O La Fiorentina trouxe a tradição da cozinha italiana a Lisboa, com uma carta clássica e uma abordagem centrada no produto.
Num momento em que Lisboa reforça a sua posição como destino gastronómico internacional, a diversidade da oferta continua a expandir-se, com a cozinha italiana a assumir um papel cada vez mais visível em diferentes zonas da cidade.
É neste contexto que surge o La Fiorentina, restaurante italiano localizado junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara, que tem vindo a afirmar-se numa das áreas mais frequentadas da capital.
A marca não é inédita. O conceito La Fiorentina nasceu no Rio de Janeiro, em 1957, onde se destacou como ponto de encontro de artistas, escritores e figuras públicas. A chegada a Lisboa recupera essa matriz, transportando-a para um cenário europeu contemporâneo, onde a restauração se cruza com dinâmicas culturais e sociais mais amplas.
O espaço foi concebido para uma experiência prolongada à mesa, com uma sala ampla e um ambiente que equilibra elementos clássicos com uma abordagem atual. Um detalhe engraçado? As paredes estão cobertas de fotografias de várias personalidades do mundo das artes, como atores, cantores e apresentadores.
Já na cozinha, o restaurante italiano em Lisboa é liderado pelo chef Armando Capocci, que passou por restaurantes em Itália – incluindo unidades distinguidas com estrela Michelin -, França e Espanha, e que na capital portuguesa desenvolve uma abordagem centrada na tradição italiana, focando-se na qualidade do produto, na sazonalidade e na execução técnica.
Para além da atividade no La Fiorentina, o chef desempenha funções como vice-presidente da Associação Portuguesa dos Cozinheiros Italianos em Portugal, reforçando a ligação do projeto à promoção e preservação da gastronomia italiana no país.
Já a nossa ida ao La Fiorentina deu-se precisamente para provarmos pratos da nova carta, e desde logo percebemos que a cozinha tem como missão recriar sabores clássicos da Itália com fidelidade, resistindo à tentação de adaptações locais que diluem a essência dos pratos originais. A dificuldade reside em reproduzir, fora do país natal, aqueles gostos familiares de há 50 anos nas costas italianas, mas, e durante um almoço onde o Echo Boomer esteve recentemente, ficou provado que tal é possível.
A Parmigiana di melanzane – ou por outras palavras, Lasanha de beringela – surgiu como primeiro antipasti. Vegetariana por natureza, constrói-se em camadas de berinjela com molho de tomate e parmigiano reggiano de 24 meses como elemento central de toda a preparação. Foi um excelente começo.
Seguiu-se a Tris di montanara, um aperitivo feito com massa de pizza sem amassar por mais de 30 horas, que se dividiu em mini pizzetas fritas: uma deles, a clássica, com tomate, manjericão e parmigiano reggiano; uma outra com creme de abóbora com milho, stracciatella da burrata e caramelizada; e a última do trio com Baccalà Mantecato (bacalhau amanteigado), típico de Veneza, com bacalhau cozinhado junto a batata e triturado até formar uma textura cremosa.
A terminar o capítulo Antipasti, ainda nos chegou a Polpette, que é como quem diz a tradicional almôndega de carne de novilho cozinhada em molho de tomate. Gostos à parte, representa o prato familiar por excelência na casa italiana, com cada família e cada restaurante a guardar a sua receita secreta. Em Veneza, as variações multiplicam-se, mas todas partilham uma raiz comum que conquista italianos e visitantes internacionais.
Seguido na viagem com os Primi Piatii, chegou-nos o Paccheri (tipo de massa em formato de tubo) all’astice, ou seja, com molho de lavagante. Com marisco desfiado, é delicado pela sua simplicidade, sem espaço para excessos.
Já os Raviolo di coda alla vaccinara con crema di pecorino são ravioli caseiros recheados com rabo de boi desfiado. Cobridos de molho branco de pecorino romano, pimenta, vinho tinto, tomate e pedaços de aipo agridoce, tivemos aqui uma dança de contrastes que diverte o paladar.
A fechar os Primi Piatii, não podia faltar outro prato clássico, Mezze maniche carbonara. Um prato romano de massa com gema de ovo, pecorino e guanciale, cuja técnica é fundamental para centrar a temperatura do ovo e alcançar a cremosidade perfeita. É daquelas propostas que não pode ser preparada com antecedência, o que reforça a ideia de frescura imediata e precisão absoluta no serviço. E, mais do que uma receita, trata-se de uma declaração de princípios sobre autenticidade culinária.
A cozinha italiana apresentada continuou com os Secondi piatti, neste caso o Baccalá di Lenise, uma versão do bacalhau inspirada em Livorno, na Toscana. O prato é acompanhado por vinho tinto da mesma região, numa combinação justificada pela composição do molho de tomate e cebola branca, que inclui a água de cozedura e o azeite usado com o bacalhau, criando uma emulsão que devolve ao peixe a gordura que muitas vezes lhe falta. Na base, há uma pistupada com azeitona taggiasca, variedade preta da Riviera italiana. A intenção foi modernizar uma receita tradicional sem perder a sua ligação à origem, valorizando a textura e o equilíbrio entre o salgado do bacalhau e a riqueza do molho.
A fechar, recebemos na mesa o Pollo farcito alla cacciatora, um peito de frango com recheio de espinafre e verduras, servido com pelo menos três ovos. A referência à designação “caçador” remete para a origem rústica da receita, mas o prato apresentado quer também preservar o lado reconfortante e quase afetivo da tradição.
No final de tudo, ainda nos deliciámos com um fantástico Tiramisu – é extremamente difícil encontrar boas versões desta sobremesa… – e com uns Cannoli que outros colegas não resistiram em levar também para casa, de tão bons que estavam.
O que emerge deste menu que provámos no La Fiorentina é uma visão bem vincada da gastronomia italiana, onde tradição e técnica caminham lado a lado. Cada prato é apresentado como resultado de escolhas precisas, seja na seleção dos ingredientes, seja na fidelidade a receitas regionais, seja no respeito pelos tempos e texturas de confeção. O retrato que fica é o de uma cozinha que recusa atalhos e que procura, prato a prato, recuperar a memória de sabores que não pertencem apenas a um país, mas a uma cultura culinária transmitida de geração em geração e aqui reinterpretada com disciplina e intenção.
Nota: as doses servidas neste almoço foram propositadamente reduzidas dada a quantidade de pratos.










