O segredo de Sintra e Colares que poucos conhecem está dentro destas garrafas

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Com produções limitadas e foco na maturação fenólica, a Infinitude Wines apresenta novas abordagens enológicas para os terroirs históricos de Sintra e Colares.

A singularidade vitivinícola da região de Sintra e do terroir histórico de Colares conheceu uma nova interpretação com a consolidação do projeto Infinitude Wines, produtor que tem vindo a redefinir fronteiras entre as castas internacionais em solos de chão rijo e o património ancestral de chão de areia.

A génese do projeto vitivinícola Infinitude remonta ao final da década de 1990, quando a família de Rodrigo Gonçalves decidiu plantar vinha na sua propriedade em Sintra, impulsionada pelo gosto pessoal do pai pelo mundo dos vinhos e pela sua convicção vincada de que o verdadeiro vinho tinha de ser tinto. Entre 1997 e 1999, a intervenção técnica coube ao enólogo Martim Avillez, que analisou detalhadamente o perfil edafoclimático local. Numa escala de caracterização térmica de regiões vitícolas que varia entre o nível um para as mais frias e o nível cinco para as mais quentes, a zona de Sintra e da proximidade de Colares situa-se rigorosamente no patamar dois. É um território marcado por manhãs invariavelmente encobertas com os nevoeiros tradicionais da serra, conhecidos como capacetes, que reduzem de forma substancial o número de dias e horas de insolação direta, mantendo as temperaturas frescas mesmo no pico do verão.

Perante estas contingências térmicas, o enólogo desaconselhou terminantemente a plantação de castas autóctones portuguesas comuns no país, como a Touriga Nacional, argumentando que a falta de calor conduziria a uvas vegetais, com excesso de agressividade herbácea e défice crónico de graduação e maturação fenólica.

A decisão inicial passou assim pela introdução de castas de matriz internacional e de ciclo mais adaptado a climas atlânticos. A escolha recaiu fundamentalmente na Pinot Noir e na Merlot para as tintas, às quais se juntaram variedades brancas como Sémillon, Chardonnay e Riesling. Esta seleção desafiou o panorama vínico regional, gerando surpresa inicial pelo facto de o projeto prescindir de castas portuguesas tradicionais num setor habituado aos lotes nacionais.

Os primeiros passos foram dados na quinta original da família, num terreno caraterizado por declives acentuados e uma encosta voltada a norte. A gestão agronómica exigiu um trabalho minucioso de viticultura: foi necessário elevar as armações de arame para os 80 centímetros de altura em relação ao solo para expor a folhagem ao escasso sol e conseguir índices mínimos de maturação. Ao mesmo tempo, os avanços nas técnicas de vinificação permitiram valorizar os perfis brancos, alterando a perceção inicial do patriarca da família.

A sensibilidade da Pinot Noir, associada às fortes oscilações climáticas anuais de Sintra, levou a uma estratégia enológica singular para garantir regularidade. Em vez de se focar em colheitas anuais com grandes discrepâncias de qualidade, o projeto passou a juntar diferentes anos de Pinot Noir no mesmo lote de adega. Dessa abordagem nasceu o vinho batizado como O Legado, cuja primeira apresentação comercial ocorreu com a colheita mista de 2017. Do ponto de vista administrativo e comercial, o produto enfrentou fortes barreiras regulamentares: por misturar anos agrícolas distintos, a lei impedia a menção de qualquer ano no rótulo e recusava o selo de Denominação de Origem Controlada (DOC) ou Indicação Geográfica (IG), catalogando-o administrativamente como simples Vinho de Mesa (VVV), sem direito a referir castas ou região de proveniência.

Apesar do desafio comercial que representava lançar uma marca sem ano, sem casta declarada e sem indicação geográfica formal, a empresa manteve o compromisso com esta identidade, transformando O Legado na espinha dorsal da sua história. A sua composição é quase exclusivamente Pinot Noir de topo, incorporando apenas 4/5% de Merlot para conceder estrutura.

