Inaugura-se Silvo, instalação imersiva de Inês Mendes Leal, no MACAM

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Já se imaginaram a cruzar as montanhas das Canárias e ouvir o ancestral assobio de La Gomera em antenas parabólicas gigantes, numa escultura sonora viva? É assim no MACAM.

Partimos à descoberta da nova programação do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), localizado na Rua da Junqueira, em Lisboa, e fomos encontrar uma nova proposta de vanguarda: resultante de uma parceria inédita entre a Murmur e a ArtWorks, o MACAM acaba de apresentar a instalação imersiva de Inês Mendes Leal, artista multidisciplinar cujo percurso cruza o intangível, o ar, as variações térmicas e, de forma muito particular, o som.

Numa visita guiada, prévia à abertura da exposição, pelos espaços do museu e pelos bastidores de uma preparação e montagem que cada vez mais une a arte e a tecnologia, é possível perceber o trabalho hercúleo por trás da obra e de toda uma programação que cruza a escultura, a instalação e a fotografia contemporânea internacional e nacional no MACAM.

Atualmente, o MACAM acolhe propostas expositivas incontornáveis, destacando-se agora a estreia da instalação imersiva de Inês Mendes Leal que dá corpo a uma nova e ambiciosa parceria estratégica resultante da aliança entre o Museu e a Fábrica, dir-se-ia, como nascimento de um novo ciclo.

A apresentação, conduzida pela curadora Carolina Quintela, marcou o lançamento da primeira edição desta parceria, num compromisso estratégico com vigência até ao final de 2028.

O modelo do programa baseia-se em residências artísticas (integrando o programa No Entulho, pelo qual a própria Inês Mendes Leal já passou), dando aos criadores convidados acesso a ferramentas, materiais e suporte técnico para materializar peças de enorme exigência conceptual e formal.

A prová-lo está Silvo, um projeto da artista que resultou do encontro entre a física do som, antenas parabólicas e o Silbo Gomero, património imaterial da UNESCO.

Tivemos o imenso privilégio não só de recolher o testemunho de Inês Mendes Leal, em que a artista explica a génese da obra – o que introduz sempre novos fatores de interpretação (faz lembrar aqueles momentos em que temos a oportunidade de entrevistar os atores após o espetáculo) -, como também de assistir ao exigente processo de montagem, acompanhado de perto nos bastidores e que resultou numa obra imersiva que ficará em exibição durante cerca de seis meses, culminando no aniversário do museu.

A artista explicou-nos que o seu processo criativo muitas vezes arranca pela imagem visual da escultura antes de procurar a camada sonora. Ao debruçar-se sobre o conceito de murmur (associado originariamente aos sons da natureza e dos pássaros, numa era anterior às máquinas), Inês foi parar a uma das suas grandes fontes de inspiração: as linguagens assobiadas, historicamente desenvolvidas em territórios de relevo acidentado para comunicar à distância.

Esta investigação levou-a a viajar até à ilha de La Gomera, nas Canárias, para estudar o Silbo Gomero, uma língua assobiada usada por pastores que traduz o espanhol através de códigos específicos para vogais. Contudo, ao chegar a La Gomera, a artista deparou-se com uma realidade onde o silbo sobrevive sobretudo em contexto cultural, tendo sido substituído no dia a dia por redes de telecomunicação.

Foi numa curva da ilha, ao deparar-se com uma imponente estação de parabólicas num ponto alto, que tudo se encaixou: as antenas de telecomunicação eram a evolução moderna daquela necessidade ancestral de vencer o isolamento do relevo.

A peça sonora resultante, com uma duração exata de 11 minutos e 2 segundos, começa com um poema escrito pela artista e interpretado em Silvo por um habitante local. Aos poucos, essa pureza acústica (semelhante a uma onda sinusoidal matematicamente perfeita) começa a ser invadida por interferências de rádio captadas no terreno: anúncios publicitários de Tenerife misturam-se com leituras da Bíblia em inglês, sobrepondo camadas de informação caótica e fascinante.

Para transpor esta dimensão para o Grande Hall da Ala Nova do MACAM, Inês concebeu uma escultura centrada no comportamento de antenas parabólicas gémeas: a parabólica emissora dispõe de uma coluna, direciona e foca o som em linha reta a alta velocidade, dando a sensação de nos “atacar” e de ouvirmos a nossa própria voz de forma distorcida.

Já a parabólica recetora (sem coluna), fica do lado oposto, capta e reconcentra o sinal exatamente no seu centro, fechando o circuito de comunicação entre as duas extremidades.

Em Silvo, deparamo-nos pois com a transfiguração de uma tecnologia que veio implementar novas soluções onde elas eram necessárias, mas cuja descontextualização e manipulação técnica e poética erguem uma espécie de cântico perene sobre as contingências da comunicação humana e da sua memória.

Além desta estreia de peso, convém lembrar, o museu mantém em destaque duas grandes exposições temporárias. São elas a Peso-Contra-Peso (Galeria 3), com curadoria de Adelaide Ginga e curadoria adjunta de Carolina Quintela, que reúne um conjunto diversificado de obras tridimensionais da Coleção MACAM (patente até março de 2027). A proposta parte de uma reflexão profunda sobre conceitos como peso, contra-peso, tensão e transformação no espaço, desde as esculturas orgânicas em madeira de Alberto Carneiro até instalações minimalistas.

Por sua vez, Espaços Outros (Galeria 4) está integrada no programa The House of Private Collections, como mostra de fotografia da Coleção Américo Marques (Parte I, patente até 26 de outubro de 2026), inspirando-se no texto Des espaces autres, de Michel Foucault. O percurso articula paisagem, arquitetura e a figura humana, destacando nomes internacionais e nacionais de relevo, como Edgar Martins e Andres Serrano.

E mais se segue no MACAM, com novidades previstas para 5 de novembro. A programação já aponta baterias para o seu próximo grande marco: a inauguração da Parte 2 com a continuidade das exposições tridimensionais, o que trará novas leituras sobre a evolução artística dos criadores em destaque.

No âmbito da fotografia da Coleção Américo Marques, o novo núcleo explorará a temática da “linha de falha”, aprofundando o cruzamento entre a paisagem, a arquitetura e a reflexão crítica.

Lembrar, tal como já referimos noutro artigo, que o museu está integrado no MACAM Hotel, uma unidade hibrida onde cada quarto e espaço comum exibem obras originais da coleção de arte contemporânea de Armando Martins.

Dentro deste magnífico hotel podes dispor, ainda, de outras instalações, absolutamente apetecíveis: o Restaurante Contemporâneo, o MACAM Café – uma cafetaria/padaria independente, com um ambiente luminoso e descontraído -, o àCapela Live Arts & Bar e, ainda, um Rooftop Pool Bar, este exclusivo para os hóspedes do hotel mas com vista sobre o Rio Tejo.

Graça Pacheco
Graça Pacheco
Licenciada em literaturas clássicas e com um doutoramento em estudos literários, sou colaboradora e fã do Echo Boomer. Escrever, para mim, é um ofício desafiante mas também um hobby. Também adoro gastronomia, gosto de explorar novas tecnologias e sobretudo, adoro cinema e TV.
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