Mayra Andrade – O sabor tropical de Manga aquece o Capitólio de Lisboa

Nem um mês passou da saída de Manga, o quinto álbum de Mayra Andrade, e já se vislumbra um sucesso. É um facto que a cantora cabo-verdiana é um talento consolidado. Veja-se, aliás, pelo concerto de apresentação do novo disco, marcado no dia 1 de março, que foi duplicado no dia seguinte, devido a um rápido sold out.

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Os dois concertos no Capitólio, em Lisboa, são uma etapa importante da tournée que Mayra Andrade prosseguirá, pelo menos, até julho, e abrangerá vários países entre a Europa e África. De facto, Manga, gravado em parte em Paris e, também, na Costa do Marfim, produzido por Romain Bilharz (Stromae, Feist) representa uma forma de compêndio da miscigenação musical que, desde sempre, caracteriza a artista cabo-verdiana, capaz de conciliar estilos e sonoridades que frequentemente situam a sua música dentro do horizonte, talvez genérico, da World music.

Manga é um disco estratificado que apresenta as expressões da música tradicional crioula cabo-verdiana, da qual Mayra se tornou a nova guardiã e representante, e que mistura ritmos do afrobeat com sonoridades urbanas mais contemporâneas, que soam como algo novo e não como uma simples reformulação da música materna.

As raízes são mesmo as crioulas, da morna ao funaná e ao batuque, mas o resultado é algo versátil e fresco, moldado pelo talento de Mayra Andrade, na desenvoltura da sua técnica vocal e na sua habilidade de lidar com o público. A artista cabo-verdiana, que, na sua vida, residiu em vários países (Angola, Senegal, Alemanha, Cabo Verde, França e, desde 2016, de forma estável em Lisboa), absorveu múltiplas experiências musicais (caribenha, brasileira, afro e cabo-verdiana, jazz), bem presentes nas suas produções.

O single “Afeto” é o mais representativo do estilo de Manga, nas atmosferas tropicais de um amor órfão. É o tema de abertura no Capitólio, suave e nostálgico como “Terra da saudade” (letra de Luísa Sobral), que nos conta de uma terra remota. As letras do álbum têm uma matriz lusófona comum, numa alternância entre o crioulo e o português. Canções como “Festa Santo Santiago”, “Plena” e “Vapor di Imagrason”, a última com uma dedicatória aos filhos dos imigrantes, assentam no som mais típico da produção de Mayra Andrade, mas, ao vivo, assumem uma dimensão sugestiva.

“Tan Kalakatan” (o terceiro single), cantado em crioulo cabo-verdiano, é um ótimo exemplo do que já foi referido sobre a mistura de influências, onde a voz de Mayra se presta também ao uso do autotune e a uma batida mais eletrónica, que, no Capitólio, acaba subindo a intensidade.

As faixas do novo desafio discográfico, apresentado quase inteiramente, foram ampliadas para deixar espaço às grandes qualidades de Mayra e da ótima banda, que nos convidam a dançar: primeiro com “Pull up” e com a clássica “Tunuka” e, depois, com a mais nova “Segredu”, talvez o momento de máxima calefação.

Depois dos vários agradecimentos (também ao produtor iZem presente no concerto) e apresentação da banda (Euclides Gomes na guitarra, Swaéli Mbappé no baixo, Nicholas Vella nos teclados e Tiss Rodriguez na bateria), está na hora da sensualidade da faixa homónima “Manga”, o fruto preferido da artista, que nos leva até aos trópicos, e da conhecida “Lua”, revista quase à moda de kuduro.

Dois encores. O primeiro para “Reserva pra Dois”, assinada com Branko e, obviamente, “Ilha de Santiago” em mashup com “Nha Baby”, colaboração com Nelson Freitas. O segundo é confiado à delicadeza de “Guardar Mais”, onde a cabo-verdiana é acompanhada apenas pelo guitarrista, com uma dedicação a Sara Tavares, que escreveu a letra.

Despedimo-nos com um sabor doce na boca (será o de manga?) e com o sorriso de Mayra, já aquecidos pelos primeiros sopros de verão que, no fundo, não está muito longe.

Foto de: João Machado

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