Crítica – Insert Coin

Um documentário que conta uma época tão recente, mas que parece ter sido noutra vida, com a evolução astronómica dos videojogos.

Insert Coin
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Os anos 80 foram marcados intensamente por um boom na indústria dos videojogos. Mais concretamente com o desenvolvimento das máquinas arcade, que vieram substituir as antigas máquinas mecânicas de pinball, febre que se prolongou até finais dos anos 90.

Na viragem do milénio, a evolução de renderização dos gráficos das consolas individuais veio ditar um fim repentino a tudo o que envolvia as clássicas máquinas gigantes, dotadas de joysticks e botões mecânicos super resistentes (até aos jogadores mais frustrados). Com isto, começaram também a desaparecer os salões de jogos, onde tanto tempo passei enquanto garoto.

Insert Coin é um documentário que explora a influência destas máquinas gigantes – que, de certa forma, servem de analogia aos dinossauros, neste caso dos videojogos – na sociedade e cultura Pop. Mais concretamente as arcade da Midway Games, anteriormente conhecida como Williams Electronics, sediada em Chicago, empresa que dominou o mercado dos salões de jogos nos Estados Unidos e faturou biliões em quarters (moedas de 25 cêntimos).

Ao longo deste documentário, assistimos a entrevistas íntimas e recheadas de boa disposição aos responsáveis pela criação e desenvolvimento jogos arcade icónicos, como Total Carnage, Terminator 2, Mortal Kombat e NBA Jam. Percebemos, também, que mais do que uma empresa de videojogos, a Midway Games era um grupo de amigos, amigos esses que, durante duas décadas, foram os grandes rockstars da indústria dos videojogos, sobretudo em solo americano. A influência nos jovens foi gigantesca, à semelhança da faturação, até que do dia para a noite deixou de o ser.

Insert Coin

Desde muito cedo que, para além de lançar os seus jogos em formato arcade, a Midway também os adaptava às consolas individuais da altura (Nintendo, Sega, Atari, entre outras). No entanto, o que fazia vingar as consolas arcade era o facto da indústria dos videojogos estar numa fase muito rudimentar de gráficos, a desenvolver a um ritmo médio, e também porque as consolas individuais ainda eram caras para o consumidor comum. Coisa que mudou no final dos anos 90 e revolucionou essa indústria, deixando de ser rentável continuar a produzir sistemas arcade.

O documentário divide-se em capítulos, em contagem decrescente até os sistemas arcade chegarem a um fim. Os capítulos fazem um paralelismo inteligente, sendo descritos em “créditos”, cujo numerário vai decrescendo ao longo do documentário e até ao fim do mesmo, onde fecha com a clássica frase “Insert Coin“.

Além de revisitar muitos arquivos antigos de ouro, o documentário apresenta sempre testemunhos recheados de boa disposição por parte dos vários responsáveis pelo sucesso dos jogos arcade da Midway, bem como a sua visão e partilha de memórias relacionadas com a proliferação dos videojogos e o seu desenvolvimento acelerado com a viragem do milénio.

É um documentário com mais de uma hora e meia, mas que se vê e digere muito facilmente, graças à sua fluidez e construção simples e cativante. Caso os sistemas de videojogos arcade tenham feito parte da vossa vida como fizeram da minha, vão encontrar satisfação e nostalgia em Insert Coin. Ficam as saudades (bastantes) de conhecer e socializar em pessoa com outras pessoas em salões de jogos, onde moeda após moeda, os laços de amizade iam-se desenvolvendo ao mesmo ritmo que a nossa perícia nos videojogos.

Hoje em dia já é difícil encontrar destas máquinas arcade e, quando encontramos, o mais provável é estarem desligadas, servindo apenas como elemento de decoração. Isto porque a escassez de moedas de 20 escudos (ou 50 cêntimos) dentro desses dinossauros não só deixou de gerar lucro, como passou a dar despesa, não compensando sequer o gasto em eletricidade. Com o desligar da última tomada, morreram milhares de salões de jogos pelo mundo fora, substituindo a convivência orgânica, a socialização e a criação de laços de amizade fortes pelo individualismo e pelas amizades online à distância, muitas vezes com pessoas que nunca vão passar de uma voz nos auscultadores.

Não me interpretem mal. Jogo e compro PlayStation desde a primeira que saiu e, apesar de preferir um bom jogo offline, jogo a minha quota parte online, até porque muitos jogos o exigem para serem aproveitados a 100%. Contudo, acho que o facto de atualmente existir algo mais prático e cómodo matou uma forma de encarar a cultura dos videojogos e mudou a forma como os jogamos (outrora muito importante, hoje cada vez mais escassa): jogar com amigos, na presença deles.

Insert Coin

Pessoalmente, continuo a ser old school ao ponto de, sempre que compro uma nova consola, a minha prioridade (antes de investir em vários jogos) é certificar-me que tenho quatro comandos. Graças a isto, há muitos fins-de-semana em que, na minha sala, os vislumbres de um passado recente recriam o ambiente de um salão de jogos arcade, com a mesma felicidade, partilha e amizade. Claro que numa escala mais pequena, mas a verdade é que, durante essas efémeras horas (que passam a voar), sinto que o tempo para e sou invadido pela nostalgia e felicidade que sentia nos anos 90.

Enquanto via este documentário, só pensava nas saudades que tinha de ir a um salão de jogos gastar moedas de 20 e 50 escudos em consolas arcade. Sem querer, o documentário desbloqueou o meu subconsciente e, do nada, revisitei os últimos 20 anos da minha vida e percebi o que descrevi acima: apesar dos salões de jogos terem morrido, a ideologia, o objetivo e o propósito da cultura criada por eles continua bem viva em cada um de nós. Agora, tudo o que nos resta é passá-la aos jogadores mais novos para que, durante muitos anos, o mote “Insert Coin” continue a ser sinónimo de algo maior do que jogar online (ou seja, sozinho).

Insert Coin está disponível para compra/aluguer na Alamo.

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