Infinitude Wines

A propriedade viria a passar por uma expansão decisiva no início de 2017, numa altura em que Rodrigo Gonçalves procurava residência pessoal e encontrou, através de uma mediadora imobiliária, um terreno contíguo de três hectares e meio virado a sul. O enólogo Martim Avillez avaliou a parcela e confirmou a superioridade da sua orografia: um terreno completamente plano, abrigado e com exposição solar contínua, muito mais favorável do que a encosta a norte da quinta inicial. Concluídos os trâmites legais e as autorizações de plantação, as novas vinhas de chão rijo foram plantadas em 2018 com Pinot Noir, Merlot e brancos de seleção genética francesa de alta sanidade clonal.

A ambição de consolidar um perfil verdadeiramente regional e ligado à história vitícola local obrigou a família a procurar terra no património secular de chão de areia de Colares. O processo decorreu com visitas frequentes a localidades litorais como Fontanelas e Azenhas do Mar, procurando placas de venda e contactando proprietários antigos. O terreno finalmente adquirido apresentava desafios rigorosos: para a vinha vingar em pé-franco imune ao inseto filoxera, que não sobrevive na areia solta, é imprescindível rasgar valas profundas com retroescavadoras e baldes até atingir a camada inferior de barro fértil, situada entre os três e os cinco metros de profundidade, para que a planta encontre água e nutrientes que a areia estéril é incapaz de reter.

A plantação das varas de Ramisco e Malvasia de Colares foi realizada manualmente no fundo das valas, documentada pela equipa através de registos fotográficos que testemunham a extrema dureza do processo. Ao longo de anos sucessivos, a vinha exigiu recomposições constantes devido à perda de plantas jovens. Atualmente, a área total em produção de Colares é de apenas 12,5 hectares em toda a região, distribuída por 12/13 produtores, tendo a Infinitude recuperado cerca de um hectare, o que representa sensivelmente 10% de toda a denominação protegida.

A estruturação empresarial acelerou em 2024 com a contratação de João Lino para assumir a direção-geral e a liderança de enologia, permitindo alinhar a produção à área comercial e ao pós-venda. A arquitetura da marca ficou então definida em três eixos muito claros: o chão rijo clássico em Sintra, o chão de areia histórico em Colares e a vertente experimental denominada Indie. O limite máximo de crescimento de todo o projeto está fixado nas 40.000 garrafas por ano, sendo que o núcleo de Colares permanecerá sempre limitado a um teto restrito de 2.000 garrafas anuais entre branco e tinto.

No chão rijo mantêm-se as duas referências basilares da casa: o topo de gama O Legado, mantido em barricas de carvalho em estágio contínuo na adega e engarrafado com misturas de colheitas históricas (incluindo lotes de 2015 e 2016), apresentado com o rótulo minimalista que ostenta a assinatura pessoal do pai de Rodrigo e com preço de 39€; e o monovarietal clássico Pinot Noir, cuja edição de 2024 teve 14 meses de estágio em barricas de 500 litros – reduzindo a presença excessiva de madeira relativamente aos recipientes antigos de 225 litros – com integração de 15% da vindima de 2023 para afinar a matriz e garantir continuidade, saindo ao mercado com nova imagem e rótulo de detalhe azul a 29€.

A gama Indie, batizada a partir do conceito de independência criativa e descolada de pressões comerciais, funciona como um espaço de exploração técnica de castas e perfis alternativos. Integra referências como o Indie Semillon, originado a partir de uma colheita antecipada motivada pelo avanço da podridão na adega regional liderada pelo enólogo Francisco Figueiredo, apanhado a 10,5º e fermentado espontaneamente com leveduras indígenas, revelando notas herbáceas intensas que lembram Sauvignon Blanc; o Indie Doce, concebido como uma colheita tardia deliberada de perfil doce com 180g de açúcar residual por litro; e o Indie Pinot Noir, cuja colheita de 2025 foi apresentada ao preço de 15€.

