Ed Motta – Ficção Científica e o bigode de Tom Selleck

Pouco mais de três anos após a sua última visita a Lisboa, Ed Motta aterrou no Parque Mayer na última segunda-feira.

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Num Capitólio desta vez com uma configuração bem ajustada ao espetáculo – parte bancada sem lugares, partes plateia em pé – os sexy moves de Ed Motta e seus rapazes começaram desde logo a marcar o que viria a ser este concerto. Uma mistura de estilos e línguas, bem ancoradas no jazz e num ambiente familiar e de descontracção. Como Ed disse, isto não era um concerto de U2, por isso mais valia desligar a máquina de fumos. E assim foi.

A voz melifluente é, não há forma de escapar, a principal arma do brasileiro. Capaz de transformar a letra mais árida no mais puro easy listening, tudo soa bem cantado por Ed Motta, e a banda bem treinada garante o acompanhamento apropriado que caberia bem uns metros mais ao lado, ali no Hot Clube.

Calha muito bem que, ainda por cima, Ed Motta tem um imaginário interessante a acompanhar. Músicas como “S.O.S. Amor”, por exemplo, são representativas das suas narrativas, pequenas histórias inspiradas pelo cinema, pela literatura de ficção científica ou policial, ou pelo universo televisivo da sua infância, nos anos 70 e inícios de 80. Daí ser fácil concordar com a sua felicidade em dizer que pela primeira vez escreveu todas as letras de um disco no seu mais recente longa duração, Criterium of the Senses.

Está certo. Ninguém faz Ed Motta tão bem como ele próprio, e quando passa para as teclas a sua mistura de estilos, com funk e R&B bem presentes em conjunto com jazz a vir ao de cima, isto torna-se ainda mais notório. Por vezes mais clássico, por vezes mais experimental em termos musicais, a sua linguagem é a de um intimismo com a sua própria particularidade, na qual podemos ver reflectir a nossa.

Assim se passa também com as várias letras em inglês, como “The Runaways”, ou na inspirada no genérico de Magnum PI, mítica série que fez o jovem Ed pensar que Tom Selleck era o seu pai televisivo, “Flores da Vida Real”, do álbum AOR – Adult Oriented Rock (outro dos fascínios do artista), sempre com um tom algo extraterreste a não estar muito longe.

De facto, ao pouco ou nada falar da sua própria vida, acaba por se ter acesso a um universo eminentemente pessoal e rico. É um sítio de uma estranheza boa e confortável, este. Devia estar disponível mais vezes.

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