Ensaio ao Firefly Comfort: o citadino que quer convencer chegou para ficar

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O Firefly Comfort é um elétrico urbano diferente, com interior surpreendente, muita usabilidade e aptidão para ir além da cidade.

De há uns anos para cá, a forma como olhamos para as marcas chinesas de automóveis que chegam ao nosso mercado tem vindo a mudar substancialmente. No início, existiu algum ceticismo para com estas marcas, mas o panorama mudou, pois a indústria automóvel chinesa aprendeu com os erros, aperfeiçou-se e, atualmente, exporta para a Europa automóveis que, há uma década, ninguém acreditaria que seriam uma realidade, tanto em termos de tecnologia como de acabamento.

Esta situação levou-nos para o surgimento de várias marcas. É o caso da Firefly, pertencente à NIO, mais uma das marcas jovens de origem chinesa que chegou a Portugal com um elétrico citadino desenhado para o dia-a-dia urbano, mas que, como vão poder perceber, tem argumentos para ir além da rotina casa-trabalho.

Segundo a sua ficha técnica, o Firefly conta com uma autonomia WLTP de cerca de 300 km e posiciona-se no segmento dos compactos elétricos acessíveis, onde a concorrência já é feroz, mas cujo espaço para quem se destaca ainda existe.

Vamos então começar o ensaio a este super divertido Firefly, na sua versão Comfort, num percurso com cerca de 300km e que mistura experiência em entre autoestrada, urbano e extra-urbano.

Exterior

Ao contrário de outros carros chineses recentemente chegados ao mercado nacional, depressa se chega à conclusão de que este Firefly Comfort não é um carro consensual devido ao seu aspeto exterior bastante vanguardista. Por outras palavras, o design exterior é definido por linhas cúbicas e por um espirito bastante futurista e que nos remete rapidamente para algumas experiências que a Honda teve no passado, mas com uma linguagem visual própria inconfundível.

Tanto na sua frente como na traseira, os faróis e farolins apresentam-se como três pontos de luz redondos, dispostos em triângulo, fazendo lembrar a disposição das câmaras traseiras de um iPhone 16 ou 17 na versão Pro ou Pro Max. Estes pontos de luz encontram-se embutidos numa frente e numa traseira bastante “clean” e arrumada, o que acaba por dar a este Firefly Comfort um ar de ousadia que pode não agradar a toda a gente. No entanto, há que reconhecer que estas linhas chamam bastante a atenção das pessoas que passam na rua.

Quanto às suas dimensões exteriores, são compactas, como esperado num citadino, o que facilita bastante a vida para quem precisa de estacionar facilmente em grandes centros urbanos e onde os lugares e o tamanho dos mesmos não abunda. Mas, e apesar de se tratar de um carro compacto, o que surpreende (e muito) é o que estas compactas dimensões do Firefly Comfort escondem por detrás das portas.

Interior

Entrar no Firefly Comfort é uma das experiências mais interessantes que tive de todos os ensaios que já realizei. Aqui dentro, as palavras que melhor definem tudo o que observamos é “minimalismo funcional”. Ou seja, mal nos sentamos ao volante do Firefly, temos à disposição um pequeno painel de instrumentos, posicionado atrás do volante e que se move com ele quando se regula a coluna de direção, e um ecrã central de dimensões generosas que concentra praticamente todas as funções do carro.

Já o tablier apresenta um ar bastante limpo, composto apenas por entradas de ar integradas de forma bastante discreta e por umas simples e bem sinalizadas hastes de controlo de funções, situadas atrás do volante. Já o volante conta com dois joysticks: um para o multimédia e funções do painel, outro para o Pilot Assist e cruise control adaptativo que, ao contrário do que me pareceu inicialmente, até que são bastante intuitivos ao fim de poucos minutos de utilização.

Um dos detalhes que mais me agradou foi, claramente, a ausência de barreira física entre os bancos dianteiros, normalmente provocada pelo posicionamento e design da consola central.

