Kamasi Washington – A harmonia na diferença

Foi cheio que nem um ovo, e ainda com longa fila para entrar à hora de início, que o Lisboa ao Vivo recebeu no sábado passado (11 de maio) Kamasi Washington num estado de celebração.

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Naquele que foi (mais) um concerto da nova promotora Gig Club, a qual tem vindo a apostar na organização de espetáculos por subscrição, o calor de ananases que se fazia sentir na sala apenas fazia crescer a expetativa de receber um dos fenómenos mais interessantes do jazz dos últimos anos.

Finalmente, acompanhado de coro, duas baterias, contrabaixo, teclas e trompete, Kamasi chega ao palco e depressa o som cheio da sua banda responde ao clima que se fazia sentir da sala. Presença grande em tudo, a energia e comunhão com o público são uma constante, em particular quando se tocam temas de Heaven and Earth, o último álbum de originais, bem como do anterior The Epic, outro caso sério do popularidade, e que foi alvo de vários encómios e prémios da crítica.

Difícil de tipificar, desde logo pelas suas influências omnívoras, desde o hip-hop ao R&B e à música clássica, Kamasi Washington tem vindo a colaborar com diversos artistas, como Kendrick Lamar, John Legend, Run the Jewels ou Ibeyi, e este caleidoscópio reflete-se na variedade de estilos e de protagonismos que os diversos músicos em palco vão assumindo. Certo é que as suas notas quentes agradam à multidão.

Um elemento que acaba por levantar particular curiosidade é a paixão por bateristas de Kamasi, evidente pela presença de dois em palco, mas também pela confissão do próprio de que chegou a tocar o instrumento, embora só quando tinha três anos de idade.

Chega um dos momentos de viragem do concerto com a entrada do pai de Kamasi, Rickey Washington, o qual impôs um groove adicional, tendo-lhe sido dado espaço e tempo para os seus solos de improviso. Homem de poucos discursos, e antes de iniciar “Truth”, um épico musical em que cinco melodias coexistem ao mesmo tempo, Kamasi aproveita esta altura para trazer a sua mensagem ao público. E é sobre coexistência que no fundo o artista nos quer falar.

Pontuado regularmente por um “Te amo, Lisboa”, Kamasi procura dar enfase à celebração da diversidade, e não apenas à tolerância no sentido mais literal do termo. Afinal, não temos que gostar das mesmas coisas que os outros, de ter as mesmas opiniões, de dizer as mesmas coisas. Poucas palavras, mas com peso. Só temos que nos dar bem, cada um vivendo à nossa maneira. A música ajuda.

Foto de: Andre Henriques (ahphoto)

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