Drag x Drive é um conceito estranho para tirar partido das capacidades dos novos Joy-Cons, mas é capaz de divertir, ainda que tenha pouco para oferecer.
Imaginem o seguinte cenário. Estão online com amigos, que tem uma Nintendo Switch 2, que já se encontra recheada de um catálogo invejável de party games e outros jogos multijogador, e alguém propõe: “malta, vamos jogar aquele das cadeiras de rodas!” Se não souberem do que se trata, qual é a vossa reação? Provavelmente, será a mesma que coletivamente toda a gente teve quando assistiu à revelação de Drag x Drive durante a Nintendo Direct dedicada à nova consola. Provavelmente, também a mesma reação que me deixou algum tempo sem saber bem o que comentar sobre esta aposta.
Não há absolutamente nada de errado com Drag x Drive, mas o seu conceito basilar faz-me levantar questões, sendo a mais preponderante: “Porquê?” E serei brutalmente honesto, um “simulador” de cadeira de rodas, um jogo cuja power fantasy é ser um campeão em cadeira de rodas é estranho. Isto porque usar cadeira de rodas não é uma escolha ou opção, é uma necessidade real para pessoas que se encontram, na sua vida, limitadas num mundo que nem sempre está moldado para si. E não quer dizer que Drag x Drive não tenha potencial para consciencialização dessas realidades com as suas mecânicas bem realistas – fosse ele antes uma tech-demo -, mas a forma como eu vejo este jogo é que serve de veículo para ser um gimmick game para tirar partido das capacidades da Nintendo Switch 2 e dos seus novos Joy-Cons, que funcionam ambos como ratos, enquanto capitaliza as subscrições online, que são necessárias para explorarmos todas as dimensões do jogo.
Desabafo feito, Drag x Drive, como apontei, não tem nada de realmente errado e, na verdade, cumpre a sua promessa de forma positiva e divertida, até certo ponto, usando, então, uma das gimmicks com maior potencial da nova consola. Com um conceito aparentemente simples, no qual usamos os Joy-Cons em diferentes superfícies e os arrastamos para controlar uma cadeira de rodas, Drag x Drive é surpreendente complexo e com uma jogabilidade relativamente profunda, que emula muitas das ações reais e aplica todas as suas mecânicas num contexto, social, competitivo e desportivo. Drag x Drive é, assim, um jogo de basketball em cadeira de rodas com um twist. Drag x Drive é extremamente físico, que se encaixa na categoria de experiências como a série Sports e Ring Rit Adventures, com formas muito especificas de se jogar, que nos colocam a mexer e, em retrospetiva aos meus pontos inicias, se calhar uma ótima experiência alternativa aos jogadores Nintendo cujas limitações físicas os impediam de jogar outros jogos deste género.
Dada a sua natureza, apesar de poder ser jogado num sofá, com os Joy-Cons ao nosso lado – ou numa secretária com os mesmos em cima dela, como se agarrássemos num rato –, não há propriamente uma forma errada de o jogar, mas poderá variar do conforto de cada um. Deslizando os dois Joy-Cons para a frente somos lançados na direção onde estamos a apontar, para trás, fazemos marcha-atrás, e se carregarmos nos gatilhos, agarramos as rodas com força permitindo viragens bruscas ou travagens radicais. Drag x Drive faz um excelente trabalho a replicar uma física realista, o que significa que somos também confrontados com situações em que a falta de jeito se torna um desafio. Estas situações começam a ocorrer quando as mecânicas se aprofundam. Quando começamos a ter uma bola literalmente nas mãos para atirar ao cesto ou fazer passes. Quando temos que ganhar controlo para ir em direção aos adversários. Quando temos que fazer contra-ataques e até saltar rampas para “grandes afundanços”.
A curva de aprendizagem não propriamente é pequena. Drag x Drive requer tanto treino como paciência para dominar até as pequenas coisas, o que pode causar alguma resistência aos jogadores mais impacientes. Mas quando faz clique é divertidíssimo, dentro e fora do campo. As partidas são rápidas, caóticas e inesperadas. Se há um que jogador pode estar no controlo, há um outro mais desastrado pode “estragar” qualquer plano para um belo cesto. A receita para competições amigáveis está la, funciona e, se calhar, acaba por ser o inesperado sucesso da tal sessão online com amigos com que abri este texto. Drag x Drive pode ser jogado a solo, mas é com amigos e em ambiente online que brilha, muito pela partilha desse caos. Para além do basket, o jogo conta com outros mini-jogos, com time trials, bola ao cesto e obstáculos e rampas para interagir no ambiente aberto. Há ainda um modo de espetador onde é possível assistir a outros jogos e fazer cheerleading a outros jogadores, levantando os braços e simulando o bater de palmas. É adorável.
Onde Drag x Drive realmente deixa cair a bola… é na sua apresentação, com um tom demasiado tacticool e sombrio. Ainda que haja acentos azuis e vermelhos um pouco por todo o lado, a linguagem visual do jogo carece do “fator Nintendo” – de cor e de visuais amigáveis. Para um jogo que, na sua essência, quer ser divertido, a sua atmosfera é, por vezes, um pouco opressiva. Tem definitivamente uma direção de arte estranha.
Apesar de algum charme e de tirar partido das capacidades da Nintendo Switch 2, no que toca aos Joy-Cons, Drag x Drive é “pouco jogo”. Após algumas sessões, depois de me sentir confortável com os comandos, as razões para o jogar são virtualmente nulas. Não há grande incentivo além das sessões com amigos. E por muito giro que o online seja, pessoalmente, a minha vontade de jogar com estranhos não é a melhor. É um jogo que requer uma disponibilidade física que pode ser muito bem aplicada noutras experiências e que também se limita ao online para qualquer experiência social. O que é pena, porque pelos 19,99€ com que se apresenta seria um ótimo jogo para jogar localmente com amigos através de uma única consola em ecrã dividido.
Cópia para análise cedida pela Nintendo Portugal.