Crítica -“Sicilian Ghost Story” – O drama de um crime da máfia contado como uma fábula

Nota: echo boomer 3 estrelas


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Sicilian Ghost Story foi o filme selecionado para abrir a Festa do Cinema Italiano. A terceira obra dos realizadores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza trata o caso do desaparecimento, prisão e homicídio de Giuseppe Di Matteo, vítima da máfia, morto em meados dos anos noventa na tentativa de silenciar o seu pai, informador confidencial. Uma história difícil de engolir ainda hoje, mas que é proposta novamente para não esquecer uma das muitas vítimas da máfia, um crime que, pela sua crueldade, suscitou sensação e horror.

O filme recebeu reconhecimento internacional e foi altamente aplaudido pela sua capacidade de condensar de um lado a história de cativeiro de Giuseppe (Gaetano Fernandez), de outro o amor e a esperança da jovem Luna (Julia Jedlikowska), sua colega de turma que nunca parou de o procurar. A história é construída como uma fábula dark, numa estrutura em espiral, onde a dura realidade e a fantasia se entrelaçam e se fundem.

De uma parte está o desaparecimento de Giuseppe, raptado pela máfia na indiferença geral da pequena aldeia siciliana, por outra é apresentada a vida da rebelde Luna, apaixonada por Giuseppe, que desafiando os pais e o silêncio da escola, é determinada a procurar o rapaz, que, infelizmente, será encontrado morto depois de 779 dias de cativeiro, estrangulado e dissolvido em ácido.

Sicilian Ghost Story relembra a fábula dos irmãos Grimm, um conto real com um final trágico, onde a heroína Luna, que lembra idealmente a figura do Capuchinho Vermelho (pelo manto vestido), nunca encontrará Giuseppe. A instalação cénica, nas suas atmosferas obscuras e de sonhos, é particularmente sugestiva (ótimo trabalho de Luca Bigazzi, vencedor do “David de Donatello” pela melhor fotografia). No filme parecem coexistir dois planos de realidade: aquela verdadeira, onde a tragédia de Giuseppe e dos seus raptores é tristemente contada; e a de Luna, onde os seus momentos de consciência se misturam com os fluxos de memórias dos momentos passados com Giuseppe nos bosques das zonas interiores da Sicília (o filme foi feito entre as cadeias de montanhas dos Nebrodi). Visões fantásticas onde Luna, como nas histórias de Polegarzinho, parece encontrar algumas pistas para reencontrar Giuseppe.

Sicilian Ghost Story

A difícil relação com os pais, especialmente com a mãe, a qual fará de tudo para afastar a filha da ideia de recuperar Giuseppe, serve aqui para alimentar a distância entre Luna e o mundo dos adultos. Um mundo que reduz a atitude da menina a uma fixação quase paranoica, típica da rebelião adolescente. O drama não está só no caso de Giuseppe, mas também nesta falta de comunicação entre Luna e os outros, que levará a jovem a isolar-se.

As mesmas cenografias, a mesma natureza dos contos de fadas composta por selvas, lagos, grutas e neve, que inverte as típicas imagens da Sicília aos quais estamos habituados (o sol, o mar, as praias), serve como um pano de fundo para os estados emocionais de Luna, espetro do seu mundo interior. Contudo, a fantasia dá lugar à crua realidade: Giuseppe foi morto e, além do seu corpo, foi dissolvida a memória dele. A única que quer lembrar o rapaz é Luna, símbolo da luta contra o esquecimento, pela verdade.

Se quisermos encontrar um defeito ao filme, podemos questionar a redundância desta constante digressão entre o real e o fantástico (evocativo do Realismo mágico) que, embora constitua a mesma estratégia da evolução narrativa, torna-se às vezes artificial e cria uma certa descontinuidade.

Na narração de um crime da máfia, o filme devolve o olhar dos dois adolescentes em luta contra um mundo hostil, numa síntese entre a fábula e o romance de formação, misturados com a tragédia dos factos dos noticiários. A utilização de uma excelente fotografia e das cuidadosas soluções cenográficas, fornecem à história uma dimensão introspetiva, capaz de traduzir o sofrimento existencial dos dois protagonistas.

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