Portanto, aqui não existe aquele túnel de plástico ao lado das pernas/pés e que ocupa espaço sem servir para nada, o que torna a zona central deste Firefly Comfort muito modular e versátil. Outro dos pontos que também me convenceu foi a bagageira, pois consegui lá colocar com bastante facilidade um carrinho de bebé de dimensão média/grande, duas malas de viagem e, ainda, algum volume extra, sem que nada tivesse que ser apertado ou amachucado para caber. Falando ainda de bagageira, está também disponível um compartimento dianteiro de pequenas dimensões, útil para guardar o cabo de carregamento, um pequeno saco ou outros itens de tamanho reduzido.

Um dos pontos menos positivos que encontrei neste Firefly Comfort é a inexistência de uma cortina de série para o teto panorâmico em vidro escurecido, pois num verão português, com 40 graus à sombra, o sol do meio dia a bater de chapa vai fazer-se sentir e bem, mesmo com o ar condicionado no máximo.

Sistema multimédia e conectividade

Comparativamente a muitos carros chineses que testei até agora, onde os softwares utilizados nos seus sistemas de infoentretenimento são manifestamente fracos e com desenvolvimentos ainda muito “crus”, o que encontrei no Firefly Comfort surpreendeu-me pela positiva. Logo para começar, o sistema tem uma tradução para português de Portugal muito bem feita, sem vestígios do português do Brasil ou, até, de traduções à letra da língua chinesa das suas funcionalidades, que tantas vezes encontro nestes carros. A interface do utilizador é uma lufada de ar fresco neste meio automóvel, sendo bastante intuitiva, visualmente engraçada e com menus fáceis de navegar.

Por exemplo, o Spotify e o Tidal estão disponíveis, mas exigem ligação via hotspot do telemóvel, algo que não consegui experimentar dado que não tive oportunidade de testar os serviços conectados do carro. Outro dos pontos menos positivos encontrados neste Firefly foram as limitações no rádio FM, tais como a inexistência de RDS, o que significa que apenas se vê as frequências e não nomes de estações, o que pode ser frustrante para quem não saiba de cor a estação das suas rádios favoritas e esteja habituado a que façam listas automáticas. Há, no entanto, uma funcionalidade que elimina parcialmente o problema da inexistência de RDS, embora exija uma ligação do Firefly a um Hotspot: o DAB Online. Ou seja, e assim que liguei o Firefly a um hotspot portátil, fiquei imediatamente com acesso a um catálogo alargado de rádios por país, incluindo Portugal, e até a emissoras exclusivamente online, como a RFM 90s ou a M80 Disco. No fundo, uma solução criativa para um problema real, ainda que não resolva o problema na sua totalidade.

Firefly Comfort - estações de rádio

A replicação Apple CarPlay está também presente no Firefly Comfort e adapta-se bastante bem às dimensões do ecrã deste carro, sem prejudicar o acesso às suas configurações e outras funções nativas, tais como o controlo da climatização ou o acesso direto às configurações. Outra das funcionalidades prontamente testadas foi o estacionamento automático – sim, também existe neste citadino e é um dos precisos que encontrei até agora. E sim, este Firefly tem também uma funcionalidade de mudança ativa de faixa via pisca quando circulamos em piloto automático supervisionado, algo que, até aqui, apenhas tinha visto em veículos da Tesla.

O sistema multimédia do Firefly traz também incluído um assistente de voz, o Lumo, incluído na versão Comfort, mas que ainda está apenas disponível em Inglês, o que limita bastante a sua utilidade prática em Portugal. Ainda assim, pedi a execução de algumas funcionalidades ao Lumo, e verifiquei que é um assistente bastante divertido de usar.

Ao volante

Testei o Firefly Comfort em três contextos distintos, ao longo de cerca de 300 km. A primeira etapa foi um percurso de aproximadamente 110 km, maioritariamente em autoestrada com algum troço urbano. Saí de Lisboa com cerca de 300 km de autonomia indicada e cheguei ao destino com 127 km restantes, ou seja, um gasto real de cerca de 170 km de autonomia para um percurso de 110 km em autoestrada. A média registada ficou nos 20 kWh/100 km, nada disparatado para um ritmo de autoestrada, e um resultado honesto para quem sabe o que esperar de um citadino elétrico com este perfil de bateria.

