Emma Ruth Rundle no Musicbox: O equilíbrio de peso e comoção

por Pedro Cruz Silva

Dia 12 de outubro marcou o regresso pela Amplificasom de Emma Ruth Rundle à capital, depois de no dia anterior ter voltado a encantar o público portuense num Passos Manuel esgotado, feito esse repetido num Musicbox igualmente rendido. Se as três datas em abril do ano passado marcaram a sua estreia nacional num registo a solo, desta vez veio acompanhada dos músicos com que gravou o seu novo On Dark Horses, recentemente editado pela Sargent House.

A primeira parte do concerto ficou a cargo de Jaye Jayle, projeto de Evan Patterson – mais conhecido por ter sido guitarrista de Breather Resist e a sua transformação em Young Widows –, seguido por Todd Cook no baixo, Neal Argabright na bateria e Corey Smith nos teclados, percussão e segunda guitarra. Pouco passava da hora de início do espetáculo quando os quatro elementos se apresentam, num ambiente demarcado pelos focos de luz quente em lados opostos do palco, e se atiram aos ciclos sintetizados da primeira parte de “No Trail” – dessa cadência krautrock à expansão melancólica da sua segunda parte, qual western carregado de taciturnidade, ouve-se a voz grave de Evan, algures entre o timbre de Mark Lanegan e os murmúrios de Tom Waits.

Seguir-se-iam mais cinco temas retirados de No Trail And Other Unholy Paths, último trabalho editado também este ano pela Sargent House: do constante crescendo interrompido de “Ode To Betsy” até ao ritmo descompassado de “Low Again Street”, ouviram-se “Accepting”, e principalmente, a mais corrida “Cemetery Rain” e a anunciada “As Soon As Night”, com a sua contagiante aliteração “no more restlessness to wrestle with” bem reiterada.

Intercaladas por pontuais agradecimentos do vocalista, inclusive na forma de elogios à nossa gastronomia, fica a sensação que estas músicas ao vivo ganham um novo ar, como se representassem uma alma bem ao jeito de americana num corpo gothic rock, onde o niilismo neofolk se coaduna com um blues mais escuro, imaginando o que seriam os Nick Cave & The Bad Seeds a comporem bandas sonoras para os filmes de David Lynch – ora não tivesse Dean Hurley, o seu supervisor musical, produzido este disco da banda.

Seria, no entanto, para o segundo ato deste concerto que todos estavam presentes. Hora e meia depois da abertura de portas e Emma Ruth Rundle subia ao palco fazendo-se acompanhar por dois elementos de Jaye Jayle – o seu marido, Evan Patterson, retomando o mesmo lugar na guitarra e como voz de apoio, e Todd Cook no baixo, à esquerda –, mais Dylan Nadon, baterista dos Wovenhand de David Eugene Edwards.

Disposta no centro – com um pano de fundo branco, em contraste com a temática sobre cavalos negros, onde era visível uma égua antropomórfica e as letras ERR, como se de runas se tratassem, – o acanho da artista em enfrentar a avolumada plateia era quase palpável, embora nada se lhe pudesse apontar à maneira como, em conjunto com a banda, se lançou a três temas de On Dark Horses: “Dead Set Eyes”, “Fever Dreams” e “Apathy On The Indiana Border” soaram tal como os conhecemos do disco, na sua fusão de algum post-rock e espírito folk orelhudo, com os arranjos dos músicos a deixarem as composições respirar, e o carisma de Emma a impor-se ainda mais além do que a sua belíssima voz é capaz de alcançar.

Tempo para, uma vez mais, ser vocal quanto ao carinho que nutre por Portugal e o quão feliz foi nas datas que anteriormente a trouxeram ao nosso canto, pois, nas palavras da própria, nunca tinha sido tão bem recebida, para de seguida quase nos pedir autorização e remeter ao seu álbum anterior, Marked For Death, de 2016, através de “Protection” e “Marked For Death”: sem dúvida uma experiência interessante sentir uma vertente mais trabalhada e pesada destes temas, em comparação ao que antes lhe fora possível demonstrar sozinha, pelo menos ao vivo, sem que qualquer carácter se perdesse nesta entrega partilhada.

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“Darkhorse”, dedicada à sua irmã, pelas vicissitudes da vida que representa, foi o mote para voltar a pegar no lançamento equestre, adicionando-lhe “Control”, o esperado duo com o seu parceiro em “Light Song” e, apenas intervalado pelo recuo a “Heaven”, sucede-se a surpresa de ouvir “You Don’t Have To Cry”, música que a intérprete avisa antecipadamente que só seria a segunda vez que a tocavam, pedindo desculpas caso não soasse como devia – evidentemente que não houve nada a temer e o seu tom esperançoso se deixou ecoar.

Por fim, e mesmo sem sair de cena, brincando que não valeria a pena retirar-se e voltar a entrar para formalizar o encore, é abandonada pelos seus companheiros de modo a dar-se por inteiro numa versão mais despida e crua de “Shadows Of My Name” (Some Heavy Ocean, 2014), onde só sobram a guitarra eléctrica e a voz assistidas pelas batidas firmes de uma bota no soalho: melhor maneira não haveria de terminar esta exposição de um diamante em bruto.

Por certo que as comparações a nomes como Chelsea Wolfe e Marissa Nadler, entre o negro e o etéreo, são imediatas, mas a verdade é que Emma Ruth Rundle tem vindo a trilhar um percurso muito próprio do qual, perante tamanha exposição, e pela evolução do que tem sido a multiplicidade do seu trabalho, se espera que seja crescentemente mais reconhecida, até por quem se mova além deste meio.


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