FMM Sines: Entram no castelo ou ficam cá fora?

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Entre o castelo e as ruas, o FMM Sines oferece duas experiências distintas – e nenhuma está errada.

Texto de: Graziano Tullio

Rumo a Sines, vindo de Lisboa, partilho a viagem com um jovem casal de Leiria através de uma plataforma de boleias. A primeira pergunta surge logo: “Vais entrar no castelo ou vais ficar de fora?”

O FMM Sines será provavelmente o único festival onde esta pergunta faz verdadeiro sentido.

De um lado, há os concertos pagos, dentro do castelo, ainda assim com preços muito acessíveis. Do outro, existe um programa gratuito que ocupa praticamente toda a cidade: concertos dentro do próprio castelo durante o dia, palcos espalhados pelo centro histórico, atuações junto à praia que se prolongam noite dentro. E, como se isso não bastasse, a organização do FMM Sines montou ecrãs gigantes no exterior das muralhas para transmitir os concertos que estão a acontecer lá dentro para quem preferiu não comprar bilhete. Esse talvez seja o gesto mais democratizante do festival e aquele que melhor define o seu caráter.

Há quem esteja a ver os concertos. Há quem esteja apenas sentado nas praças ou nas ruas a conversar com amigos, a beber um copo ou um café, mas sempre com a música por perto. Há quem, de repente, improvise dois passos de dança com um grupo de desconhecidos que passa, trocando apenas um olhar cúmplice antes de cada um seguir o seu caminho. E, como se a música do programa oficial não bastasse, há ainda músicos de rua por toda a cidade: saxofones, djembés, flautas, guitarras. Pequenos círculos de pessoas formam-se espontaneamente à volta de artistas sentados no chão, junto a uma igreja. Ao lado, artesãos expõem peças feitas à mão enquanto uma coluna toca psytrance, misturando-se com guitarras de espírito mais hippie. Tudo acontece ao mesmo tempo, sem parecer desordenado.

Mesmo apreciando toda essa energia das ruas, acabei por entrar no castelo quando subiam ao palco The Cavemen. o primeiro dos três concertos da noite. O duo nigeriano de baixo e bateria toca como duas crianças que acabaram de receber um brinquedo novo no Natal. E haverá algo mais contagiante do que ver uma criança completamente absorvida pela alegria de brincar? Foi exatamente assim que o público se deixou levar. Mas, como todos os grandes artistas sabem fazer, uma atuação nunca vive apenas de um registo. Canção após canção, levam-nos por uma viagem com diferentes marés. Em “Adaugo”, a voz explora jogos vocais, agudos e spoken word, transmitindo uma intensidade que deixa o público praticamente imóvel, preso a cada nota. Depois chega “Bena” e instala-se a festa. Ninguém consegue ficar parado.

A seguir, entra em palco a italiana – ou melhor, napolitana – La Niña. Basta um foco de luz branca sobre o vestido preto e uma voz capaz de encher todo o castelo para captar imediatamente a atenção. Fala bastante entre músicas, brinca com o público e tenta criar uma ligação genuína. Mas, na verdade, já não precisa de fazer muito mais. Depois de algumas canções, “Mammamia” transforma o castelo inteiro. O público rende-se não só à sua presença, mas também ao excelente trabalho das coristas, que acrescentam novas camadas sonoras a uma música onde tradição napolitana e eletrónica convivem naturalmente. Quando chega “Figlia d’ ‘a tempesta” uma das suas canções mais conhecidas, torna-se impossível não reparar na comunidade italiana presente nas primeiras filas. Cantam cada palavra, dançam com orgulho e celebram uma identidade que La Niña consegue transformar numa experiência partilhada por todos, mesmo por quem não percebe uma única palavra de italiano.

Depois chega Made Kuti, trazendo consigo toda a herança do afrobeat, mas também uma visão contemporânea do género. Há a emoção de ouvir ao vivo clássicos como “Water No Get Enemy”, de Fela Kuti, interpretados pelo neto do próprio criador do afrobeat. Mas é em “Story” que tudo atinge outro nível. Made Kuti constrói um solo de saxofone interminável, uma nota que parece nunca querer terminar, crescendo lentamente até explodir numa avalanche de dança, aplausos e celebração. O publico invade o palco, as dançarinas de cores fluorescentes misturam-se com os espectadores, o castelo inteiro transforma-se numa enorme pista de dança.

No fim, volto à pergunta que o jovem casal de Leiria me fez durante a viagem: entrar no castelo ou ficar de fora? Há efetivamente algo de único nos concertos dentro do castelo. A enorme empatia dos artistas. A facilidade com que dialogam com o público. A forma como leem a sensibilidade de quem têm à frente e a transformam em música. A vontade de criar uma relação de confiança. O sorriso de La Niña quando encontra alguém que partilha as suas raízes. A curiosidade de Made Kuti ao perceber que o público conhece o legado do avô. O desafio silencioso de The Cavemen para descobrir quem consegue ficar parado perante a sua energia. Por tudo isso, sim, entraria no castelo. Não apenas pelos concertos, mas pela proximidade rara entre artistas e público, difícil de encontrar noutros festivais.

Mas também não deixaria de passar horas cá fora. Sentado junto à igreja, a olhar para o mar, enquanto bato palmas ao ritmo de uma cantora alemã acompanhada apenas pela melodia que um jovem músico africano criava apenas com a boca. Um momento de intimismo inesperado, daqueles que dificilmente cabem no programa oficial, mas que acabou por oferecer-me um dos momentos mais bonitos de todo o festival.

Porque no FMM Sines não há verdadeiramente um lado certo da muralha. Há apenas diferentes formas de viver a mesma música.

Echo Boomer
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Sou o "bot" de serviço do Echo Boomer e dedico-me ao conteúdo mais generalista e artigos de convidados, bem como de autores que não colaboram regularmente com o projeto.
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