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Crítica – “George Best: All By Himself” – Mais uma história sobre o “Belfast Boy”

Nota: 


Na sua primeira edição, o Offside Lisboa Festival de Cinema e Bola é uma panorâmica cinematográfica dedicada inteiramente ao futebol. Realizado entre os dias 25 e 27 de maio em Lisboa, o Festival replica um formato já experimentado em outras cidades como Berlim (11mm), Nova Iorque, (Kickin & Screening), Paris (La Lucarne), Rio de Janeiro (Cinefoot) e o Offiside Fest em Barcelona. Esta edição decorreu em simultâneo com os dois de Tessalónica e Milão.

Organizado por João Tibério, Carlos Miranda e Aires Gouveia, o festival contou com a participação do ex-futebolista Nuno Gomes e do jornalista Rui Miguel Tovar. Foram apresentados filmes inéditos, entre curtas e longas-metragens, com a intenção de aproximar o cinema e a cultura desportiva e de contar uma dimensão mais verdadeira e genuína do the beautiful game (como dizem os ingleses), definido como fenómeno cultural e social, através de histórias ligadas a temáticas de diversidade, solidariedade e integração.

Para além das projeções, não faltaram algumas atividades colaterais como exposições e debates, até à organização de um mini-torneio de futebol, após o qual se assistiu à final da Champions League no dia 26 de maio, e um cine-jantar conclusivo.

O Offside Lisboa encerrou com o documentário George Best: All by himself (2016), de Daniel Gordon, dedicado à estrela caducada George Best, futebolista norte-irlandês falecido em 2005.

O que dizer sobre o Best que não tenha já sido dito? Talento puro, entrado no imaginário futebolístico como o extremo excêntrico por excelência, o filho da working class de Belfast, pilar do Manchester United do Sr. Alexander Matthew Busby, com o qual obteu a Liga dos Campeões da temporada 1967/1968 ganhando a final contra o Benfica de Eusébio. O ano era 1968, data só por si simbólica, na qual foi nomeado pela Football Writers Association como Futebolista do Ano, conseguindo também a Bola de Ouro como melhor jogador da Europa.

Além dos seus incontestáveis dotes técnicos, George Best foi o primeiro futebolista a beneficiar de uma atenção mediática sem precedentes para este desporto, considerando o período histórico. Ícone pop, apelidado de “o Quinto Beatles” pelo corte de cabelo e estilo beat, Best foi um personagem conhecido pelo seu inconformismo dentro e fora do campo de jogo e o primeiro desportista a interpretar e expressar modas e tendências juvenis da época. Publicidades, capas, nightclubes, fama, carros velozes e um grave problema de alcoolismo, do qual nunca se afastou e que foi a sua ruína. Após a sua carreira futebolística de predestinado e o ápice aos 22 anos, Best iniciou uma parábola descendente dizimado pelo abuso de álcool, que o levou a abandonar o Manchester até ao lento declínio, onde se tornou a cópia feia de si próprio, vestindo diferentes camisolas num contínuo vaivém entre a Europa e os Estados Unidos.

O documentário conta cronologicamente os acontecimentos ligados à sua vida, entre as entrevistas da época e aquelas mais recentes, feitas a colegas, amigos e ex-namoradas do Best; imagens de repositório e breves extratos onde Best se comenta a si próprio e à sua vida. O filme, do ponto de vista da reconstrução histórica, é, sem dúvida, escrupoloso na escolha das fontes e narração biográfica.

A vida do futebolista norte-irlandês, as frases lendárias que se considera que ele pronunciou, já foram matéria de reportagens, ensaios desportivos, documentários dedicados e filmes, entre os quais o biopic Best, de 2000, de John Lynch.

O filme conta-nos o drama shakespeariano de Best, isolado nos problemas de depressão e alcoolismo, que o levou à rutura de amores e amizades, aos problemas de saúde e à imagem dele moribundo no jornal News of the World. Os inícios, os sucessos e o declínio de um homem que foi capaz de reconhecer a sua própria grandeza, mas que optou deliberadamente por seguir o caminho da autodestruição.

O fascínio de George Best não está só no seu personagem constantemente além do limite, entre o génio e a impunidade, mas nesta dimensão profundamente humana e contraditória do herói que se torna anti-herói. Um deus decadente. Das entrevistas recolhidas, revela-se um personagem de dupla personalidade: uma tímida e adorável, outra obscura e destrutiva, digna de um personagem de romance, baudelariano, que encarna em si quase as características do artista amaldiçoado.

Todavia, a estrutura do filme é bastante estática com a escolha desta metodologia narrativa cronológica. Uma leitura quase didática que repete os cânones do documentário desportivo, mas que quase nunca se transforma em algo mais. A intenção é mais historiográfica do que “estética”. O comentário musical, podia rejetar, de certa forma, esta invariabilidade estilística: as notas melancólicas do piano no fundo podiam ser substituídas com uma banda sonora mais representativa da época (considerando a grande variadade musical da década de 60 e 70).

A obra inscreve-se numa corrente de documentários desportivos que esperaríamos ver numa programação televisiva; o filme foi distribuído pela BBC e pela ESPN e parece mais adequado a estes fomatos.

Resumindo, a atenção aos detalhes teve que corresponder a um maior comprometimento na produção estilística. George Best: All by Himself corre o risco de ser um texto visual que não conta nada que já não soubéssemos, do qual, no entanto, temos que apreciar a lealdade e a aderência da reconstrução histórica.

Para quem vê pela primeira vez a história de George Best, o filme será exaustivo. Os amantes de futebol talvez permaneçam com um gosto amargo na boca, por não serem capazes de compreender e contar a contradição poética de um personagem que jogou contra a própria vida.


 

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