You Cannot Kill David Arquette – Um regresso atribulado mas certeiro ao squared circle

Wrestling profissional. Luta livre. Seja qual for o termo, a visão global de quem não acompanha a modalidade é sempre a mesma: “isto é luta a brincar”. Mas o tom da falsidade, da pantomina violenta para simular uma competição, permeia tanto o espetáculo como quem desfruta dele.

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Por: Carlos Duarte

David Arquette é um daqueles nomes que soam vagamente familiares, sem conseguirmos bem localizar qual foi o filme de domingo à tarde que vimos com ele. De novo talento da geração de 90 de Hollywood para piada recorrente sem trabalho na indústria.

Dois parágrafos separados que, sem contexto, parecem bastante difusos. You Cannot Kill David Arquette, no entanto, trata de nos construir a ponte para a relação entre Arquette e o wrestling. Fora em 2000 que David, fã acérrimo da luta livre, protagonizou o filme Ready to Rumble. Até aqui, tudo bem, se a vida real não se tivesse misturado com a película.

E a narrativa do documentário viaja entre o que parece verdade e o que parece uma imitação exagerada da realidade. O conceito de kayfabe – a manutenção, por parte dos participantes na indústria do Wrestling, da “linha narrativa” daquele universo – permeia todos os momentos da película.

Depois de ter ganho de forma surpreendente o título de pesos pesados da WCW, de Ted Turner, para promover Ready to Rumble, a comunidade de luta-livre tornou Arquette, o fã, persona non grata. Entramos na vida de David, durante a sua batalha contra o alcoolismo e uma depressão, de uma indústria cinematográfica que o descartou, como aliás faz a centenas de atores e atrizes.

You Cannot Kill David Arquette

Porém, este não é um comentário social. Nem parece ter essa pretensão. O foco é um, e apenas um: a viagem de David Arquette, inimigo público nº1 no Wrestling, para um lutador respeitado pelos pares. E este trajeto é-nos filmado num estilo meio atabalhoado, meio desengonçado, um pouco como o próprio Arquette. O percurso leva-nos pelos quintais dos subúrbios norte-americanos com ringues amadores e violência sem limites, à Lucha Libre, um dos maiores centros da modalidade no mundo.

O filme vai, com alguma dificuldade, equilibrando os momentos de treino exagerado de David com o impacto familiar no seio dos Arquette e da sua atual esposa. É, até, por vezes quase caricatural sem o pretender – há um momento em que, no México, após o treino com os luchadores, David posa num penhasco, de madrugada, com os seus treinadores e o amigo que o acompanha em toda a jornada. E, para quem entrar nesta viagem sem conhecimento prévio daquilo que é a luta-livre, encontrará um produto muito diferente dos documentários com outros níveis de produção e pretensão. Mas, enquanto apaixonado de luta-livre, é para mim o lado brilhante de You Cannot Kill David Arquette.

O arco de redenção do artista B e a viagem que faz fora das instituições mais prestigiadas da modalidade, como a WWE ou a AAA no México, leva-nos a conhecer de perto o sofrimento, a dedicação e a coragem de quem coloca o seu corpo em risco todos os dias, sem rendimento ou segurança, apenas pela arte.

Esta é, na verdade, a maior vitória de David Arquette. Ao misturar, de forma amadora mas apaixonada, as linhas que separam a realidade do enredo e do arco de redenção montado, consegue ao mesmo tempo homenagear de forma enternecedora a modalidade que o vilipendiara e o deixara à sombra.

A violência a que David é exposto até conseguir obter a oportunidade para ser considerado um lutador de Wrestling profissional é grande e, na sequência com o conhecido especialista de Deathmatches Nick Gage, quase trágica. Mas este lado, que de fora parece gratuito, é necessário. Ser lutador de Wrestling é colocar a vida nas mãos do parceiro diariamente, em cada movimento. É este caminho, até ao clímax do documentário, que nos permite também olhar para a figura do ator e do artista de outra forma.

O lutador de Wrestling é muitas vezes conotado como um charlatão, um falso atleta, mau ator. Porque não está num palco, ou atrás de uma câmara num cenário. O preconceito das artes maiores para com a luta livre é patente e não será You Cannot Kill David Arquette que o eliminará.

Contudo, de forma muito crua, acaba por nos provar que existe talento, dedicação e uma nobreza naqueles que decidem, de corpo e alma, entregar-se a este tipo de performance. Não é para todos, até porque a sua crueza não foge a demonstrações de violência capazes de ferir suscetibilidades. A janela para a vida de David é, também ela, sem filtros. E o buraco negro em que o ator se encontrava é opressivo.

A beleza poética é que o mesmo mundo que o atirara para o fundo, é o mundo que o recebe como um dos seus quando reconhece o suor, sangue e lágrimas derramadas no ringue. Kayfabe ou não, David Arquette já não é o tipo que destruiu a WCW. É o wrestler que ganhou o respeito da comunidade.

Tecnicamente imperfeito, rudimentar na abordagem à narrativa e filmagem, mas com as emoções maximizadas e à flor da pele: se este não é o retrato perfeito do fenomenal mundo da luta-livre norte-americana, está muito, muito perto.

Podem assistir You Cannot Kill David Arquette na plataforma Filmin.

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