia no mundial de futebol de 2022. Este foi um concerto com uma energia diferente do anterior, que não pedia moshpits nem crowdsurfing, mas que não destoou num alinhamento que parecia carregado de baterias energéticas e riffs de guitarras distorcidas. Como bem nos cantam, “music is supposed to be fun”. E animação não faltou. É sempre um gosto ver bandas em que todos os membros têm um papel de destaque. Ponham os olhos neste pessoal. Esperamos que regressem depressa.

Pelados no MEO Kalorama 2026
Pelados no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

O palco principal continuava a ser a casa do rock mais pesado. Os ingleses High Vis, encabeçados pelo carismático Graham Sayle, não perderam tempo: “Drop Me Out”, de Guided Tour (2024) foi a introdução de um concerto que não baixou os níveis de energia, nem quando o vocalista nos falava, apelando ao amor-próprio, pelo outro e à sobriedade, depois de o próprio ter passado por dificuldades devido a consumos que considerava excessivos. Seguiram-se “Walking Wires”, de No Sense No Feeling (2019), o seu tema mais ouvido nas plataformas de streaming, e “Talk for Hours”, de Blending (2022), cobrindo um pouco de toda a sua discografia.

High Vis no MEO Kalorama 2026
High Vis no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

Mais tarde, no mesmo palco, a eletrónica de Peaches, que poderia parecer desenquadrada num dia de metal, rock e punk, viria mostrar-nos que o público certo era aquele mesmo. Afinal, e talvez paradoxalmente, não há descontração como aquela que encontramos em concertos cuja música é mais intensa e apela aos moshpits. E talvez por isso se tenha adequado tão bem este espetáculo neste dia. Entre infinitas mudanças de roupa, com referências permanente à sexualidade, queerness (“trans rights now”, podia ler-se num dos seus maillots) e à crítica ao sistema, ninguém ficou indiferente: uns, curiosos; outros, céticos. Mas resultou. Foi um crescendo de excentricidade do início ao fim, com um presente pelo meio: Brendan Yates, vocalista de Turnstile, que viriam a atuar no mesmo palco mais tarde, juntou-se para juntos interpretarem “Fuck the Pain Away”, de The Teaches of Peaches (2002). A música para dançar tem esta forma curiosa de se conseguir encaixar mesmo de forma inesperada.

Peaches no MEO Kalorama 2026
Peaches no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

E era precisamente a tão aguardada e acarinhada banda de Baltimore, nos Estados Unidos, que estaria ali não muito depois. Após passarem pelo Primavera Sound Porto e pelo LAV em 2025, os Turnstile parecem não cansar os fãs portugueses. Foi precisamente NEVER ENOUGH, lançado em junho do ano passado, que abriu caminho a uma legião ainda mais alargada de admiradores, chegando a ganhar o Grammy de Melhor Ábum Rock em fevereiro deste ano, prémio para o qual estavam nomeados, também, os Deftones, com private music (2025). Atirando um inesperado “O corpo é que paga”, de António Variações, para a arena, permitindo um aquecimento mental e físico para todos os que sabiam o que os esperava na próxima hora de concerto, imediatamente aceleraram o ritmo com “BIRDS”, do mesmo álbum, e “Real Thing”, de Time & Space (2018). Também do último álbum, seguiram-se “I CARE” e “DULL” e não faltaram “DON’T PLAY” e o hits “MYSTERY”, “BLACKOUT” e “HOLIDAY” de GLOW ON (2021). Durante toda a edição do festival , não houve moshpit como neste concerto. E falo, também, de um moshpit emocional, cheio de amor: “Never enough love”, podíamos ler num cartaz segurado por uma criança. Choveu-nos em cima uma rajada de TURNSTILE LOVE CONNECTION, num concerto que encerrou precisamente com o tema do mesmo nome.

Turnstile no MEO Kalorama 2026
Turnstile no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

Depois dessa subida da fasquia no alinhamento de domingo, tínhamos encontro marcado com os tão ou mais aguardados Deftones. O Parque da Bela Vista estava cheio, com um mar de gente para ver a banda americana, que passou, igualmente, pelo Primavera Sound Porto em 2025. A verdade é que, como pudemos ouvir de algumas pessoas, os Deftones marcam gerações. E isso não passou despercebido. Foi com “Be Quiet and Drive (Far Away)” de Around the Fur (1997) que fizeram soar os primeiros acordes naquele que seria o último concerto desta edição do festival. O aquecimento com Turnstile era claro: a energia estava ali, a força mantinha-se, o cansaço tomava conta de poucos. Do mesmo álbum, saíram “Around the Fur” e “My Own Summer (Shove It)”, com “Lotion” a entrar mais tarde, já no encore. Chico Moreno, o frontman da banda, corria de um lado para o outro, saltava, gritava, dava tudo aquilo que podia, a par com os seus colegas no palco.

Deftones no MEO Kalorama 2026
Deftones no MEO Kalorama 2026 – Foto: João Ribeiro

Apesar do horário já tardio e depois de três dias de festival, num dia que já se revelava cansativo, e com menos energia do que no concerto que descrevemos anteriormente, sabemos que este foi o melhor concerto do festival para muitos. Cruzando praticamente toda a sua discografia, com “Feiticeira” e “Korea” de White Pony (2000), “Cherry Waves”, de Saturday Night Wrist (2006), e “Rosemary”, de Koi No Yokan (2012), a banda foi irrepreensível em termos técnicos. Contudo, sentimos alguma contenção do lado da plateia. Apesar do “descontrolo” inicial do público, com o entusiasmo pueril de quem tanto aguardou por ver a sua banda preferida, sentimos que se foi perdendo algum dinamismo ao longo do concerto. Talvez fosse o sítio onde estávamos. Talvez não. A culpa não foi da banda e a realidade é que nas filas da frente a festa não parava. Mas, mais atrás, sentia-se alguma moderação, que nem o metal conseguiu abanar. Vamos atribuí-la ao cansaço. Este foi, sem dúvida, um dos melhores concertos desta edição do MEO Kalorama.

O MEO Kalorama regressa ao Parque da Bela Vista em 2027, com datas ainda por definir.

Echo Boomer
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Conteúdo mais generalista e artigos de convidados, bem como de autores que não colaboram regularmente com o projeto.
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