O Indie Pinot Noir nasceu de um acidente meteorológico na vindima de 2024, ano de chuvas intensas e elevada podridão em que o risco sanitário impediu o contacto pelicular prolongado. O mosto teve apenas dois dias de maceração para reter pouca cor, sendo de imediato separado das películas e vinificado exatamente como se fosse um vinho branco, sem estágio em barrica, com engarrafamento em dezembro e lançamento na primavera seguinte com 11,5º de teor alcoólico. Esta abordagem resultou num tinto leve, fresco, fluído e vibrante, desenhado para o consumo informal e para a restauração moderna que procura vinhos gastronómicos sem peso de madeira. A produção, que arrancou com 1.500 garrafas, foi expandida para 6.000 unidades devido à procura.

O quarto elemento da gama experimental é o Indie Areia, lançado na colheita de 2024 ao preço de 33€. Trata-se de um palhete vinificado a partir de um field blend de uvas de Ramisco e Malvasia de Colares colhidas e prensadas em conjunto, resultando num perfil acobreado e rosado que as normas de certificação obrigam a rotular como tinto da Indicação Geográfica Lisboa, por a legislação da DOC Colares não contemplar a mistura de uvas brancas e tintas no mesmo produto. O lote foi vinificado sem desengace em lagar tradicional, com pisa a pé muito superficial para não extrair matéria corante excessiva, e estagiou em barricas velhas de 225 litros, totalizando uma tiragem reduzida de 400 garrafas.

Nas castas históricas de Colares, o projeto aborda a viticultura e a enologia com o objetivo de alterar o paradigma tradicional do Ramisco. Historicamente, o Ramisco era considerado um vinho intratável em jovem, com adstringência agressiva e perfil muito vegetal, exigindo por vezes uma década de envelhecimento em casco de madeira na adega antes de ir para o mercado. Esta espera prolongada gerava com frequência teores elevados de acidez volátil e toques acéticos que a adega empírica do passado tolerava, mas que o consumidor contemporâneo rejeita.

A estratégia da Infinitude foca-se na maturação fenólica na vinha sem depender da graduação alcoólica. Através de um trabalho de canópia que inclui desfolhas cirúrgicas e desponte para permitir a insolação equilibrada das folhas sem queimar os cachos, a equipa consegue uma maturação fenólica completa antes que as chuvas de outono forcem colheitas tardias ou promovam podridão. A vindima em chão de areia é antecipada face à média histórica regional, permitindo manter o nervo e a frescura marítima sem cair em graus alcoólicos desajustados ou adstringências verdes. O Infinitude Colares Ramisco, comercializado por 57,50€ a garrafa, incorpora este esforço de refinamento, preservando a identidade mineral e marítima mas assegurando consistência lote a lote sem desvios sanitários.

A evolução comercial do projeto assentou numa transição estruturada: começou sem adega própria, assumindo custos variáveis e contratando vinificações externas à Adega Regional de Colares, e caminhou para o controlo integral das etapas de vinificação, estágio e afinamento. A gama apresenta hoje uma oferta assente na versatilidade e na clareza visual, separando os vinhos em garrafas de identidade própria e posicionando-se de forma direta no canal de restauração e hotelaria.

A produção da vinha de chão de areia atinge atualmente cerca de duas toneladas de uva Malvasia, com a meta de alcançar quatro toneladas nos próximos anos, enquanto o Ramisco se mantém em volumes residuais que refletem o esforço minucioso de resgate e valorização de um património vitícola singular à escala mundial.

Hugo Faria
Hugo Faria
Licenciado em Informática de Gestão e com Mestrado em Sistemas de Informação de Gestão na Coimbra Business School, fui um dos que contribuiu, do ponto de vista tecnológico, para o nascimento do Echo Boomer. Tenho uma paixão que se divide pela tecnologia, pela música e pelos automóveis, tópicos esses que são explorados por mim em cada artigo que escrevo e publico por aqui.
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