Na segunda etapa, com esses 127 km restantes, fiz cerca de 70 km em percurso extraurbano, por estradas nacionais, e cheguei ao meu destino com cerca de 50 km, tendo sido efetuado um consumo de autonomia que rondou os 57km. Neste caso, a média baixou para os 13 kWh/100 km, valor muito competitivo para este segmento. Em circulação urbana pura e já em busca de um posto para carregar o Firefly, percorri mais 20 km, tendo conseguido baixar ainda mais o consumo para os 12,6-12,7 kWh/100 km, o que é francamente bom e coloca o Firefly entre os citadinos elétricos mais eficientes que já testei.

Em toda esta viagem optei sempre pela travagem regenerativa alta em vez do modo automático, pois quando circulava sem tráfego à frente, o modo automático deixava o carro deslizar em vez de recuperar energia, pelo que preferi aproveitar ao máximo a regeneração. Para quem preferir, o modo One Pedal também está disponível no Firefly Comfort e faz bastante sentido para quem percorra diariamente vários km em ambiente urbano composto por muito trânsito e sinais luminosos.

Em termos de comportamento dinâmico, o Firefly Comfort agrada. Em percurso de autoestrada mantém-se estável, e fora desta, em cenários sinuosos, não há surpresas desagradáveis. Por exemplo, num troço de serra com piso irregular, os ocupantes traseiros que viajavam comingo praticamente não sentiram grande parte das irregularidades do percurso, nem tão pouco resultou em enjoos, pois este carro pouco adorna em curva, o que para um citadino desta dimensão é um bom resultado. No entanto, foi notado algum ruído aerodinâmico, provavelmente associado ao design cúbico do Firefly e ao posicionamento dos retrovisores exteriores. Nota-se bastante a velocidades mais elevadas, mas não chega a ser um verdadeiro incómodo para alguém que procura um citadino para percursos de cidade.

Fiquei também encantado com a simplicidade do Pilot Assist: basta um clique no botão central no joystick esquerdo e o carro está em piloto automático supervisionado. Foi bastante simples e não tive que andar à procura de botões que ativassem a função ou que me obrigassem a escolher entre regulador de velocidade e pilot assist. Já a mudança de faixa via pisca, mencionada anteriormente, funciona de forma natural e é um dos momentos em que o Firefly Comfort mais surpreende para quem não esperava este nível de tecnologia neste segmento de preço.

Veredicto

O Firefly Comfort chegou a Portugal com algo que muitos modelos chineses ainda não conseguiram trazer: coerência. É um projeto pensado ao pormenor, composto por um interior bem executado e munido de tecnologia acima da média para o segmento, realiza consumos bastante competitivos para o segmento em que se insere, e tem um comportamento em estrada que inspira confiança e não nos provoca qualquer tipo de sobressalto.

No entanto, nem tudo são rosas, nem este Firefly Comfort é perfeito, pois o teto sem cortina pode ser um problema real no verão; o rádio FM sem RDS é uma limitação que choca em 2025; o assistente Lumo em inglês é uma oportunidade desperdiçada para o mercado nacional; e há um ou outro detalhe a nível de software que ainda precisa de afinação por via OTA updates. Ainda assim, a base está lá, e foi muito bem conseguida pelos engenheiros responsáveis pela Firefly, pois para um carro de cidade que consegue fazer 300 km reais com uma condução mista razoável, que tem espaço para dar e vender, que traz CarPlay, estacionamento automático, mudança de faixa ativa e um habitáculo surpreendentemente generoso, o Firefly Comfort assume-se claramente como uma proposta séria dentro do segmento dos veículos elétricos citadinos.

O Firefly pode ser adquirido em Portugal por preços a começar nos cerca de 30.000€ para a versão Select e nos cerca de 33.000€ para a versão ensaiada, a versão Comfort.

Hugo Faria
Hugo Faria
Licenciado em Informática de Gestão e com Mestrado em Sistemas de Informação de Gestão na Coimbra Business School, fui um dos que contribuiu, do ponto de vista tecnológico, para o nascimento do Echo Boomer. Tenho uma paixão que se divide pela tecnologia, pela música e pelos automóveis, tópicos esses que são explorados por mim em cada artigo que escrevo e publico por aqui.
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