Festival MIL – Caleidoscópio da Música

por Bruno Rocha Ferreira

O festival MIL – Lisbon International Music Network é coisa muito séria. Desde logo, pelo alcance que já atingiu, a ponto de, em conjunto com cinco outras convenções sobre música, ser fundador do JUMP – European Music Market Accelerator, plataforma apoiada ao nível da União Europeia.

Na sua terceira edição, permanece a vocação de festival moeda, com uma cara muito vocacionada para masterclasses (grande infelicidade em se ter perdido Simon Reynolds, um dos grandes do mundo do jornalismo musical), debates, workshops e oportunidades de networking; e outra para espetáculos ao vivo, que procura divulgar novos nomes do panorama nacional e internacional. Sempre ali à beira do Cais do Sodré, em múltiplos espaços.

Assim, e ao nível da cara do MIL, foi possível assistir a algumas apresentações, como a de Bananas, uma startup portuguesa especializada em home áudio já presente em 30 mercados diferentes; a plataforma Women In Live Music, a qual conta com mais de 2000 membros e que procura dar mais oportunidades às melhores que trabalham atrás do palco, as quais, de acordo com a apresentação, representam menos de 10% dos profissionais ligados à área; ou a aplicação Blockchain My Art, com vista a criar novos sistemas de pagamentos em festivais de música (by festivals for festivals, conforme anunciam), e que referem a procura de um trust transparency conscious consumerism, através do qual é possível ao consumidor perceber de que forma é redistribuído o dinheiro que gasta nestes eventos.

Tempo ainda para a Butik, plataforma italiana com apoio do programa governamental Innovazione Culturale, com vista a aumentar o turismo musical em Itália, em particular nos chamados festivas boutique. Em particular, destaque para o programa Make Italy Cool Again, ilustrativo dos problemas que um dos maiores mercados turísticos do mundo tem com este segmento , em contraste, por exemplo com o mui internacional panorama português neste segmento.

Tempo agora de coroa, de concertos, neste tão diferente e tão (ainda) igual Cais do Sodré. Assim, o último dia do MIL brindou-nos com o belo prog dos portugueses Melquíades, o qual ocupou o MusicBox. Coisas boas se esperas destes jovens. De seguida, a catalã Intana tocava no Lounge canções de ritmo doce, e os Bluish faziam a candidatura portuguesa à herança dos Beach House no Viking.

Tudo ótimo e excelente, mas a hora de partir a louça chegou da capital do rock, a minhota Barcelos, com os Solar Corona a dar tudo num concerto intenso no Sabotage. Concerto certo no sítio certo, combinação vencedora. Para variar, Marc Melià dava no Lisboa Rio um concerto bem mais contemplativo de teclas e voz distorcida (por vezes, a lembrar os Air de 10 000 Hz Legend), e os bambinos lusos Môrus têm o supremo atrevimento de fazer uma versão de “Porque Não me Vês”, de Fausto, com a sua despudorada bateria. E ainda bem.

O punk ao estilo 77 também faz a sua aparição com os Charlie and the Lesbians a eletrizar o Sabotage, e um vocalista com excelentes probabilidades de ganhar concursos de look alike de um jovem Billy Corgan. O brasileiro Edgar deu boa nota da sua mistura entre hip hop e Ney Matogrosso, com a riquíssima cultura visual brasileira a dar a sua contribuição nas projeccções no ecrã de fundo.

Há de tudo no MIL. Até rock de garagem made in Taiwan. Mais concretamente, dos 88Balaz. Malta de fato de escuro e que leva muito a sério a sua missão. Mereciam mais gente no geograficamente apropriado Tokyo, ao seu estilo Victor Gomes e os Gatos Pretos.

A festa hip hop lo-fi gipster sheat do Conjunto Corona chegou direitinha dos subúrbios do Porto, da grande rotunda de Santa Rita, e ironicamente coube bem no ultra urbanita piso de cima do Mercado da Ribeira. A que nível é que a mensagem passou, é um mistério. Mas passou, é certo.

Para final, Conan Osiris, claro. Com direito a dançarino, sim, e à primeira performance ao vivo de “Telemóveis”, desde que a consagração festivaleira chegou. Talvez até tenha sido o Conan a consagrar o festival, na verdade, tal forte é este furacão. E tantos foram os telemóveis a filmar esta figura que tão depressa se tornou incontornável. No entanto, pouco pareceu mudar na forma como interage no público, como interpreta as suas músicas. Bem-haja por isso.

Fotos de: Ana Viotti, Alicia Gomes, Geovana Serrano, Jaime Pires e Susana Porteiro

Também pode interessar

Deixar uma resposta

O Echo Boomer utiliza cookies para dar a melhor experiência possível aos nossos leitores. Aceitar Ler mais

%d bloggers like this: