Crítica – Freaky Tales

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Freaky Tales apresenta um espetáculo hiper-estilizado vibrante, repleto de adrenalina e homenagens ao cinema dos anos 80, sem pretensões de grande profundidade temática.

Como tenho referido ao dos meus anos de escrita cinéfila, nem todos os filmes necessitam de ser narrativamente e tematicamente profundos, impactando o público de tal maneira com as suas mensagens filosóficas que as suas vidas mudam por completo. Cinema é, entre muitas coisas, entretenimento. Logo, não é de surpreender quando surgem obras como Freaky Tales que misturam géneros, tons e todo o tipo de histórias com um foco singular em conquistar a audiência através de diversão constante.

O duo cineasta Anna Boden e Ryan Fleck (Captain Marvel) traz uma narrativa dividida em quatro histórias distintas interligadas num tributo aos anos 80 do cinema. Aproveitando locais reais e eventos verídicos de Oakland, Califórnia, Freaky Tales acompanha adolescentes punk numa luta contra neo-Nazis: uma dupla feminina a tentar ganhar reconhecimento no mundo do hip-hop, um hitman à procura de redenção e um jogador de basquetebol famoso numa missão de vingança.

Todas estas linhas de enredo encontram-se ligadas por pormenores, uns mais relevantes que outros, mas o objetivo principal de Freaky Tales não passa por aprofundar os temas de rebeldia, expressão cultural, justiça ou até nostalgia, que se inserem no tópico mais geral de histórias típicas de underdog. O potencial para explorar o espírito resiliente das minorias contra normas sociais, violência e barreiras sistémicas é visível ao virar de cada esquina, mas Boden e Fleck escolhem entretenimento hiper-estilizado em detrimento de profundidade temática.

O grande destaque de Freaky Tales reside na sua ousada fusão de géneros. A obra mistura elementos de ação, comédia, thriller e sci-fi, com pinceladas de horror e surrealismo, criando um verdadeiro caldeirão cinematográfico. O resultado é uma experiência visual de tom caótico, mas quase sempre interessante. A forma como os cineastas transitam entre estes estilos sem perder o ritmo é um dos aspetos mais impressionantes do filme.

Se a decisão é a mais acertada ou não, dependerá da experiência de cada espetador, mas pessoalmente, sou obrigado a dar o braço a torcer em relação à execução impecável e dedicação louvável dos cineastas para com a sua visão. Freaky Tales vai-se aguentando através de referências, homenagens e até aparições fascinantes nas suas histórias, mas as dúvidas sobre a eficiência narrativa geral são destruídas aquando a conclusão verdadeiramente insana. Um all-in extremamente sangrento, recheado de toques da década de 80 – instrumentos de espichar sangue, bonecos a explodir – numa sequência longa de ação com imensas acrobacias e excelente trabalho de câmara.

Freaky Tales não é propriamente coeso narrativamente, mas acaba por compensar nas ligações básicas entre as diferentes linhas de enredo com os tais toques técnicos que agradarão ao público mais cinéfilo e com o entretenimento simples que satisfará a audiência em busca de razões para enfiar a mão no balde de pipocas. A banda sonora de Raphael Saadiq & Yancey Sukoshi também merece destaque pelo ritmo pulsante que contribui para os elevados níveis de energia da obra, assim como escolhas musicais memoráveis – nomeadamente “For Whom The Bell Tolls” dos Metallica.

A nível de performances, o destaque maior será provavelmente Jay Ellis (Top Gun: Maverick) como Sleepy Floyd, muito devido ao clímax do filme ser praticamente todo dele. Pedro Pascal (The Last of Us) já se tornou num daqueles atores que sabe executar o seu papel na perfeição e a sua carreira demonstra que o “tipo rijo” é um arquétipo de personagem que domina. Normani brilha na sua estreia em longas-metragens, ao passo que Dominique Thorne (Black Panther: Wakanda Forever) traz um carisma fantástico, sendo a rap battle das duas atrizes um dos momentos mais cativantes do filme.

VEREDITO

Freaky Tales cumpre exatamente aquilo a que se propõe: um espetáculo hiper-estilizado vibrante, repleto de adrenalina e homenagens ao cinema dos anos 80, sem pretensões de grande profundidade temática. Se por um lado a narrativa peca por falta de coesão e desenvolvimento mais substancial dos seus temas e personagens, por outro, compensa amplamente com um ritmo frenético, visuais distintos e um espírito de puro entretenimento que mantém os espetadores cativados do início ao fim. Entre prestações carismáticas, uma banda sonora eletrizante e um final absolutamente caótico, Anna Boden e Ryan Fleck entregam uma obra que, embora possa não ser para todos, certamente encontrará o seu público entre os fãs de cinema de género e nostálgico.

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