Gesso antigo, metal e espelhos dão origem a Rostos / Visages, o novo projeto de Sam Baron no Bairro Alto Hotel.
Nas montanhas do Jura, na fronteira entre França e Suíça, uma aldeia de 300 pessoas serviu de berço a uma trajetória que haveria de cruzar o isolamento rural com os grandes centros europeus da criação artística. Filho de uma professora de inglês e de um pai ligado à reorganização e consolidação de parcelas agrícolas – processo conhecido em França como remembrement -, o percurso de Sam Baron começou num ambiente fortemente marcado pela vida campesina, onde as famílias locais mantinham vínculos estritos à terra e falavam com sotaques vincados. Entre a rotina das colheitas de verão na quinta familiar e a forte ênfase materna na aprendizagem escolar e no domínio da língua inglesa, despontou cedo no designer francês uma consciência viva do mundo exterior, alimentada pela perceção de que existiam outras culturas e idiomas para lá daquele vale pacato.
A inclinação precoce para o universo criativo chocou inicialmente com as expetativas dos pais, que encaravam as ciências e os cursos tradicionais, como medicina, advocacia ou engenharia, como os únicos caminhos profissionais sólidos. Após uma passagem pelo liceu a 30 quilómetros de casa, e perante a dificuldade manifesta nas disciplinas científicas, surgiu a mudança estratégica para as áreas de matemática e filosofia, que permitiu o acesso a uma hora semanal de desenho. Essa brecha pedagógica abriu caminho à candidatura clandestina aos concursos de admissão às Belas-Artes, mas uma carta da direção escolar recebida pela família desvendou o plano e quase ditou o fim da iniciativa. Contudo, a aprovação em três concursos consecutivos e a mediação fortuita de clientes da quinta, cujo genro lecionava na prestigiada instituição, garantiram um compromisso provisório de um ano para demonstrar resultados.
A formação de Baron nas Belas-Artes durou cinco anos e exigiu a escolha de uma especialização ao terceiro ano, momento em que a opção pelo design prevaleceu sobre as artes plásticas puras e o design de comunicação. O design apresentava o equilíbrio entre a exigência técnica, a relação com os artesãos e a indústria cerâmica, e um tempo próprio de maturação das peças. No último ano do curso, iniciou-se a colaboração com a revista especializada Intramuros, que abriu portas a uma viagem de cobertura jornalística à bienal de design de Lisboa, a Capital do Design. A ligação com colegas portugueses que haviam passado pelas Belas-Artes francesas facilitou o estabelecimento imediato na capital portuguesa, cidade onde a residência se fixou a partir de 2001, mantendo uma ponte profissional contínua com França e Itália face à reduzida oferta nacional da época para designers recém-formados. Seguiu-se uma residência na Fabrica, centro de pesquisa do Grupo Benetton em Itália, e um período de 10 anos na direção da instituição até 2017, ano de regresso definitivo a Lisboa.
O interesse pelos processos oficinais tradicionais conduziu mais tarde ao encontro com o acervo da Réunion des Musées Nationaux (RMN), organismo estatal francês que preserva moldes e réplicas em gesso de esculturas e documentos gráficos de museus nacionais. Originalmente situado nas caves do Palácio do Louvre, onde funcionava articulado com a Ecole du Louvre, este arquivo histórico servia tanto para reproduzir obras recebidas e trocadas com nações estrangeiras, como para alimentar canais de diplomacia cultural, fornecendo presentes artísticos a cortes europeias ou suprindo lacunas em coleções através da circulação de cópias. A expansão dos acervos ditou a transferência dessa oficina para as imediações do Stade de France, em Saint-Denis, nos subúrbios parisienses.
Nesse polo oficinal de Saint-Denis, 30 a 40 profissionais preservam técnicas ancestrais de reprodução tridimensional e de calcografia. Recorrendo a materiais orgânicos e estruturas de sustentação como crinas de cavalo, palha, madeira e gesso, os artesãos dedicam jornadas inteiras à recomposição minuciosa de cada detalhe escultórico. A observação direta de uma artesã a restaurar pacientemente, ponto por ponto, as imperfeições causadas pelo tempo e pela erosão num busto mitológico personificou o contraste absoluto entre a contemporaneidade e o rigor artesanal.

A existência de um piso superior em formato de armazém industrial e de uma cave repleta de paletes com moldes históricos acumulados ao longo dos séculos despertou um novo projeto de intervenção. Muitos desses moldes, alguns datados de meados do século XVIII e anteriores à Revolução Francesa, encontravam-se fragmentados, desgastados ou em risco de descarte por falta de espaço logístico. Em vez de recorrer ao escaneamento tridimensional moderno ou reproduzir a totalidade das peças figurativas, a pesquisa orientou-se para os moldes vazios entendidos como negativos e vestígios fantasmagóricos da escultura original.
Articulando a tradição escultórica com a oficina de trabalho em ferro recentemente implementada no local, desenhou-se um conjunto de suportes e elementos de display metálicos. Inspiradas nos exercícios de modelo vivo das Belas-Artes, onde linhas mínimas captam a tensão, o peso e a postura anatómica de um corpo em poucos segundos, as estruturas de ferro foram forjadas para devolver aos fragmentos e moldes de gesso a sua altimetria e presença espacial no espaço arquitetónico. O projeto cruza fragmentos gregos, italianos e franceses, unindo moldes em gesso a serigrafias e desenhos originais numa exposição que resgata a herança material europeia e investiga a fronteira porosa entre o objeto utilitário e a escultura.
Sam Baron tem essa exposição, intitulada Rostos / Visages, patente no Bairro Alto Hotel até 12 dezembro, reunindo seis esculturas, acompanhadas por cinco múltiplos, distribuídos pela Galeria e pela Mezzanine do hotel. Mais do que reproduzir ou reinterpretar formas clássicas, Sam Baron procura revelar a fragilidade e a humanidade que continuam presentes nestas figuras, apesar da distância temporal que separa o presente da sua criação.
A escolha do Bairro Alto Hotel também se liga ao contexto cultural do Chiado, bairro historicamente associado às artes e onde se encontram a Faculdade de Belas-Artes, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e o Teatro Nacional de São Carlos, além de várias galerias de arte contemporânea.
A Galeria do Bairro Alto Hotel tem entrada independente pela Rua do Alecrim, enquanto a Mezzanine é um dos espaços mais emblemáticos do edifício. Desde a abertura, em 2005, o hotel tem mantido uma relação com a arte contemporânea, sobretudo portuguesa, e reúne uma coleção que inclui pintura, fotografia, escultura, cerâmica e tapeçaria de vários artistas nacionais.
Fotos: João Figueiredo
