Linda Martini: a emoção também se canta em português

Ao chegar ao Lux, em Santa Apolónia, já a meros dez minutos das 23:00 e mesmo assim observar uma imensa fila para entrar, dava imediatamente a entender o quão acolhedora, para dizer o mínimo, viria a ser esta primeira noite dedicada à apresentação do novo álbum homónimo de Linda Martini – no dia seguinte repetir-se-ia no mesmo local uma segunda data também esgotada.

Os miúdos (e miúda), como ainda se pode pensar, na verdade já somam 15 anos de carreira e este é já o quinto disco de longa duração, além de três EPs e uma ou outra colaboração pontual. Não excluindo os mais novos presentes na plateia, o que por si só também demonstra o alcance do rock tocado pela banda, não deixa de ser curioso sentir alguma nostalgia por, mais década menos década, termos todos, músicos e público, crescido par a par como geração. Talvez nem todos tenham partido do mesmo panorama hardcore, mas do post-hardcore ao post-rock até ao indie rock ou rock alternativo, são várias as influências e nuances que cada um pode retirar do som da banda, que cedo ganhou corpo e cada vez mais forma a sua identidade – tal ecletismo é até palpável pelas relações diretas e indiretas a outros projetos como If Lucy Fell, PAUS, Riding Pânico, Men Eater, entre tantos outros. E, dessa maneira, é certeiro que este mais recente trabalho se tenha também agarrado ao nome da banda, como que a substanciar o cunho próprio já alcançado: consegue ser um equilíbrio do que já fora feito, entre agressividade e expansão, sem soar a ideias repetidas mas sim a uma evolução natural do que é soar a Linda Martini.

Exemplo disso é logo a música com que decidem abrir o concerto, “Semi Tédio dos Prazeres”, na sua dualidade taciturna entre as suaves notas de guitarra e o que vem a ser meio refrão quase gritado (“Lázaro diz que já foi feliz mas acordou”), e as duas que lhe seguem: “Caretano”, com o seu ritmo evocativo de At the Drive-In e desfecho a repetir o nome no título, e “Boca de Sal”, segundo single de antevisão, que mesmo com a recente familiaridade não teve recepção tímida e já se faziam ouvir uns quantos “boca de sal, eu sei que mereço; não me afogues já, quero tudo ao mesmo tempo”.

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Foto: Vera Marmelo

Por mais duas músicas interrompe-se a exploração ao último registo, e recua-se a “Panteão” (Turbo Lento, 2013), que teve a primeira explosão de palmas e se fez ecoar em vozes de uma ponta à outra, e “Belarmino Vs.” (Casa Ocupada, 2010), mais um soco preciso logo pela primeira palavra. Volta-se às novidades, com “Quase Se Fez Uma Casa” e “É Só Uma Canção”, com “Febril (Tanto Mar)” de há dois álbuns a intercalar: se já se conseguiam ouvir aqui e ali linhas de músicas de um disco que até à data ainda não tinha sido editado e estava apenas disponível em streaming, surpreendente por si só, é a gritar “tenho o sangue a ferver” que todos entram em ebulição. Mantém-se o espírito saudoso ao recuar até ao primeiríssimo EP homónimo (2005) com “Lição de Vôo nº 1”, música que o baterista Hélio Morais confessa que já não tocavam há muito tempo, para aquecer para mais duas novas amostras, “Domingo Desportivo” e “Cor de Osso”, esta última também dirigida “a todas as pessoas que passaram na nossa vida” pelo mesmo e com o refrão “já servi todos e ainda nem comi” já cantada por muitos.

“Unicórnio de Sta. Engrácia” é a primeira visita a Sirumba, de 2016, a fazer a ponte para as duas músicas finais de apresentação de Linda Martini, “Gravidade”, primeira amostra oficial – que já fazia notar grandes movimentações (e, claro, crowd surfs) comentadas pela baixista Cláudia Guerreiro e até sentidas pelo guitarrista Pedro Geraldes – e “Se Me Agiganto”, um fenomenal desfecho etéreo, tanto para o disco como para o set, que continuaria ainda assim sem ser necessário simular um pedido de encore. Se este novo álbum, por um lado, não é tão limado quanto o seu antecessor, não pensem, por outro, que a banda perdeu o seu toque punk só porque há crescentemente mais melodias vocais de André Henriques – afinal, entre Minor Threat e Fugazi perdeu-se alguma catarse?

“As Putas Dançam Slows”, do EP Marsupial (2008), e principalmente “Amor Combate”, presente no primeiro EP e no primeiro álbum Olhos de Mongol (2006), foram dos clássicos mais esperados, cantados e vividos em verdadeiro reboliço por toda a discoteca. Tempo apenas de relembrar “Putos Bons”, de volta a Sirumba, e terminar em estrondosa apoteose com “Cem Metros Sereia”, do segundo álbum: das músicas que, pela letra tão simples de apenas uma linha (“foder é perto de te amar, se eu não ficar perto”), se manteve nas gargantas de todos os presentes, em ciclo crescente até se terminar a cappella.

Para um concerto que em plena quinta-feira acaba quase à uma da manhã, fica logo pendente a sensação que o amanhã já é hoje e as horas para o novo dia se contam em minutos – mas que, como aquela ressaca em que dizemos “nunca mais bebo”, voltaríamos a embriagar-nos na música o quanto antes. E nisso, seja em que idade for, é bom voltar ao rock e poder dizer um “até já” em bom português.

Setlist

1. Semi Tédio dos Prazeres
2. Caretano
3. Boca de Sal
4. Panteão
5. Belarmino Vs.
6. Quase Se Fez Uma Casa
7. Febril (Tanto Mar)
8. É Só Uma Canção
9. Lição de Vôo Nº 1
10. Domingo Desportivo
11. Cor de Osso
12. Unicórnio de Sta. Engrácia
13. Gravidade
14. Se Me Agiganto
15. As Putas Dançam Slows
16. Amor Combate
17. Putos Bons
18. Cem Metros Sereia


 

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